“O FC Vizela para mim não tem segredos é o clube do coração"

Fernando Faria esteve no Corta e Prega da Rádio Vizela.

Corta e Prega (CP) - Ainda há quem lhe chame “mister”?

Fernando Faria (FF) - Há, ainda muita gente. Passo na rua, quer ex-atletas, quer mesmo pessoas conhecidas e amigas que me tratam assim e com alguma frequência.

 

CP- Como começa a sua ligação ao futebol?

FF - Desde muito jovem. [Começa] no recreio da escola e quando jogávamos futebol, havia alguma coisa que me destacava, isto dito pelos próprios professores, e, portanto, foi sempre a modalidade que mais me atraiu. Comecei ainda muito cedo, antes de chegar a iniciado, a mostrar que poderia ter algumas apetências para poder seguir a carreira.

 

CP - E quando é que ficou sério?

FF - Cheguei aos 13 anos, fui recrutado pelo FC Vizela para jogar nas suas camadas jovens, para os iniciados, e iniciei a minha carreira como futebolista. É evidente que ainda muito verde, até porque estudava e jogava, os treinos eram à noite. Quando fui para o FC Porto houve aí uma alteração, até na minha mentalidade, de que poderia efetivamente vir a seguir a carreira de profissional de futebol.

 

CP – E como surge a oportunidade de ir para o FC Porto?

FF - Nas camadas jovens do Vizela, como juvenil, já se tinha previsto que essa situação pudesse acontecer. O falecido senhor Baeta, que era o coordenador do futebol juvenil, fez uma visita a Vizela, falou com as pessoas do clube, e queria que fosse representar o FC Porto. Ainda estive uma pré-época no Porto, mas depois as coisas não se concretizaram, essencialmente porque houve ali algumas burocracias que não deram certo. Regressei a Vizela e joguei ainda nos Juvenis e no ano seguinte como júnior, o FC Porto fez novamente a sua vontade e concretizou-se.

 

CP – Encontrou, certamente, uma realidade completamente diferente…

FF - Completamente. Sabes que o FC Vizela, na altura, sendo um clube já com alguma dimensão, ainda estava nas terceiras divisões, ainda estava na regional da Associação de Futebol de Braga mas todos os jogadores que tinham vontade e queriam mostrar as suas qualidades, vinham para cá.

 

CP - Como reagiram os seus pais quando vai para o FC Porto?

FF – Com orgulho, mais o meu pai que desde muito novo é adepto do Porto e sócio. Ficou contente e orgulhoso. A minha mãe não tanto, não foi contra mas dizia sempre para ter em atenção os estudos.

CP - E essa vertente correu bem?

FF - Não correu tão bem como desejava, é a realidade. Eu fui para o Porto com 17/18 anos, estava no sétimo ano, treinávamos de tarde e às vezes de manhã. Estive a viver no Porto, ainda frequentei o liceu lá, mas depois achei que se calhar poderia retomar mais tarde, desisti e fiquei ali pela não conclusão do sétimo ano para dar continuidade à carreira de futebolista. Mas nunca mais voltei aos estudos, infelizmente.

 

CP –Acabou por não ficar no FC Porto. O que se seguiu?

FF - Concluí a fase de júnior, houve a possibilidade de ficar, mas não se concretizou. Então surgiu a oportunidade de representar dois clubes, o Aves ou o Vizela. Na altura, o Vizela estava na terceira divisão, o Aves também. Mas na altura o senhor Manuel Machado, o senhor Sérgio Capela, fizeram também de tudo para que eu pudesse regressar a Vizela. E assim foi. Trazia outra bagagem, uma mentalidade muito mais forte, de profissional de futebol.

 

CP - Ou seja, sair do FC Porto e voltar a Vizela não foi um passo atrás?

FF – Não. Antigamente, quando terminavam os juniores, ou se era sénior e se integrava a equipa principal ou então o jogador teria que sair. Regressei a Vizela e não houve passos atrás nem passos à frente, foi o que foi. Estive sete anos consecutivos, um orgulho muito grande. Ganhei os principais títulos do FC Vizela, tudo o que o FC Vizela tem de bom, eu consegui. Fui campeão nacional da terceira divisão, campeão da segunda divisão, subimos à primeira Liga, fui capitão durante 30 jogos. São argumentos que me alimentam o ego.

 

CP – Terminou a carreira de jogador com 31 anos. Muito cedo?

FF - Acabei cedo. Custou, claro que sim. Mas rapidamente fiquei ligado ao futebol como treinador. Surgiu naturalmente, embora estivesse preparado com alguma antecedência, ainda como jogador de futebol comecei a tirar os devidos cursos para estar apetrechado. Em Vizela fui treinador adjunto e estive aqui alguns anos, treinei os Juniores em simultâneo. Até que depois, passado uns anos, o senhor Paulo Pinheiro e o senhor Zé Armando me fizeram o convite para poder vir a ser o treinador principal da equipa e eu aceitei.

Também treinei o Taipas e o Trofense, durante alguns anos. O FC Vizela para mim não tem segredos, é o clube do meu coração, não escondo isso. É evidente que tenho o clube da minha terra, o CCD Santa Eulália, onde sou vice-presidente e orgulho-me de o representar.

 

CP – Termina a carreira de treinador no FC Vizela…

FF – A convite do Paulo Pinheiro e do Zé Armando, estava como treinador principal o Manuel Correia, e eu era o adjunto, na Segunda Liga. Viria a ser a parte negra, ou a mágoa, que hoje já não o é. As coisas não estavam a correr tão bem, o Manuel Correia saiu e também saí de uma forma abrupta. Quando sai o Manuel Correia eu tinha “ajudado” o senhor Paulo Pinheiro e o senhor Zé Armando a escolher o treinador seguinte. Na terça feira de manhã ia haver treino e antes umas horas recebi um telefonema onde me disseram que não iria continuar no Vizela. Não me foi dada grande explicação, eu sabia que se eles quisessem eu continuava. Achei que merecia mais, mas saí a bem com todos, mas para mim foi duro.

Nunca, nunca mais falamos no assunto e andei durante um ano ou dois com uma amargura muito grande perante estes dois amigos, porque são dois amigos. Mas este episódio fez com que, muito provavelmente, eu deixasse o futebol.

 

CP - No percurso de um grande homem, tem que haver sempre por trás uma grande mulher…

FF - Não tenho dúvidas nenhumas em relação a isso. A minha mulher se calhar é a grande sacrificada de toda a minha vida, presto-lhe aqui uma homenagem por sempre me apoiar.

 

CP – O BTT veio, mais tarde, substituir o futebol…

FF - O BTT apareceu na minha vida de uma forma também abrupta, porque foi quando deixei de treinar. Fazemos uns passeios semanalmente, outros anualmente. Conheço muitas serras do nosso país, os caminhos de Santiago que faço há 20 anos. Conheço inúmeros caminhos de Santiago, portanto o BTT apareceu e veio, de certa forma, colmatar um bocadinho o futebol. O domingo está sempre ocupado, às vezes a meio da semana também fazíamos um passeiozinho. Agora, o futebol está dentro de mim, devoro o futebol em casa.

 

CP - Se o convidassem para treinar de novo, num projeto ambicioso, aceitava?

FF - É difícil. Nunca digas nunca, mas, neste momento se calhar é difícil. Hoje em dia já estou um bocado mais esquecido. Pode acontecer, mas é muito difícil.

 

CP - Mas hoje tem outras alegrias…

FF – A minha netinha que é qualquer coisa do outro mundo. Muito obrigado por me teres convidado. Foi para mim um grande prazer poder estar aqui contigo.