Corrupção e Governação no Desporto

Jorge Machado

2026-05-14


A relação entre desporto, poder e corrupção não é nova, mas ganhou uma visibilidade inquietante nos últimos anos. Dos escândalos na FIFA aos casos de manipulação de resultados no futebol europeu, passando por investigações ao Comité Olímpico Internacional ou às grandes ligas profissionais, o mundo tem assistido a uma sucessão de episódios que expõem fragilidades profundas na governação das organizações desportivas. A questão que se impõe é simples: o que pode Portugal aprender com tudo isto?

A primeira lição é evidente, nenhuma organização desportiva está imune à corrupção. O desporto, pela sua capacidade de mobilizar milhões, gerar receitas avultadas e influenciar decisões políticas, tornou-se um terreno fértil para práticas opacas, favoritismos, conflitos de interesse e abusos de poder. Quando a governação é frágil, quando os órgãos dirigentes carecem de escrutínio ou quando as regras internas permitem acumulação de funções e mandatos, abre-se espaço para desvios éticos e para a instrumentalização das instituições.

A nível internacional, os escândalos da FIFA revelaram a magnitude do problema. Desde redes de suborno, compra de votos, contratos negociados na sombra, ao tráfico de influências, entre outros. No Comité Olímpico Internacional, os casos relacionados com processos de atribuição de Jogos Olímpicos expuseram fenómenos semelhantes.

Portugal não está imune a estas tendências, embora o país não tenha protagonizado escândalos à escala das grandes organizações internacionais, enfrenta desafios estruturais, como por exemplo a falta de uma cultura de transparência, fragilidade dos mecanismos internos de controlo, dependência excessiva da política, profissionalização insuficiente dos dirigentes e ausência de programas robustos de compliance. A isto juntam-se os conhecidos problemas da opacidade nos financiamentos, conflitos de interesse, acumulação de cargos e uma tradição de governação assente mais na confiança pessoal do que na competência e institucionalidade.

É precisamente aqui que reside a segunda lição, o desporto português precisa de um salto qualitativo na cultura de integridade. Um país que exige transparência ao Estado não pode aceitar opacidade nas federações. Um país que reclama meritocracia na administração pública não deve tolerar feudos dirigentes que se perpetuam por décadas. Assim o é, porque a ética e a boa governação no desporto não são meras declarações de intenção, são exigências democráticas.

A terceira lição é política. O desporto precisa de mecanismos de auditoria independentes, de códigos de conduta vinculativos, de limites de mandatos, de separação clara entre funções executivas e órgãos de fiscalização, de transparência na utilização de dinheiros públicos e privados, e de processos decisórios escrutináveis. Programas de compliance, formação obrigatória em ética e integridade, auditorias periódicas e plataformas abertas de prestação de contas são instrumentos que não podem continuar ausentes.

Por fim, é essencial compreender que a corrupção no desporto não é apenas um problema institucional, é um problema cultural. Tolerar a pequena batota, o pequeno favor, o pequeno desvio é o primeiro passo para legitimar abusos maiores. O desporto só será um espaço de confiança pública se a integridade se tornar regra e nunca exceção.

Portugal tem condições para liderar uma nova agenda de transparência no desporto. Mas para isso precisa de coragem para reformar, para questionar modelos instalados e para afirmar que governança, ética e responsabilidade não são luxos, são pilares da democracia.