“O passo a seguir é andar na metade de cima da tabela"
Treinador do Moreirense encara o futuro no clube com a ambição de fazer melhor
O Moreirense garantiu o sétimo lugar na edição 2025/26 da Liga Portugal, classificação que apenas superou duas vezes, após protagonizar um início auspicioso e perder “gás” na segunda volta. A formação de Moreira de Cónegos concluiu a primeira volta no sexto posto, com 27 pontos, antes de somar 16 na segunda metade e de descer para o sétimo lugar, com 43.
Sob o comando de Vasco Botelho da Costa, treinador contratado no início da época, foi assim alcançada, sem dificuldades a permanência no escalão maior, principal objetivo da temporada. Em entrevista à Rádio Vizela, o treinador de fez o balanço à temporada, assumindo que já está a preparar a próxima.
Que balanço global faz à temporada do Moreirense e ao que a equipa conseguiu?
Acho que seria quase desumano dizer que não foi uma época positiva, porque num campeonato, tão competitivo como é a 1ª Liga, acho que a palavra manutenção não entra apenas no dicionário de apenas cinco clubes deste campeonato. Todos os outros têm de viver grande parte da sua época com essa palavra na ponta da língua e nós tivemos o mérito e a competência de deixar de falar dessa palavra dez semanas antes do campeonato acabar. Globalmente temos de considerar esta época positiva, até por este novo projeto do Moreirense. Acho que foi mérito do trabalho de todos, porque estamos a falar de uma mudança de donos, algo que pressupõe mudanças grandes a nível humano, a nível da forma do próprio organigrama do próprio clube, uma nova equipa técnica.
Foi positivo nesse sentido ter transitado tanta gente?
É certo que numa fase inicial da época, o grupo transitou em grande número e, portanto, considero que foi um dos pontos fulcrais para a equipa ter tido a capacidade que teve. Mas seria também muito fácil dar aqui vários passos atrás, dada toda a quantidade de alterações que acabaram por existir. Essas alterações quase não foram faladas ou não foram notadas, porque efetivamente houve muita gente a trabalhar para que as coisas corressem bem. No global, acho que foi uma época de muito sucesso.
Voltando um pouco ao seu início no futebol, o Dramático de Cascais foi na juventude uma escola para si?
Fui jogador, treinador e depois acabei por assumir a responsabilidade de coordenador da formação também, todas estas diferentes funções que fui fazendo, o facto de ter de lidar muitas vezes com pais, com atletas, deu-me uma bagagem muito grande para lidar com diferentes agentes, em diferentes idades, para depois dar o passo seguinte. Já tinha uma relação com o Hugo Leal, que na altura era diretor do futebol do Estoril Praia, e foi quando fiz o transfere da realidade do Campeonato Distrital para uma realidade de Campeonato Nacional.
E no Estoril tudo aconteceu rapidamente?
No mesmo ano passamos dos Sub-17 aos Sub-19, porque o campeonato Sub-17 acabava em março e o de Sub-19 ainda faltavam 10 jornadas, eles não estavam bem, acabaram por trocar de treinador, convidaram-me. Depois no segundo ano, nos Sub-19 é o ano onde o treinador da equipa A cai, eles sobem do Sub-23 e chamam-me a mim para os Sub-23. A partir daí foi a verdadeira explosão, por assim dizer, onde tivemos dois anos perfeitos nos Sub-23 em que ganhamos o campeonato.
Depois disso havia a certeza que queria ser treinador?
Nunca tive propriamente um objetivo definido como jogador, mas como treinador, houve sempre aquela meta de poder chegar à 1ª Liga. Acho que fiz todo o percurso, a Liga Revelação acaba por ser um campeonato equivalente, em termos de nível das equipas. O único campeonato onde não estive foi no Campeonato de Portugal, estive nos campeonatos distritais nos diferentes patamares, nos campeonatos nacionais ao nível de base, Liga Revelação, Liga 3, Liga 2 e agora a 1ª Liga. Considero que foi um percurso fantástico, mas houve ao mesmo tempo o facto de ter subido degrau a degrau, que me permitiu também estar hoje mais preparado e absorver muita coisa em cada um desses degraus, digamos assim. Hoje são sem dúvida ferramentas importantes para o meu dia a dia.
Quanto sentiu que repararam em si como treinador, foi no Estoril?
No Estoril começamos a ter aqui um bocadinho um contacto com esta realidade, as pessoas a falar um bocadinho de nós. E depois aparece aquela arrogância barra ambição, no bom sentido. Nessa fase, se calhar, tinha aquela pressa de querer chegar mais longe. Hoje, depois dessa pressa não ter acontecido na minha carreira e ter acabado por fazer os degraus todos, reconheço que foi muito importante e fico muito feliz por chegar à 1ª Liga, percorrendo todos esses degraus do que se tivesse saltado a diferentes etapas porque eu acho que efetivamente foi muito importante para mim e para a minha equipa técnica, termos tido a oportunidade de passar por estes patamares porque todos eles nos deram coisas importantes.
“Vim para o Moreirense pelo projeto, com que me identificava bastante”
Quando recebeu o convite do Moreirense, havia outros convites?
Eu tive sempre a felicidade de me identificar bastante com os projetos onde acabei por trabalhar. No momento em que a época termina já tinha havido algum tipo de abordagens e obviamente havia um interesse também da parte do Alverca em continuar. Eu acho que acaba por ser uma situação natural. É normal que haja aquele interesse, mas estava bem ali, até estava perto de casa porque é que quis sair. Se calhar falou-se no clube A ou no clube B que até pode parecer melhor. Mas não, acho que é um processo normal na vida das pessoas e na vida de qualquer profissional.
O objetivo foi entrar num projeto mais estável de 1ª Liga?
Foi uma questão de pôr cada projeto numa folha branca, perceber quais eram os prós e os contras e tomar uma decisão a partir daí. Da análise que eu fiz em relação às hipóteses que tinha em cima da mesa, ganhou a possibilidade de trabalhar no Moreirense num projeto com o qual eu me identificava bastante. Estamos a falar aqui de uma mudança de paradigma, onde obviamente existe a necessidade e o principal objetivo de cimentar o clube na 1ª Liga. Eu acho que até o clube estar preparado para o passo a seguir que é a metade de cima da tabela, ali a morder os calcanhares da Europa, acho que isso leva tempo pela forma como os clubes em Portugal funcionam e como a própria competição acaba por estar organizada. Acho que não é fácil dar esse passo, mas os próprios objetivos paralelos que o Moreirense acaba por ter atualmente, no sentido de ajudar a desenvolver mais os próprios departamentos complementares que ajudam a equipa, para haver aqui uma ligação muito grande com aquilo que é o futebol de formação
Quais foram os grandes desafios à chegada?
O foco do recrutamento incidir maioritariamente, eu não digo única e exclusivamente, mas maioritariamente em jogadores que possam ser valorizados, não só do ponto de vista desportivo para poderem render no próprio Moreirense como nos outros clubes do grupo, mas também eventualmente do ponto de vista financeiro, são tudo situações com as quais eu também já estava muito familiarizado, e depois também obviamente pelas pessoas envolvidas. E eu digo isto muitas vezes, não é pelo facto do Moreirense ter sido vendido e ter havido aqui uma mudança de gestão, que significa que o Moreirense não era um clube de excelência, porque a verdade é que aquilo que eu encontrei aqui foi absolutamente excecional. Nós olhamos para a realidade dos clubes, e normalmente aparece, há sempre ali, em grande parte dos clubes infelizmente existe sempre ali um bocadinho a nuvem financeira, por assim dizer. O Moreirense é um clube que nunca gastou muito, mas sempre foi um clube com uma imagem muito séria, uma imagem muito organizada, muito estruturada, e que conseguiu, na maior parte do seu tempo, fazer um crescimento sustentado para um clube que já estava mais ou menos cimentado na 1ª Liga.
E está mais próximo, por isso, de dar esse passo rumo à Europa?
Sem sombras de dúvidas, porque eu acho que as coisas estão a ser bem feitas. Conseguimos quase que esta questão da mudança nem fosse tema, porque efetivamente a época acabou por ser muito bem conseguida, e obviamente que passo a passo eu acredito que as coisas estão a ser bem feitas e que o Moreirense vai conseguir, sem sombras de dúvidas, cimentar-se como um clube de metade de cima da tabela da 1ª Liga. A manutenção pode deixar de ser aquela palavra que está sempre, sempre, sempre presente na ponta da língua. Agora, não digo que é algo que seja feito em dois anos, mas a médio prazo eu acho que é um objetivo realista, porque tem muito a ver também com, lá está, falando, por exemplo, de infraestruturas, não se constrói um centro de estágio de um dia para o outro, e, portanto, vai levar o seu tempo, mas é algo que eu acho que vai orgulhar muito as pessoas de Moreira.
A sua ambição também existe nesse sentido?
É algo com que eu também me identifico muito, porque é algo que também fez parte de todo o meu percurso. Óbvio que temos a consciência que não é agora estalar os dedos e fizemos uma época tranquila e, portanto, para o ano vamos a correr, lutar pela Europa, porque eu acho que as coisas não funcionam assim, é óbvio que a ponta do iceberg é a equipa, é o próximo jogo que nós queremos ganhar e a tabela classificativa. Por baixo dessa ponta desse iceberg tem que haver toda uma base, que é essa base que está a ser construída, exatamente para que uma época positiva não seja apenas algo inconstante, digamos assim, e para que se possa tornar uma constante no futuro. Mas há um vetor importante, acho que é que o Moreirense nunca vai deixar de ser um clube vendedor e dentro desse contexto de ser um clube vendedor e preparar uma equipa que tenha ambição e que possa crer um pouquinho mais, mais um duro trabalho.
O Moreirense ser um clube vendedor, trouxe-lhe dificuldades após o Mercado de Inverno…
Acho que acaba por ser um pouco também uma consequência do caminho para onde nós queremos ir, porque não consigo fazer uma análise redutora ao ponto de dizer que a equipa era mais forte e ficou mais fraca. Percebo que essa seja a análise fácil de fazer, para quem vê de fora, mas temos de olhar, não é para a equipa do momento, nós temos de olhar para aquilo que queremos que seja o Moreirense de uma forma consistente.
Temos de cimentar o trabalho feito na nossa formação, de forma que possam aparecer mais Afonsos Assis, e por outro lado, termos também capacidade de recrutar jovens talentos fora, para que os possamos potenciar cá. Olharmos para uma realidade de grupo em que o grupo de trabalho tinha uma média de idades que era seguramente das mais altas da 1ª Liga.
E transformou-se completamente, tentámos aproximá-lo daquilo que queremos que seja o projeto do Moreirense de uma forma consistente nos próximos anos. E, portanto, se eu digo que nós perdemos qualidade, não sinto, mas perdemos eventualmente alguma experiência daquilo que era o contexto de 1ª Liga.
“Não temos fontes de receita em Portugal que permitam não sermos clubes vendedores”.
Mas deixaram-no frustrado os resultados da segunda volta, não ter as opções que queria?
Os clubes em Portugal todos têm de estar habituados a essa realidade, não há outra forma. Não temos fontes de receita em Portugal que permitam não sermos clubes vendedores.
E cada um à sua dimensão, mas todos têm de encarar as coisas dessa forma. Ao mesmo tempo, eu acredito que, havendo um bom trabalho e um bom planeamento, isso é fácil de suprir, digamos assim, porque estamos a fazer uma boa época. Um trabalho bem feito com um gabinete de scouting, onde já existem mapas sombra, onde nós sabemos que no dia em que perdemos o jogador desta posição, temos ali três opções para contratar. Tínhamos a ideia de que tínhamos de re-caracterizar o grupo, ou seja, baixar claramente a média de idades, conseguir ter jogadores onde se identifique claramente o potencial de valorização. Mas nesta fase ainda vivemos um bocadinho da oportunidade de mercado.
Teve de se adaptar o Moreirense aos jogadores que tinha?
Esse tipo de questões às vezes mexe um bocadinho com aquilo que é o dia-a-dia, não do treinador, mas se calhar até com a cabeça do próprio jogador, e, portanto, é importante nós às vezes termos conhecimento desse tipo de questões para conseguirmos lidar com determinadas situações. É um desafio, claro que há momentos em que nós somos humanos, ambiciosos e caímos ali um bocadinho às vezes numa frustração. Depois, num momento da verdade, temos de ir à luta com aquilo que temos e tem de haver sempre muita resiliência. Eu acho que isso acabou por ser uma característica também muito importante de todos nós, não só a equipa técnica como a própria estrutura e como o próprio grupo de trabalho, de percebermos que também não nos adiantava nada estarmos a lamentar. Saímos daqui mais fortes e da próxima vez que tivermos de lidar com situações semelhantes, já vamos estar muito mais preparados.
Mas com tanta adversidade por o qual passou nessa segunda metade da época, contava ainda assim conseguir valorizar tantos jogadores?
O nosso foco não é muito o individual. Depois já entra um bocadinho na esfera daquilo que é a minha forma enquanto treinador e da minha equipa técnica, nós temos uma crença muito grande, que é, nós sabemos perfeitamente que estamos num mundo onde aquilo que conta mais é o resultado, ponto final. E, portanto, de todas essas coisas, nós apenas controlamos aquilo que a nossa equipa faz, e nós partimos muito do princípio que é, nós temos de ser bons a jogar o nosso jogo, e temos de conseguir que o nosso jogo e a nossa equipa consigam superar-se ao conjunto de todos esses outros fatores que influenciam o resultado.
Já falou aqui também nos jogadores jovens da faixa, é mais difícil trabalhar com os jovens?
Não nos podemos esquecer de uma coisa, os jogadores são seres humanos, no fundo estamos a lidar com seres humanos de toda a ordem. E dentro de todo aquele conjunto de pessoas, o mais importante é todos termos consciência que cada um tem a sua missão e a sua responsabilidade. Atualmente a informação está disponível, o jogador precisa de cinco minutos para perceber se o treinador é competente ou não é competente. Se calhar antes não era assim, até porque antes, entre aspas, os jogadores eram mais bem-mandados, mandavam-nos subir bancadas e eles iam subir bancadas. Eu se chegar ao treino e disser aos jogadores para irem subir bancadas, provavelmente eu estou despedido no dia a seguir, porque eles vão arranjar maneira de tirar o treinador dali. Obviamente que as coisas mudaram, eu acho que essa questão da honestidade e da transparência é muito importante. E nesse sentido, acaba por ser muito mais difícil lidar com os jovens, digamos assim, porque nem sempre é fácil conseguir que eles entrem no caminho certo perante a dificuldade.
Como viu o Campeonato que agora terminou?
Foi uma Liga muito competitiva, acho que a luta lá de cima é sempre uma luta muito própria, mas olhando para o restante foi uma luta quase até ao fim entre várias equipas pela permanência. Não tenho a mínima dúvida que é o reflexo daquilo que eu digo muitas vezes, na 1ª Liga temos cinco clubes que não pensam nisso. Não é uma Liga fácil, é muito desafiante, tem muito a ver também com os jogadores de qualidade e planteis muito homogéneos. A questão do início da época, acho que tem um impacto muito significativo nas questões motivacionais, e eu acho que nós vivemos isso.
O facto de nós termos começado muito bem, deu-nos uma tranquilidade muito grande para ir jogando semana após semana, completamente despreocupados daquilo que era a tabela classificativa. A nossa realidade é crescer, é evoluir do ponto de vista do clube em primeiro lugar, por acréscimo e por consequência dos nossos jogadores, ir criando janelas de oportunidade para podermos ter jovens da formação a aparecer, também coma criação dos Sub-23, na próxima época.
A sua estreia na 1ª Liga Portuguesa, foi da forma como estava, digamos, a perspetivar?
Acabou por ser uma época, ao nível do resultado muito satisfatória, mas também para o nosso crescimento e para a nossa experiência enquanto equipa técnica. Uma época muito importante, onde pela primeira vez tivemos a oportunidade de jogar nos maiores palcos em Portugal, sentir as diferenças de competir também contra as melhores equipas. Acima de tudo, muito grato também ao Moreirense, às pessoas do Moreirense, pela aposta que fizeram. Costumo dizer que as primeiras pessoas a quem eu quero agradar são as pessoas que confiaram em mim, no meu trabalho e dos meus. Também aos nossos adeptos, porque os clubes são as pessoas e se não houvesse pessoas a gostarem do Moreirense como gostam e a acompanharem o Moreirense como acompanham, aquilo que nós estávamos a fazer diariamente não tinha metade do sentido.
O facto de ter contrato com o Moreirense deixa-o mais descansado neste período ou já também com aquele ânimo de fazer bem melhor para a próxima época?
A questão de ter contrato ou não, não pesa muito na medida em que nós trabalhamos todos muito em conjunto. Temos muitas conversas ao longo da época sobre o caminho que estamos a percorrer, portanto, sabemos que vamos ter uma janela de mercado que já está a ser falada e preparada há muito tempo. Fomos também tomando muitas das decisões, a partir do momento em que sentimos que o objetivo estava atingido, fomos testando e avaliando para podermos tomar as melhores decisões agora na transição da época. É algo que eu considero normal. Estou perfeitamente identificado com aquilo que é o projeto, enquanto equipa técnica, estamos muito felizes e, portanto, no fundo é o continuar de um trabalho. Queremos novamente poder chegar ao final da próxima época e sentir que demos mais passos em frente enquanto clube e enquanto projeto.
E colocar um pouco mais de ambição na nova época?
A ambição está sempre presente, é fácil se calhar olharmos e dizer para o ano temos de fazer melhor neste tal campeonato contra as melhores equipas, mas depois também de nada serve se fizermos pior no campeonato contra os restantes.
Não dá para fugir à realidade que temos de atingir manutenção o mais rapidamente possível. Seria fantástico fazer outra época onde esta questão da descida praticamente não pairasse sobre os nossos olhos, digamos assim. Temos de olhar para o projeto como um todo e garantir que continuamos a dar passos em frente nestas diferentes áreas. Evoluir os departamentos, departamento de observação e análise onde estamos a procurar melhorar cada vez mais a questão da integração da própria equipa de Sub-23 que acaba sempre por ter algum impacto também na equipa principal.
Agora, a ambição há sempre, é a nossa forma de estar, é a minha forma de estar as pessoas do clube também e, portanto, querer mesmo, acreditamos que se fizermos isso de uma forma consistente e bem feita isso depois terá o devido reflexo na classificação.








