Vapesol abre nova unidade após tiro certeiro no EVA

Revelou-se uma aposta ganha aquela que foi protagonizada pela administração da Vapesol, empresa que se dedica à produção de solas para calçado. Um “boom” na procura do material EVA, que se distingue pela sua leveza, obrigou a empresa a investir cerca de dois milhões de euros, numa segunda unidade produtiva, também ela localizada em Revinhade, e que se dedica exclusivamente à produção de solas EVA, Mas a meta está traçada e passará por reintegrar, até 2025, todas as áreas da Vapesol num só Complexo Industrial. Quem o afirma é o CEO Décio Pereira.

RVJornal (RVJ) - A Vapesol acaba de abrir uma nova unidade industrial. Como é que isso aconteceu?

Décio Pereira (DP) - Desde 2018 que a Vapesol tem vindo a demonstrar interesse em diversificar a produção. De momento, o material em voga é o EVA. Numa fase inicial, comprámos uma máquina pequena para fazer experiências e sondar o mercado para ver o nosso nível de competividade em termos de preço e qualidade/serviço. Foi no início de 2020, que coincidiu com a chegada da pandemia, que tudo aquilo que nós estivemos a semear e a publicitar começou a ter efeitos em termos de produção. A pequena máquina de que dispúnhamos já não dava resposta. Tivemos um ano de bastante crescimento neste tipo de produto, até que em janeiro de 2021 se deu o “boom”. Não estávamos à espera desta procura que passou a ser enorme. Tivemos de escolher entre parar ou investir. Acabámos por fazer um investimento de dois milhões de euros em equipamentos, porque as instalações são próprias e, neste momento, somos a maior empresa nacional na produção de EVA. Temos, inclusive, planos para expandir, mas não neste pavilhão, porque este já se encontra lotado. Estou convencido que no próximo ano, estaremos a produzir 4 mil pares por dia. Não estamos muito longe disso, o que representará, só nesta unidade, 1 milhão de pares por ano. Nas duas unidades, estamos a produzir quase 5 milhões de pares, Este ano, esse número será ultrapassado. Só nestes primeiros quatro meses, já estamos com um crescimento na ordem dos 26%.

RVJ - A criação desta segunda unidade permitiu novas contratações...

DP - Cerca de 50 pessoas. Foi uma tarefa bastante difícil porque há um ano e três meses dispúnhamos apenas de quatro pessoas a trabalhar com este material.

RVJ - Ainda há abertura para que outras pessoas possam integrar a equipa Vapesol?

DP - Neste momento, a unidade Eva está completamente preenchida e nestas instalações, que dispõem de cerca de 1300 metros quadrados, não existe capacidade de expandirmos mais. No entanto, para a nossa unidade principal comprámos mais algumas máquinas para produzir outro tipo de material e falta-nos recrutar cerca de seis pessoas.

RVJ - Quais são as especificidades deste material que se designa como EVA e que tem feito sucesso no mercado do calçado?

DP – É um material que já existe há muitos anos, mas não na indústria de calçado. Impôs-se no mercado mais intensamente nos últimos quatro anos, porque as marcas procuram a leveza associada à moda. Se olharmos para os nossos pés, percebemos que usamos cada vez mais sapatilhas.

RVJ – Percebe-se que o foco está na produção do EVA tradicional, mas o vosso trabalho vai mais longe…

DP – Sim, de facto o nosso foco está no EVA tradicional, mas quem quiser ir mais além e atingir nichos muito importantes tem de pesquisar para encontrar novos materiais e a verdade é que já estamos a trabalhar nesse sentido, nomeadamente para marcas de maior renome, que apreciam a leveza, mas que também gostam de um toque mais flexível. Por isso, conseguimos desenvolver um material, em que misturamos cerca de 50% de EVA tradicional com 50% de borracha látex tradicional. Daí termos criado a nossa marca VP LightRUBBER para marcas de luxo que vendem em loja, calçado na ordem dos 400 a 600 euros. Ao mesmo tempo também existem muitas preocupações ao nível ambiental e temos procurado alternativas na área da sustentabilidade. O EVA tem as vantagens referidas anteriormente, mas depois também tem a desvantagem de ser um termoplástico não reciclável.

RVJ – Mas, entretanto, já conseguiram a reincorporação do material EVA em novos produtos?

DP – Foi em 2019 que começámos a investigar, em conjunto com um fornecedor de Leiria, uma empresa de Hong Kong e o Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros da Universidade do Minho, e conseguimos adaptar uma tecnologia que já existia no mercado mas que não era aplicada ao setor do calçado, e que permite a reincorporação na ordem dos 20 por cento de material EVA (desperdício) que anteriormente tínhamos de pagar para ir para o aterro – o EVA Green. Pelo menos, na Europa, ainda ninguém faz isso.

RVJ – A Vapesol tem sido sinónimo de tecnologia e inovação, certificação, sustentabilidade, tendo agora, mais uma vez, investido na área produtiva. O que se segue?

DP – A Vapesol está em contínuo investimento. Neste momento, o nosso foco é aperfeiçoar todos os processos. Estamos, inclusive, a desenvolver um trabalho com o Instituto Kaizen, que surgiu com a Toyota, no Japão, mas que tem filial em Portugal, em tudo o que venha a significar a melhoria da produção. Prosseguiremos a Certificação Energética e a aquisição de equipamentos de automação. Ou seja, neste próximo ano investiremos cerca de meio milhão de euros para melhorar as nossas dinâmicas. Além disso, há cerca de quatro meses colocámos cerca de 250 painéis fotovoltaicos de produção de energia e agora iremos colocar mais 250, o que também se deve ao aumento do custo da energia. Estamos a falar de um investimento total na ordem dos 250 mil euros. No entanto, o nosso custo energético, em comparação com outras indústrias, não é significativo. Temos uma fatura das duas unidades na ordem dos 20 mil euros que, neste momento, está em cerca de 50 mil euros. Temos contratos a três anos. Não vou dizer que não me preocupo, mas estes aumentos tiveram de ser refletidos nos preços de venda, o que também não é positivo, porque os clientes não gostam. É preciso encontrar soluções, não basta ir ao mercado e dizer que queremos que paguem mais 10%, porque depois há as consequências.

Futuramente, o nosso objetivo passará claramente por construir uma unidade industrial, para a qual já estamos a adquirir bastantes terrenos, cerca de 50 mil metros quadrados, para mais tarde, para já é difícil dizer quando, porque estamos a falar de um investimento muito significativo - na ordem dos 6 milhões de euros - construir um pavilhão de 15 mil metros quadrados. Queremos integrar todas as unidades que, neste momento, estão algo dispersas. Tenho como meta consegui-lo até 2025.

RVJ – Como está o setor do calçado? A pandemia já faz parte do passado? E a guerra no leste da Europa, já produziu consequências?

DP – Neste momento, o calçado está a passar em termos de volume [de negócios], desde que estou neste setor, ou seja, desde há 16 anos, o maior pico de produção. Efetivamente, a pandemia teve um impacto negativo nos primeiros meses. Mas, depois, a realidade é que o setor cresceu no ano de 2021 na ordem dos 11% e continua a crescer em 2022. Mas estamos a falar em termos de volume, porque é claro que a Covid, a paragem de unidades na Ásia, a alteração de rotas marítimas e aéreas e a guerra na Ucrânia vieram aumentar esta especulação existente em torno do custo das matérias-primas e da energia. Isto para dizer que este poderá ser o maior ano em termos de volume [de negócios] mas não será seguramente o melhor ano no que toca a resultados, porque não é fácil fazer refletir, no imediato, com contratos, o aumento dos custos no preço de venda dos nossos produtos.

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