Nespereira celebrou Raul Brandão, história e cultura

Entre o final do século XIX e o início do século XX, há um lugar em Nespereira onde o tempo parece suspender-se. No Largo Padre Bernardino Ribeiro Fernandes, a história, a literatura e a memória cruzaram-se, uma vez mais, em mais uma edição da Feira da Época – Ao Encontro de Raul Brandão.

Durante os dias 13, 14 e 15 de março, Nespereira vestiu-se a rigor e ofereceu uma viagem cuidada a um outro tempo. Entre trajes de época, apontamentos cénicos, recriações teatrais, música tradicional, bancas de artesanato e sabores da terra, a iniciativa voltou a mostrar que é um retrato vivo de um povo que sabe preservar as suas raízes.

E a cada passo, sentia-se esse cuidado. Havia vendedores de artesanato, doces, charcutaria, bijuteria, peças de vestuário e artigos diversos, num corredor de bancas que conduzia até à praça de alimentação, espaço de convívio onde famílias, amigos e visitantes se reuniam entre petiscos, conversas e o vaivém constante da programação cultural. Antes desse espaço, do lado esquerdo, estavam os animais: póneis, burros e cavalos, identificados com nomes como Gaspar ou Lua. Também os fregueses davam o corpo à recriação: roupas, acessórios, chapéus e até mesmo o bigode, compunham uma atmosfera onde nada parecia deixado ao acaso. Um cenário que remetia para os finais do século XIX e o início do século XX e que nos permitia mergulhar nesse mesmo tempo.

 

“Julgava que o amor ia diminuindo com o tempo. E o meu amor não cessa de aumentar” – Raul Brandão, in Húmus

Raul Germano Brandão, nasceu a 12 de março de 1867, no Porto. Militar de carreira até 1911, ano em que se reformou com o posto de capitão, dedicou-se depois ao jornalismo e à literatura, tornando-se um grande nome das letras portuguesas.

Em 1896, foi colocado em Guimarães, como alferes no Regimento de Infantaria n.º 20, cidade onde conheceu Maria Angelina, com quem viria a casar. Parte da sua vida foi vivida na Casa do Alto, em Nespereira, freguesia que hoje continua a recordar o escritor com especial devoção. Faleceu em Lisboa, a 5 de dezembro de 1930.

Autor de uma obra vasta e intensa, Raul Brandão escreveu Húmus, considerada a sua obra-prima. “Julgava que o amor ia diminuindo com o tempo. E o meu amor não cessa de aumentar”, escreveu o autor. Uma frase que também faz jus a esta feira, onde a memória do escritor e a ligação da freguesia à sua figura parecem crescer de ano para ano.

 

Uma feira que cresce sem perder o seu sentido

A Junta de Freguesia de Nespereira volta a assumir a promoção da Feira de Época – Ao Encontro de Raul Brandão, e conta com o envolvimento de instituições, associações e da própria população.

A programação arrancou ao final da tarde de sexta-feira, 13 de março, com a entrada em funcionamento da feira e com a estreia do placo a receber o Grupo Folclórico da Corredoura; seguindo-se a encenação ‘Chegada da Morte à Feira’.

A abertura oficial teve lugar no sábado, dia 14, marcada pela chegada da charrete de Raul Brandão, com a presença de Idálio Oliveira, presidente da Junta de Freguesia de Nespereira. Ao longo do dia houve ainda uma performance teatral pelo grupo Teatro Os Musiké, números circenses, a atuação de Os Amigos das Concertinas de Vizela, o desfile de bicicletas antigas promovido por Os Amigos das Pasteleiras, cantares tradicionais pelo Grupo Musiké, a participação do Grupo de Cavaquinhos Projeto + Vida, de Os Amigos da Borga e do Quarteto Arc’duto. Um dos pontos altos da noite foi o concerto de Maria João Soares, jovem vimaranense que ganhou destaque nacional ao alcançar a segunda posição do The Voice Portugal, em 2023.

No domingo, último dia das festividades, o programa incluiu a missa solene em memória de Raul Brandão, o almoço tradicional, uma nova performance circense, a atuação de Os Filhos da Adega e, a encerrar, o momento de cantares ao desafio, com Liliana Oliveira e João Oliveira.

Ao longo dos três dias, a Feira da Época mostrou uma vitalidade evidente. Não apenas pela quantidade de pessoas presentes, mas também pela forma como foi pensada para manter sempre o espaço vivo, dinâmico e participado. Esse foi, de resto, um dos aspetos sublinhados por Idálio Oliveira, no primeiro ano em que assume a responsabilidade do evento enquanto autarca.

“Esta feira é a continuidade de uma bela feira que já tem sete edições. Estamos na oitava e não podia deixar de fazer e continuar a fazer um bom trabalho”, afirmou. O responsável explicou que a base organizativa já estava consolidada, o que facilitou a preparação, mas permitiu também introduzir alguns ajustes. “Foi só acrescentar um bocadinho e dar aqui uns apontamentos à feira”, disse, referindo, por exemplo, a decisão de não realizar, este ano, a Gala Equestre. Apesar de reconhecer que esse era um momento característico na região, Idálio Oliveira admitiu que o formato começava a revelar algum desgaste: “Sabemos que a Gala Equestre é um evento característico aqui nas redondezas, uma vez que não há muitas, mas o facto de termos feito anos e anos consecutivos estas Galas Equestres levava-nos a achar que o evento já estava um bocadinho saturado, por assim dizer. Então optámos por outros momentos importantes”.

Essas mudanças centraram-se, sobretudo, no reforço da animação contínua. “Apostámos muito mais na animação, não existiram horas mortas sem animação, houve sempre um conjunto a atuar, houve sempre um artista circense a fazer alguma coisa. E isto aconteceu desde o início da feira até ao fecho da feira; durante todos os dias tivemos sempre um apontamento de animação”, destacou.

 

Expositores esgotados e uma comunidade que responde

Também a procura por parte dos expositores voltou a confirmar a dimensão que a feira ganhou. “Tem sido um sucesso. Nós esgotámos rapidamente todas as vagas que temos”, garantiu o presidente da Junta, precisando que as inscrições abriram cerca de mês e meio antes e que, “logo na primeira ou na segunda semana, ficaram completamente esgotadas”. “Neste momento, temos uma tenda com 60 metros de comprimento e 46 expositores, e não temos espaço nem para mais um”, acrescentou.

Segundo Idálio Oliveira, a área expositiva integra várias realidades. Por um lado, pequenos comerciantes de produtos como fumeiro, queijos e outros artigos alimentares; por outro, artesãos e criadores que aproveitam o evento para mostrar trabalhos manuais e produções pessoais. A estas duas dimensões juntam-se as associações e coletividades da freguesia, cuja presença é encarada como essencial. “Temos associações e coletividades de várias freguesias, que temos muito gosto em ter presentes, e contamos sempre com elas”, sublinhou.

Esse envolvimento da comunidade é, aliás, um dos traços mais fortes da Feira da Época. E isso sente-se não apenas na organização formal, mas também na forma como a população veste a iniciativa, participa, colabora e ajuda a fazê-la crescer. “Muito do que está aqui foi pensado por nós, idealizado por nós, mas cresceu com a vontade, com o saber e com os apontamentos de melhoria da população”, referiu Idálio Oliveira. “Isto nasceu uma coisinha muito pequenina, num espaço muito reduzido, e agora está uma coisa muito grande. E não é só com o trabalho da Junta de Freguesia, não é só com o trabalho das associações, é com o trabalho da comunidade. E é isto que me orgulha, porque, efetivamente, neste momento, nós temos a comunidade toda a trabalhar. E assim é que deve ser.”

 

Raul Brandão no centro da memória coletiva

A ligação entre Nespereira e Raul Brandão está no coração deste certame. Mais do que convocar um nome maior da literatura portuguesa, a feira procura fazer desse nome uma presença compreensível, próxima e sentida por quem vive na freguesia e por quem a visita. “A feira começou há oito anos com esse intuito. Nós somos cidadãos de Nespereira, nascidos e criados, e sempre ouvimos falar sobre o sr. Raul, que morava na Casa do Alto e que era casado com a D. Maria Angelina. Mas o que é certo é que os textos não passavam para a comunidade, e ainda não passam, porque Raul tem uma obra muito densa e muito negra. Não é uma literatura fácil”, reconheceu o presidente da Junta. Ainda assim, essa dificuldade não é vista como obstáculo, mas antes como desafio. “O que tentamos trazer com esta feira, e foi por isso que esta feira nasceu, é trazer Raul à comunidade”, explicou, salientando a importância das recriações teatrais e dos momentos construídos a partir de excertos da obra de Raul Brandão.

Questionado sobre a necessidade de continuar a promover o autor ao longo do ano, Idálio Oliveira recordou que a presença de Raul Brandão em Nespereira não se esgota nestes três dias. “Raul Brandão tem um lugar privilegiado em Guimarães, onde temos uma biblioteca com o seu nome, temos um grupo de estudiosos que estuda afincadamente as suas obras. Em Nespereira, a promoção sobre Raul Brandão acontece todos os dias; por alguma coisa temos um mural dedicado ao mesmo na nossa sede da Junta, por alguma coisa temos uma biblioteca na nossa sede da Junta com muitos livros do autor; não são primeiras edições, nem coisa que se pareça, mas são livros do autor que foram editados. Temos sempre a figura do nosso escritor bem marcada em Nespereira.” Ainda assim, o autarca foi claro ao assumir a missão de aproximar um escritor complexo de públicos mais vastos: “Tentamos desmistificar alguns textos mais fáceis de compreender.”

Essa ideia de aproximação foi também destacada por Isabel Ferreira, vereadora da Câmara Municipal de Guimarães, presente no certame em representação do Município. Na sua primeira presença na Feira da Época de Nespereira, a autarca fez um “balanço muito positivo”, sublinhando a importância de iniciativas que ligam cultura, território e população.

“Tudo isto só faz sentido quando envolve a comunidade e este é o grande desafio: fazer com que todos aqueles que habitam um determinado território ajudem também a construir e a consolidar a identidade desse território”, afirmou. Para a vereadora, Nespereira é uma freguesia com forte tradição cultural e “berço e área de residência de muitos artistas, desde escritores, pintores, cantores e compositores”, e esse capital humano deve ser valorizado. “Os territórios são constituídos por pessoas e só faz sentido quando se constroem esses laços afetivos”, frisou.

Isabel Ferreira destacou ainda o impacto da recriação teatral inspirada em Raul Brandão, considerando-a “fabulosa”, precisamente por permitir preservar e dar a conhecer a obra do escritor, em especial junto dos mais novos. “É uma forma de manter, de preservar, de potenciar e de dar a conhecer aos mais novos a importância da obra de Raul Brandão”, disse, acrescentando que a mensagem transmitida nesse momento foi “muito forte”, por se centrar na forma como cada um vive o seu tempo e a sua passagem pela vida.

A autarca lembrou ainda o Festival Literário Húmus, promovido em torno da obra do escritor, assim como o trabalho desenvolvido pela Biblioteca Municipal Raul Brandão e pela rede de bibliotecas escolares do concelho de Guimarães. Reconhecendo que se trata de “uma leitura complexa, uma obra complexa”, defendeu que o desafio passa por torná-la acessível sem a empobrecer. “É extremamente importante que seja abordada de uma forma simples, simples no sentido da passagem da mensagem; é um grande desafio, de uma forma simples, passar aquilo que é complexo. E um dos grandes objetivos da própria Biblioteca é trabalhar a obra de Raul Brandão de uma forma acessível à comunidade educativa e a todos aqueles que estão interessados na leitura e na obra de Raul Brandão”, afirmou.

 

O teatro como ponte para a obra de Raul Brandão

Uma das formas encontradas para aproximar a população da literatura de Raul Brandão tem sido precisamente o teatro. José Pereira, do Musiké Teatro, explicou que o trabalho de preparação das peças apresentadas no âmbito da Feira da Época parte de um contacto continuado com a obra do escritor. “As peças são sempre inspiradas em algum tema específico, contudo compilamos sempre partes do Húmus ou partes gerais de outras obras”, referiu. Trata-se, segundo explicou, de um processo cumulativo, em que o grupo vai explorando diferentes temas e acrescentando novas leituras a cada edição.

Sobre o impacto deste trabalho em Nespereira, José Pereira considera que tem existido um esforço consistente para manter viva a memória do escritor. “Tem-se feito sempre um trabalho para relembrar quem foi Raul Brandão e mantê-lo presente. E as pessoas têm sido muito cuidadosas em manter a sua presença aqui”, afirmou.

Também Maria Terra, igualmente ligada ao projeto, falou de uma relação afetiva com esta iniciativa e com a obra do autor. “Este projeto é sempre especial, eu tento sempre vir”, disse, explicando que Raul Brandão é o seu escritor favorito.

A receção da comunidade é, na sua perspetiva, outro dos aspetos mais marcantes. “A receção da comunidade é sempre incrível. O pessoal realmente esmera-se a fazer uma festa muito bonita e é muito acolhedora. É sempre bom estar aqui”, afirmou. E deixou também uma ideia que ajuda a recentrar o olhar sobre Raul Brandão: a de que a sua obra, tantas vezes lida como sombria, contém uma profunda valorização da vida. “As pessoas dizem que fala muito sobre a morte e que é triste e pesado, mas não; na verdade, ele diz-nos para valorizarmos a vida enquanto a temos. É extremamente positivo.”

No que toca à aproximação das crianças à obra do escritor, Maria Terra apontou uma via concreta: começar pelo livro que Raul Brandão escreveu com Maria Angelina. “Eu acho que o certo para as crianças é começarmos com o livro que Raul Brandão fez com a sua esposa, Maria Angelina, Portugal dos Pequeninos. É perfeito”, defendeu.

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