Verão 2026: “A prevenção continua a ser a chave”
Com a entrada em vigor da fase Delta do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR), que decorre até 30 de setembro, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vizela, Paulo Félix, esteve no programa Especial Informação, da Rádio Vizela, para fazer o ponto de situação da preparação para o período mais crítico do ano em matéria de incêndios rurais.
Nesta fase, a nível nacional, estarão empenhados 15.149 operacionais, 3.463 veículos, 2.596 equipas e 81 meios aéreos. Comparativamente a 2025, o dispositivo conta com mais 121 operacionais, mais 45 veículos, mais 22 equipas e mais dois meios aéreos.
Em entrevista, Paulo Félix falou da importância da prevenção, da resposta operacional, das zonas mais sensíveis do concelho e deixou vários apelos à população.
Como avalia o trabalho de prevenção realizado no concelho de Vizela?
O balanço é muito positivo. O Município de Vizela tem desenvolvido um trabalho muito forte na gestão da floresta. Somos um concelho com uma área florestal relativamente reduzida, o que nos permite investir mais na prevenção. (…) Hoje sabemos que prevenir é o fator decisivo. É fundamental manter os caminhos florestais acessíveis, criar faixas de contenção e garantir condições para uma intervenção rápida e segura. (…) Também tenho notado uma maior preocupação dos cidadãos com a limpeza dos terrenos junto às habitações, algo particularmente importante devido ao interface urbano-florestal existente no concelho.
Sente que existe atualmente uma maior sensibilização da população para a limpeza dos terrenos?
Tem existido um esforço significativo por parte do Governo e dos municípios, e isso reflete-se também nos meios de comunicação social. Ainda assim, continuamos a enfrentar dificuldades relacionadas com terrenos abandonados ou com proprietários que nem sequer conhecem a localização das suas parcelas. O cadastro continua a ser um desafio, mas acredito que estamos no caminho certo. Espero que assim se mantenha.
Qual é a área de atuação dos Bombeiros Voluntários de Vizela?
A nossa responsabilidade abrange todo o concelho de Vizela e ainda cinco freguesias do concelho de Guimarães: São Faustino, Nespereira, Moreira de Cónegos, Gandarela e São Martinho do Conde. Todas estas freguesias estão sob a nossa responsabilidade e a avaliação do risco é feita de forma global. Temos zonas sensíveis em várias destas freguesias e estamos atentos a todas elas da mesma forma que estamos às do concelho de Vizela.
Quais são atualmente as zonas que mais preocupam em caso de incêndio?
Há várias áreas sensíveis. Destaco a zona da Senhora dos Montes, em Nespereira; São Faustino, que faz ligação a Tagilde; e ainda as zonas dos Maragoutos, Santa Eulália, Vilarinho, Santa Ana e Infias. (…) O problema muitas vezes não é apenas a área florestal do concelho, mas a continuidade da floresta para os municípios vizinhos. (…) Felizmente, têm sido realizadas intervenções como queimadas controladas e abertura de caminhos, que ajudam a reduzir o risco.
Para além da limpeza, existe também um trabalho de vigilância?
Sim. O Município tem promovido programas de vigilância com jovens nas zonas de São Bento e Penabesteira, até ao final de setembro. Vejo esta iniciativa de duas formas: por um lado, sensibiliza os jovens para esta realidade e, por outro, garante uma vigilância permanente. Ter olhos atentos no terreno permite que qualquer foco de incêndio seja rapidamente identificado e comunicado, possibilitando uma intervenção célere, reduzindo a dimensão da ocorrência.
Os jovens têm um papel importante nesta estratégia?
Sem dúvida. É fundamental envolvê-los. Muitos já integram os bombeiros como voluntários, mas também é importante sensibilizar aqueles que pertencem à sociedade civil para esta causa.
Considera que o atual modelo, dividido por fases do dispositivo, é o mais adequado?
Compreendo a organização, mas considero que a floresta deveria ser trabalhada durante todo o ano. (…) Parece que, tal como abre a época balnear, abre também a época dos incêndios. (…) Os incêndios não acontecem apenas no verão. Respeito o modelo existente e percebo a necessidade de um reforço sazonal, mas gostaria de ver um investimento permanente na prevenção, sobretudo nos concelhos com grandes manchas florestais.
O Estado ainda tem muito caminho para fazer nesta matéria?
Sim. É necessário continuar o trabalho de cadastro da floresta, responsabilizar os proprietários e aumentar os incentivos à limpeza. O combate continua a ser essencial, mas devemos investir cada vez mais na prevenção.
Os meios e a tecnologia reforçam a resposta operacional
Que meios estarão disponíveis este verão em Vizela?
Mantemos praticamente os mesmos meios dos anos anteriores. Temos uma equipa permanente de cinco operacionais, disponível 24 horas por dia, integrada no Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais. Sempre que necessário, integramos também equipas de reforço noutras zonas do país. (…) No caso de Vizela, felizmente, não temos nenhuma freguesia prioritária, o que permite que a nossa equipa esteja frequentemente disponível para reforçar outras regiões. Felizmente, também não temos registado grandes ocorrências nos últimos dias e espero que assim continue.
Estas equipas de reforço já se encontram posicionadas?
Desde 15 de maio e até 15 de outubro temos uma equipa permanente de cinco elementos em regime de 24 horas por dia no quartel, pronta para atuar em qualquer ponto da região ou, se necessário, do país.
A tecnologia também veio reforçar essa capacidade?
Dispomos de um drone e de várias ferramentas tecnológicas de apoio à decisão que têm sido muito importantes em diversas operações. (…) Aproveitamos tudo o que a tecnologia pode oferecer para melhorar a resposta. Ainda não conseguimos pôr a Inteligência Artificial a apagar incêndios, mas já nos ajuda a tomar decisões. Algumas sugestões são muito úteis, outras nem tanto.
Mas nunca vai substituir o homem...
Não, claro que não.
Qual continua a ser a principal causa dos incêndios rurais?
A primeira causa está sempre ligada à mão humana. Seja por negligência ou por atos intencionais, a maioria das ignições está diretamente relacionada com o comportamento das pessoas. (…) Continua a haver muito fogo posto e muita falta de responsabilidade.
Quais são os comportamentos que exigem maior cuidado nesta altura do ano?
É essencial utilizar a floresta com responsabilidade. Devemos evitar qualquer utilização de fogo, ter especial atenção ao uso de maquinaria, nunca lançar cigarros para o chão e cumprir todas as restrições decretadas pelas autoridades quando o risco de incêndio é elevado.
Ainda existem pessoas que desconhecem essas regras?
Não diria que desconhecem. Hoje a informação está acessível a toda a gente. O problema é que algumas pessoas optam por ignorá-la.
A organização no terreno e a segurança são prioridades
Como funciona um teatro de operações num grande incêndio?
Ao contrário do que muitas pessoas possam pensar quando veem centenas de operacionais num incêndio, um teatro de operações é altamente organizado. Nenhum meio é enviado para o local sem ser solicitado pelo posto de comando e sem ter uma missão concreta. Todos os operacionais têm uma função atribuída, mesmo que seja fazer uma pausa para depois regressarem ao combate. Quando um incêndio se prolonga durante vários dias e ocupa uma grande área, todo o perímetro é dividido em setores geográficos: Alfa, Bravo, Charlie, Delta e os que forem necessários. Cada setor tem um comandante responsável, que comunica diretamente com o posto de comando. Desta forma, em vez de coordenar centenas de operacionais, o posto de comando comunica apenas com os comandantes de setor, que transmitem as ordens às equipas no terreno. As comunicações são fundamentais. Espero que este ano não existam zonas sem cobertura do SIRESP, porque sem comunicações toda a operação fica fortemente condicionada. Quando o incêndio envolve mais do que um concelho, podem existir dois postos de comando, coordenados por um comando diretor. Além da estratégia de combate, é também necessário gerir toda a logística, desde a alimentação e descanso dos operacionais às rendições das equipas, que são substituídas, regra geral, de 24 em 24 horas. O mais importante é que, a qualquer momento, o comando saiba onde está cada operacional e qual a missão que está a desempenhar. Essa organização é essencial para garantir a eficácia e, sobretudo, a segurança de todos os envolvidos.
O impacto desta missão vai muito além do combate às chamas?
Sem dúvida. O elemento mais importante continua a ser o bombeiro. São homens e mulheres que trabalham por paixão e sentido de missão, colocando muitas vezes a própria vida em risco para proteger pessoas e bens.
O que mais o preocupa neste verão?
A minha maior preocupação é que não existam vítimas, nem entre os bombeiros nem entre a população. (…) O mais importante é a segurança. Sempre a segurança de todos os operacionais e, de forma muito especial, da nossa comunidade.
E relativamente à componente rural, existe alguma preocupação adicional?
Preocupa-me muito o bloqueio provocado pelos curiosos. Muitas pessoas dirigem-se para junto dos incêndios para assistir às operações e acabam por dificultar o acesso dos meios de socorro. Deixem trabalhar os bombeiros. Não se envolvam nessas estradas e caminhos porque, além de colocarem a vossa segurança em risco, estão a dificultar o nosso trabalho e a comprometer a resposta operacional.
Que mensagem deixa à população?
Peço que comuniquem qualquer coluna de fumo o mais rapidamente possível, de preferência diretamente aos Bombeiros de Vizela ou através do 112. E, acima de tudo, que não se aproximem dos incêndios. Facilitar o acesso dos meios de socorro é uma ajuda decisiva para que consigamos controlar rapidamente qualquer ocorrência.
Quero deixar também uma palavra de apreço a todos os bombeiros que comando e de quem muito me orgulho.
Entrevista completa aqui: http://mixcloud.com/Radiovizela/especial-informa%C3%A7%C3%A3o-entrevista-comandante-bvv-paulo-f%C3%A9lix/







