O Desporto como experiência vivida

Jorge Machado

2026-01-08


No artigo anterior, abordei o desporto a partir da filosofia moral de Immanuel Kant, destacando o valor da autonomia, da responsabilidade e do dever. Mas, se Kant nos ajuda a compreender o desporto como escola de virtudes, a sua filosofia deixa em aberto um elemento decisivo: o corpo. A dimensão sensível, expressiva e simbólica da prática desportiva não pode ser explicada apenas pela razão formal. É aqui que entram as abordagens fenomenológicas e existenciais de pensadores como Manuel Sérgio, Hans-Georg Gadamer ou Maurice Merleau-Ponty.

Comecemos por Manuel Sérgio, o filósofo português que mais influenciou a reflexão sobre o desporto no nosso tempo. Para Manuel Sérgio, o desporto não é apenas movimento físico, mas “um movimento intencional de transcendência”. A sua conceção vai muito além da técnica ou do rendimento, considerando que cada gesto corporal contém sentido, projeto e abertura ao futuro. No jogo, o corpo deixa de ser simples instrumento e torna-se lugar de criatividade, liberdade e transcendência. Ao contrário da visão mecanicista, o desporto, em Manuel Sérgio este é uma atividade humanista, em que o corpo é vivido como presença plena e não como objeto.

Hans-Georg Gadamer, por sua vez, contribui com a sua filosofia hermenêutica. Para ele, a experiência estética e a experiência lúdica estão profundamente ligadas. O jogo não é apenas distração, mas uma forma de compreensão do mundo. Tal como na arte, também no desporto há uma verdade que se manifesta: o jogo é um espaço de revelação, de encontro consigo e com os outros. Gadamer mostra-nos que, quando assistimos ou participamos num jogo, não estamos apenas a ver movimentos, mas a participar numa experiência de sentido, em que o corpo é linguagem.

Já Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês da fenomenologia, coloca o corpo no centro da sua reflexão. Para ele, o corpo não é uma máquina comandada pela mente, mas a condição de possibilidade da nossa experiência do mundo. No desporto, esta ideia ganha toda a força, na medida em que o atleta não é uma consciência que “usa” um corpo, mas um ser que habita o mundo através dele. O gesto desportivo não é apenas execução técnica, é a expressão do modo de ser-no-mundo.

Estas perspetivas fenomenológicas e existenciais permitem-nos compreender melhor o fascínio do desporto. A beleza de um jogo não se resume ao resultado, mas à experiência partilhada de corpos em movimento, à imprevisibilidade criativa, à expressividade de cada gesto.

Em última análise, Kant lembra-nos que o desporto deve formar o carácter; Manuel Sérgio, Gadamer e Merleau-Ponty recordam-nos que ele deve, antes de mais, celebrar a vida. E talvez seja nesta síntese, entre ética e experiência, que resida o verdadeiro sentido do desporto.