“Celebrar o 25 de abril, sempre!”

O concelho de Vizela está a assinalar os 52 anos da Revolução dos Cravos. As comemorações arrancaram na sexta-feira, 24 de abril, com um concerto de Ana Bacalhau, acompanhada pela Banda da Sociedade Filarmónica Vizelense.

O ponto alto teve lugar este sábado, 25 de abril, com a sessão solene evocativa, que reuniu os representantes das forças políticas com assento na Assembleia Municipal.

Ricardo Ferreira, do Chega, sublinhou a importância da data como momento fundador da liberdade, mas alertou para a necessidade de ir além da celebração “simbólica”: “O 25 de abril foi um momento fundador da nossa democracia, um momento que abriu caminho à liberdade de expressão, ao pluralismo político, ao voto livre e à alternância democrática. Mas celebrar o 25 de abril não pode significar transformar esta data numa narrativa única, fechada ou ideológica”.

“O 25 de abril pertence a todos os portugueses, não pertence à esquerda, não pertence a partidos, não pertence a elites, pertence ao povo português. (…) Celebrar Abril é querer um país mais seguro. Celebrar Abril é querer um país onde trabalhar compensa. Celebrar Abril é querer um país que respeite os seus cidadãos ”, acrescentou.

O deputado defendeu ainda que a democracia portuguesa só se consolidou plenamente com o 25 de novembro de 1975, afirmando que “sem o 25 de novembro, Abril poderia ter sido apenas uma transição para outra forma de autoritarismo”. “Não podemos celebrar Abril sem mencionou novembro; e sem lembrar que a verdadeira liberdade e a verdadeira democracia só foram alcançadas a 25 de novembro de 1975. (...) Com o 25 de novembro, Abril tornou-se verdadeiramente liberdade”.

Pela Iniciativa Liberal, Ricardo Fernandes reforçou essa leitura histórica, afirmando que “só em novembro se cumpriu abril”, acrescentando: “A liberdade não vive apenas de datas, vive nas ideias que escolhemos defender todos os dias.”

O deputado centrou a sua intervenção na importância do pluralismo e do equilíbrio democrático, alertando para os riscos das maiorias absolutas: “Em sociedades democráticas, o princípio da maioria é fundamental para garantir decisões coletivas. No entanto, quando uma maioria se torna esmagadora, seja no Parlamento, nas urnas ou no discurso público, surgem riscos sérios para a pluralidade e o equilíbrio do poder. Maiorias esmagadoras tendem a reduzir o espaço para o contraditório. (...) O verdadeiro teste de maturidade democrática está em como tratamos as vozes dissonantes, não em como celebramos os consensos”. “Em suma, maiorias são legítimas, mas esmagadoras podem tornar-se perigosas. O equilíbrio entre governabilidade e diversidade é o que sustenta uma democracia viva e justa”, acrescentou.

Por sua vez, Catarina Peixoto, da Coligação Mais Vizela, destacou o carácter singular e pacífico da revolução, lembrando que “os chamados Capitães de Abril deram corpo a uma revolução que, pela sua singularidade, voltando costas à violência e ostentando cravos e flores como sinal do renascer de um novo Portugal, inscreveram o seu nome na história. Ficou para sempre conhecida como a Revolução dos Cravos”.

“Uma revolução que demonstrou por um lado a força e a coragem de um povo e, por outro, o civismo e o respeito inscritos naquele gesto de criança que correu o mundo, empunhando uma espingarda com um cravo vermelho ao lado de um militar de Abril. Era a liberdade vestida no corpo daquela criança que trouxe aos portugueses a esperança de um novo país”, acrescentou. 

A deputada valorizou particularmente as conquistas sociais, com destaque para os direitos das mulheres: “Abril abriu portas que, durante demasiado tempo, estiveram fechadas; deu voz a quem, durante demasiado tempo, foi silenciado”. 

“Hoje, 52 anos depois de Abril, sabemos que nenhuma conquista está definitivamente garantida. Aquilo que foi alcançado com coragem e sacrifício pode, se não estivermos atentos, ser posto em causa, de forma subtil, ou até mesmo evidente. É precisamente por isso que nos cabe a todos a responsabilidade acrescida”, referiu.

Num apelo às novas gerações, Catarina Peixoto sublinhou ainda que “nos dias de hoje, e principalmente para nós, jovens, fica cada vez mais difícil opinar sobre esta data tão marcante na nossa história coletiva recente”. “A distância temporal que nos separa deste tão presente, mas já tão longínquo acontecimento, começa a dificultar o relembrar de um marco tão importante para a democracia portuguesa. Para mim, e para nós, jovens, é um desafio imaginar o que seria viver sem liberdade, sem o direito à palavra, sem garantias de direitos e liberdades, sob o peso da censura e da perseguição. É um exercício difícil, mas absolutamente necessário para que possamos valorizar, com consciência, aquilo que hoje temos”.

Também Bárbara Ferreira, do Movimento Vizela Sempre, evocou a importância da Constituição, que celebra 50 anos em 2026, como pilar da democracia: “Recordamos hoje o 25 de abril e celebramos a Liberdade. Celebramos o dia em que pusemos termo a longos anos de ditadura, homenageando todos aqueles que, com coragem, enfrentaram a perseguição e a tortura para abrir as portas da democracia. Mas, este ano, a nossa celebração ganha um relevo ainda mais profundo. Celebramos, não só o cravo que rompeu o silêncio de 1974, mas também o alicerce que o corpo a essa conquista. Se 1974 deu-nos a liberdade… 1976 deu forma a essa mesma liberdade. Faz agora 50 anos que a 02 de abril de 1976 nasceu a nossa Constituição da República Portuguesa”.

Dirigindo-se aos mais jovens, “àqueles que já nasceram no brilho de Abril”, deixou também um apelo: “A liberdade não nasceu pelas vossas mãos, mas o futuro depende inteiramente de vós. A Constituição é a forma que se deu à liberdade, é ela que garante que o exercício do poder se fundamenta na vontade do povo. No entanto, não nos podemos acomodar. Num mundo marcado por tecnologias que mudam as relações de trabalho e por discursos que ameaçam as conquistas alcançadas, o nosso compromisso deve ser renovado”.

A deputada alertou ainda para os desafios: “Temos de combater os discursos de ódio, o populismo e a intolerância. A liberdade e a democracia são obras sempre inacabadas”.

O presidente da Assembleia Municipal, Fernando Carvalho, destacou a importância da data e a responsabilidade coletiva de preservar os valores de Abril: “Data única para Portugal, um acontecimento incontornável da história, que transformou a posição de Portugal na Europa e no Mundo e transformou a vida dos portugueses. Fazemo-lo com orgulho e sentido de responsabilidade, porque esse foi o dia em que Portugal reencontrou o caminho da liberdade, da democracia e da dignidade humana”.

“Na realidade, só os que reconheceram o antes e o depois, sentem, neste dia, uma emoção especial. E, por isso mesmo, todos nós temos a responsabilidade de a transmitir a todos os que hoje usufruem desta conquista e dos valores de Abril e a todos os que valorizam a liberdade e a democracia. A liberdade que tanto custou a tantos e que foi conquistada nesse dia não é apenas um marco histórico, é um compromisso permanente”, acrescentou.

O presidente da Assembleia Municipal recordou ainda a ligação entre a Revolução dos Cravos e a autonomia de Vizela: “Em Vizela, como em todo o país, essa conquista sentiu-se e fez-se com o povo. Um povo que nunca se resignou, que lutou pelo direito de ser ouvido, a escolher e a participar. Um povo que, anos mais tarde, viria também a conquistar a sua autonomia administrativa em 1998. Outro momento em que a vontade popular venceu e que se inscreve no mesmo espírito de Abril”. “Celebrar o 25 de abril, em Vizela, é, por isso, celebrar duas vitórias da democracia: a liberdade conquistada em 1974 e o direito à autodeterminação concretizado com a criação do nosso concelho”.

“Cerebral Abril é, por isso, não apenas recordar o passado, mas reafirmar o compromisso com os valores que nos definem enquanto comunidade livre, plural e solidária. (...) Assinalamos, igualmente, um marco maior da nossa vida coletiva: os 50 anos da Constituição República Portuguesa, meio século de um texto fundamental que consagrou direitos, liberdades e garantias, e que continua a ser o alicerce do nosso Estado de Direito Democrático. (...) Que ninguém fique para trás, que ninguém perca a voz, que ninguém volte a ter medo de ser livre”, acrescentou Fernando Carvalho.

Já o presidente da Câmara Municipal de Vizela, Victor Hugo Salgado, sublinhou que a liberdade exige compromisso diário: “Comemorar Abril em 2026 não é apenas comemorar uma data, é afirmar, com convicção, que a liberdade não é uma herança garantida, é uma escolha que se renova todos os dias, com coragem, com consciência e com responsabilidade. (...) Para mim, tal como para muitos portugueses, recordar Abril é recordar um passado que não vivemos, visitar imagens e histórias que nos transportam para um país profundamente diferente do que temos hoje. Um país em que não havia liberdade de expressão. Um país com poder político assente num regime autoritário, de inspiração fascista, baseado na repressão e na censura”. “O 25 de abril de 1974 foi a última grande revolução da história dos portugueses, protagonizada pelo movimento militar dos jovens capitães. Uma revolução de flores, sem confrontos e sem precedentes na nossa história contemporânea. (...) A liberdade não é uma herança garantida, é uma escolha que se renova todos os dias”.

Numa intervenção marcada por referências ao contexto internacional e às fragilidades das democracias, o presidente da Câmara Municipal alertou para sinais de desconfiança e desinformação: “A democracia também está doente. Não podemos continuar a fingir que não. Apresenta sintomas de desconfiança. As pessoas desconfiam dos políticos, das instituições, dos media e dos especialistas. Essa desconfiança muitas das vezes legitima as suas origens. É sistematicamente aproveitada por quem quer destruir em vez de construir. Por quem prefere a desordem à responsabilidade. (...) Apresenta sintomas de indiferença também a democracia. Demasiados cidadãos olham para a política como um encolher de ombros, como se nada fosse com eles. Mas sempre foi e sempre continuará a ser. E quando os bons se afastam, os piores ocupam esse espaço”.

Também Victor Hugo Salgado destacou  o percurso de Vizela, associando-o ao espírito de Abril: “Vizela é Abril; e, em Vizela, não esquecemos Abril. (...) Falar de Vizela é falar de um povo que também lutou pela sua própria liberdade. Os vizelenses, tal como os portugueses de Abril, lutaram pela liberdade da nossa terra e conquistaram o sonho de ser concelho, o maior legado cívico e político que os vizelenses deixarão às gerações vindouras”. “Hoje, celebrar o 25 de abril, em Vizela, é honrar os capitães que libertaram a Pátria, mas é também beijar o chão de quem nunca desistiu desta terra. É olhar para as nossas escolas, para o nosso progresso, para a nossa identidade e dizer, com orgulho: valeu a pena lutar. Porque a liberdade não é uma estátua do passado, é uma obra que Vizela constrói todos os dias”.

Para além da sessão solene, o programa comemorativo prossegue esta tarde, às 15H30, com a inauguração da requalificação da rotunda e da nova via de acesso ao Estádio do Futebol Clube de Vizela. À noite, pelas 22H00, realiza-se o espetáculo “Tons de Abril”, protagonizado por Pedro Costa.

As comemorações encerram este domingo, 26 de abril, com o evento “Vozes de Abril”, agendado para as 15H00 no Jardim Manuel Faria, que reúne vários grupos, entre os quais o Grupo Coral Família Peixoto, ALEZIV, o Grupo de Cavaquinhos Família Peixoto, “Vozes de Outono” e o Grupo de Cavaquinhos Casa do Povo. 

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