Cinema Fórum Vizela está de luzes apagadas desde 13 de março
Reabertura não deverá acontecer antes do mês de julho.
O Cinema Fórum Vizela está de portas encerradas há mais de dois meses e, apesar do plano de desconfinamento do Governo apontar a reabertura das salas para 01 de junho, na cidade termal não há indicações de que esta aconteça antes de julho. Garante o gerente Guilherme Vale que o adiamento das grandes estreias e as limitações na lotação não garantem a sustentabilidade financeira de uma reabertura antecipada das salas de cinema.
RVJornal (RVJ) – O quanto tem sido difícil para o Cinema Fórum Vizela manterem-se de portas fechadas?
Guilherme Vale (GV) - Tem sido muito difícil porque, precisamente para esta época que atravessamos, havia previsões de grandes estreias ao nível do cinema como, por exemplo, os novos filmes das sagas “Velocidade Furiosa” ou “007” ou mesmo os “Minions - Caça Fantasmas”. Seriam filmes para esgotar as salas em todas as sessões.
No início do mês de março não tínhamos a perceção da dimensão da pandemia ao nível mundial, mas já uma semana antes do encerramento, que aconteceu dia 13 daquele mês, tínhamos sentido um fluxo de clientes muito reduzido. O público percebeu que tinha de se resguardar. Ainda antes da Direção-Geral de Saúde decretar o encerramento, em conjunto com a administração, tomámos a iniciativa de encerrar os cinemas.
RVJ - O encerramento representou perdas de postos de trabalho ou recurso ao layoff?
GV – Com as salas encerradas, tivemos que recorrer ao despedimento dos três funcionários, tendo eu, como gerente, sido submetido a layoff. Rescindimos os contratos, porque não teríamos suporte para pagar ordenados. O impacto desta pandemia é duro. A verdade é que iríamos ter grandes estreias para encher salas e tudo se alterou.
RVJ – Mesmo com atividade reduzida a zero, continuam a existir despesas que têm de ser suportadas pela administração do Cinemas do Fórum Vizela?
GV – Há sempre despesas com a gestão do edifício e com a parte respeitante ao pagamento do gerente.
RVJ - O facto de não haver lugar a pagamento da renda, até porque a administração é detentora do edifício, é um fator muito importante para a reabertura das salas de cinema do Fórum Vizela?
GV – Sim, a reabertura será nesse sentido. Temos mais facilidade para voltarmos ao ativo. Cinemas que tenham rendas para pagar terão mais dificuldades, principalmente os que se encontram alojados em Centros Comerciais. Muitos não irão reabrir.
RVJ - Para fazerem face às dificuldades associadas ao encerramento da sua atividade, as salas de cinema beneficiaram de alguma linha específica de apoio?
GV – No que toca a futuros apoios do Estado, é tudo ainda incerto. Foram criadas linhas de crédito para determinadas áreas, mas não para o nosso setor. Mas aguardamos que haja algum apoio para nos ajudar nas nossas despesas.
RVJ - A 30 de abril, o Ministro Pedro Siza Vieira anunciou a reabertura das salas de cinema a 01 de junho, mas ainda antes de iniciarmos esta entrevista, dizia que não perspetiva uma reabertura antes de julho. Porquê?
GV - Os cinemas dependem das Major’s. Enquanto não tiverem aberto o “Competitive”, estas não poderão reabrir. Ao nível nacional algumas salas poderão abrir no próximo mês [em junho] mas penso que, sem “Competitive” aberto, não adianta, isto porque as Major’s, como a Universal ou a Disney, não tendo filmes para colocarem nas salas, o que haverá para reproduzir serão filmes de concorrência ou nacionais e que não têm tanto impacto. Há já grandes estreias que foram adiadas para 2021.
RVJ – Isto para dizer que a pouca oferta de filmes para exibição poderá ser vista como outro dos impactos da Covid-19 no mundo do cinema?
GV - Sim. Enquanto as Major’s não reabrirem de novo, não haverá grande conteúdo para exibirmos aos nossos clientes. Penso que isso só acontecerá quando houver condições para reabrir a maioria das salas de cinema de todo o mundo, principalmente de países como os Estados Unidos da América e da China, as potências da Sétima Arte. Recordo que na China, as salas reabriram e acabaram por fechar por falta de conteúdos. A reabertura tem de compensar do ponto de vista financeiro. Desta feita, estamos num impasse quanto à reabertura. Até hoje, dia 15 de maio, não temos indicação em relação à data em que tal irá ocorrer.
RVJ - Nesta altura, o setor já dispõe de um guião que lhe permita perceber as medidas que terão de ser adotadas aquando da reabertura?
GV - Estamos preparados para criar todas as condições para receber o público. As salas terão que ser desinfetadas no início e no final de cada sessão. é uma forma de transmitirmos segurança aos clientes que nos visitam.
RVJ – Em recente entrevista ao Expresso, o Primeiro-Ministro, António Costa, falou já da possibilidade de venda de bilhetes de duas em duas filas, de três em três cadeiras. Esta situação é viável e garante a rentabilidade das salas de cinema?
GV - Penso que não. Enquanto não pudermos encher salas, será um grande prejuízo para todos.
RVJ - Além da redução da lotação que significará menos receitas, haverá um aumento de despesas, nomeadamente com a aquisição de material de proteção e higiene…
GV – Sim. Estimam-se grandes despesas. Não só devido a todo o material que será preciso ter em todas as salas e em stock para a referida higienização mas, também, pelo empolamento de preços.
RVJ - Ao mesmo tempo, o setor precisa que o público se sinta seguro num regresso às salas de cinema. Teme que as pessoas receiem ajuntamentos e optem pelas plataformas online para acederem a filmes?
GV - Sim, penso que isso continuará a acontecer nas próximas semanas ou meses, porque poderemos não ter nos primeiros tempos um “Competitive” forte que possa motivar o cliente a dirigir-se ao cinema. Em relação à desinfeção é um procedimento que teremos de adotar para conferir confiança ao cliente no sentido deste se deslocar aos cinemas para ver um filme. Isto porque ir ao cinema, não é a mesma coisa que ver um filme em casa. Uma pessoa entra na sala de cinema e esquece tudo o que está à volta. é uma lavagem da mente. A verdade é que temos de estar preparados para criar todas as condições de segurança. Mas receio que sem estreias fortes, com atores de renome será muito difícil voltar à normalidade das salas de cinema nos primeiros tempos.
RVJ - O impacto da Covid-19 no cinema notou-se também no lançamento alternativo de filmes em plataformas de streaming ou vídeo-on-demand, que em situação normal seriam exibidos no grande ecrã…
GV - Têm saído alguns filmes nessas plataformas, mas esses filmes não são como os da sala de cinema. Há uns dias conversava com um amigo que me dizia que tem visto grandes filmes nessas plataformas digitais e eu tenho acompanhado a situação. Mas a verdade é que não são comparáveis aos exibidos no cinema. Mas o impacto destas plataformas digitais já era sentido antes da pandemia nas salas de cinema.
RVJ - Em Portugal, de modo a servir de alternativa às tradicionais salas, a Comic Con anunciou que vai realizar uma série de sessões de cinema no carro com ecrã gigante já em junho? O Cinema do Fórum Vizela também já avaliou a possibilidade de se reinventarem face a esta nova realidade?
GV - Seriam necessárias algumas condições. Quando estas grandes distribuidoras fazem sessões de “Drive In”, fazem programação de três ou quatro sessões e têm que criar condições para isso. Para o fazer é necessário muito equipamento de suporte, desde máquinas que possamos transportar, porque as nossas são fixas. Não vejo, da parte da administração, a iniciativa de avançarmos para um modelo de Drive In. Estaríamos a falar da aquisição de equipamentos para fazermos apenas duas ou três sessões. é um grande investimento. Uma máquina pode custar entre 180 a 200 mil euros, isto sem contabilizar o som e a tela. é muito dinheiro e não me parece que isso venha a ser uma realidade em Vizela.
RVJ - Como é que olha para o futuro do Cinema do Fórum Vizela?
GV - Tudo dependerá dos filmes que vierem a ser exibidos e da adesão dos vizelenses. Com bons conteúdos, incluindo grandes estreias nos próximos meses, tanto as salas de Vizela como as do país terão boas perspetivas para minimizarem os prejuízos destes últimos tempos.
RVJ - Nos meses de junho e julho, o Cinema do Fórum Vizela costuma receber os alunos que frequentam as escolas da região. Situação que já não se perspetiva que venha a acontecer este ano?
GV - Tivemos já, nesse âmbito, uma quebra elevadíssima. Temos sido incansáveis no trabalho que fazemos para apelar às escolas da região que façam constar as idas ao cinema na planificação do ano letivo. O que tem acontecido em determinadas épocas festivas. Na Páscoa, sentimos bastante. Nos dias 16 e 17 de março tínhamos salas esgotadas e foi tudo cancelado. Outra das quadras fortes seria junho e julho, quando os meninos estão nos ATL, situação que este ano não se irá concretizar.
RVJ - Este será um ano apenas para “manter vivo o setor”?
GV - Vamos tentar minimizar os prejuízos. Abrir quando for possível e trabalhar com esforço redobrado para criar atividades e promoções para nos mantermos vivos.
RVJ – Nessa altura, vão voltar a contratar colaboradores?
GV - Sim, temos que ir buscar de novo os nossos funcionários. O cinema no geral dá um trabalho enorme. Todos os meses há reuniões com o staff e esse trabalho foi feito no início do contrato. Vamos voltar a contratar os mesmos funcionários para não começarmos do zero. O trabalho é muito para que um funcionário fique apto para o atendimento ao cliente. Seria bom tentarmos de novo recuperarmos esses mesmos funcionários.
RVJ – Entretanto, quando é que reabrirá a sala de jogos dos Cinemas Fórum Vizela?
GV – A reabertura acontecerá ao mesmo tempo do cinema. Não faz sentido abri-la em junho e o cinema em julho. Mesmo na sala de jogos, mediante as normas, só poderíamos ter um cliente por máquina e dois em cada bilhar.
Teriam que aguardar a sua vez no exterior e não me parece haver condições para a sua reabertura. Por último, peço é que os vizelenses possam ajudar o comércio local. é importante que se desloquem às nossas salas quando estas reabrirem.





