Joel Sousa quer colocar Famel com as duas rodas na estrada
O engenheiro automóvel Joel Sousa tem 31 anos, reside em Nespereira e é Gestor de Produto.
Mas esta semana é notícia no RVJornal pelo projeto pessoal que tem mãos - fazer regressar às estradas do país a mítica Famel - isto depois de ter comprado os direitos da famosa marca de motorizadas que faliu no início do séc. XXI. Na última semana, levou o protótipo da nova Famel à Web Summit, que decorreu em Lisboa, e agora apresenta-o aos nossos leitores.
RVJornal (RVJ) - Como é que surgiu a ligação do Joel à mítica marca de motos portuguesa Famel?
Joel Sousa (JS) – Conheço a marca desde muito novo. A ligação atual começou no estágio profissional de onde conhecia o anterior detentor dos direitos da marca.
RVJ - Que trabalho tem vindo a ser desenvolvido, tendo por objetivo colocar a Famel novamente com as duas rodas na estrada?
JS – O trabalho que temos vindo a desenvolver assenta num plano com várias fases que passam desde a fase atual do desenvolvimento do conceito, passando depois à fase de desenvolvimento para homologação e, posteriormente, a fase de lançamento no mercado. Estamos ainda, portanto, numa fase muito inicial.
RVJ - O que se pretende é fazer “um revival da XF17, tal como a Mini fez com o Mini e a Volkswagen com o Beatle”, como já teve a oportunidade de referir?
JS – Sim, o objetivo principal é esse. A marca deixou um legado muito bom como ponto de partida.
RVJ - Mas agora estaremos a falar de uma Famel virada para o futuro e amiga do ambiente. Será uma moto vocacionada para as nossas cidades atuais?
JS – O nosso enfoque é precisamente esse – tentar captar as atenções para o veículo elétrico e as duas rodas como alternativa ao carro.
A verdade é que as nossas principais cidades não são amigas dos utilizadores de bicicletas e infelizmente a rede de transportes públicos ainda não é suficiente em determinadas zonas dos subúrbios. Ninguém quer chegar suado ao trabalho de vir a puxar a sua bicicleta, por isso, consideramos que a moto, sendo elétrica, será uma das melhores escolhas em Portugal.
RVJ - Qual será a sua autonomia?
JS – Esperamos cerca de 100 quilómetros.
RVJ - Mas quais os traços que se manterão entre a legendária Famel XF17 e a nova proposta da marca?
JS – O design atual é uma reinterpretação da Famel do futuro. Ainda tem algum trabalho pela frente mas os principais elementos estão lá.
RVJ - Da antiga Famel só não serão reproduzidas as memórias do fumo e do barulho?
JS – Se repararmos, estamos no sentido completamente o oposto. A Famel agora não faz barulho nem fumo. é uma nova abordagem e também um princípio.
Não queremos apenas fazer regressar a marca de forma elétrica, queremos consciencializar as pessoas acerca do ambiente e mostrar que devemos começar a preocuparmo-nos mais. Naquilo que conseguirmos dar o exemplo em prol do ambiente e das alterações climáticas, vamos fazê-lo.
RVJ - Mas a mística continua presente? é ela a base do vosso trabalho?
JS – A mística estará presente. Não estamos apenas a colocar um autocolante num bocado de plástico com metal.
No desenvolvimento somos portugueses, queremos utilizar ao máximo componentes fabricados em Portugal e, se tudo correr bem, vamos de regresso não só às motas mas a uma fábrica, mão-de-obra, etc… Portanto, toda essa mística, penso, que será honrada.
RVJ - Apesar deste investimento em tecnologia do futuro, será possível colocar a nova Famel no mercado com um preço competitivo?
JS – Um motociclo elétrico é mais caro, mas a diferença, dependendo dos valores, pode ser recuperada em quilómetros e manutenção relativamente a um veículo a gasolina.
Logo à partida não é competitivo, quando temos um mercado saturado com produtos a começar nos 2000 euros. Queremos é fazer a diferença pela qualidade e por ser português. No entanto, também acredito que daqui até ao lançamento no mercado será possível chegar a um valor razoável comparativo com um produto com motor a combustão.
RVJ - O que precisa, neste momento, para conseguir concretizar o objetivo de reerguer uma marca, que é já um elemento identitário do nosso país?
JS – Acima de tudo, apoio dos portugueses no projeto e, obviamente, apoio financeiro.
RVJ - Na última semana, teve a oportunidade de levar o protótipo da nova Famel à Web Summit, que decorreu em Lisboa. Como é que decorreu a experiência?
JS – A experiência foi muito boa. Tivemos muito feedback positivo e apoio para continuar com o projeto. O evento tem uma envolvência gigantesca e poder mostrar o nosso conceito foi uma ótima montra. Voltando por exemplo à questão ambiental, temos vários sinais de que as coisas estão mal e a natureza já dá sinais há muito tempo. Numa das conferências houve uma pergunta que foi colocada e que me tocou: Vamos dizer aos nossos filhos e netos que tínhamos todas as ferramentas necessárias para começar a solucionar o problema e que mesmo assim não fizemos nada ou vamos tratar disto já?
RVJ - Em entrevista à Lusa, havia referido que a participação nesta iniciativa vocacionada para empreendedores na área da tecnologia tinha também por objetivo encontrar investidores estratégicos. Conseguiu que fossem dados alguns passos nesse sentido?
JS – Conseguimos três pontos fundamentais: recebemos feedback do conceito, falámos com muitas empresas e startups que mostraram disponibilidade para colaborar com o projeto e também investidores que agora teremos que “em privado” falar mais em concreto e verificar se teremos vantagens em trabalhar em conjunto.
RVJ - Pelo menos visibilidade ao projeto não faltou? Teve eco em vários órgãos de Comunicação Social…
JS – Sim, só na terça, dia em que tínhamos o protótipo em demonstração demos quatro ou cinco entrevistas.
RVJ - De que tipo de investidores estão à procura?
JS – Alguém que não seja para mandar. Queremos alguém que nos dê apoio financeiro mas que tenha também disponibilidade para servir de mentor, de preferência com provas dadas na indústria.
RVJ - Na Web Summit, apresentaram um protótipo da Famel para que o projeto pudesse ser validado ao nível do design. Passou no teste?
JS – Considero que a 50%. é preciso realçar que não estava terminado e que é um conceito. Como conceito, a opinião geral na Web Summit é que está muito bom. Para versão final ainda falta algum trabalho pela frente.
Aliás é o que acontece à maioria dos conceitos lançados na indústria automóvel porque depois vem o “lápis azul” das homologações e risca tudo.
RVJ - Mas agora seguir-se-á tudo o resto – da funcionalidade até à industrialização. Qual é o trabalho que agora tem de ser feito? Ou seja, o que falta fazer para a Famel voltar à estrada?
JS – Falta, como disse, desenvolver o conceito. Há muitas coisas que têm que ser revistas e muitos testes pela frente para que o produto seja muito fiável.
Falta também depois as homologações e pensar no pós-venda que é um ponto crítico de qualquer marca.
RVJ - Quais serão as especificidades do novo motor da Famel? Esta será a resposta mais aguardada pelos apreciadores dos veículos de duas rodas…
JS – Este motor será equivalente a um motor 125cm3, mas elétrico, com cerca de 10.6kW de potência máxima de pico. Para se ter uma ideia, as scooters elétricas rondam os 4 a 5 kW.
RVJ - Também já veio afirmar que tem como finalidade acabar com o mito de que os veículos elétricos são “arrastadeiras na estrada”. Que caraterísticas vão aplicar na nova Famel que ditarão, precisamente, o contrário?
JS – Como referi, o motor tem muita potência e num veículo a gasolina um motor com esta potência demora a desenvolver. No elétrico é ao contrário, é preciso limitar o arranque senão pode ser perigoso.
RVJ - Sem os investidores referenciados anteriormente será difícil reerguer a marca, que conheceu a falência nos anos 90?
JS – Infelizmente sim, a realidade é que um projeto com uma marca desta dimensão tem que ter um investimento que o acompanhe. Se não for para ter dimensão, não é economicamente viável e, por isso, é preciso começar, desde o início, a projetar para fazer muitas unidades/ano.
RVJ - Além de engenheiro automóvel, vê-se também no papel de um empreendedor?
JS – Por definição, sim. Na realidade e tendo em conta o que inicialmente previ para o projeto e onde já vou, acho que estou mais perto de ser visto como um louco que sonha acordado.
RVJ - O projeto que abraçou vem comprovar que vale a pena empreender em Portugal e apostar nas marcas portuguesas?
JS – Não, pelo contrário. Vem comprovar a inércia que existe em Portugal para alguma coisa sair do papel ou alguém fazer realmente alguma coisa. Toda a gente fala, mas mesmo no mundo das startups é difícil convencer alguém a investir, dedicar tempo, patrocinar e até mesmo vender, tendo em conta que o retorno, a existir será apenas daqui a dois anos. No entanto, reconheço que se deve apostar nas marcas portuguesas. é património histórico e orgulho nacional.
RVJ - Mas sabemos que foram realizados estudos para avaliar perspetivas de mercado. As conclusões vieram demonstrar que valeria a pena seguir em frente?
JS – As perspetivas são muito boas. O mercado dos motociclos subiu no ano passado em termos de vendas. A venda dos motociclos elétricos também apresenta uma tendência estável de crescimento. Aliado a isso, o reconhecimento da marca a nível nacional é um fator que aponta que vale a pena seguir em frente.
RVJ - Para concluir: é caso para dizer que está tudo encaminhado para recuperar o passado das motorizadas fabricadas em Portugal?
JS – Sim, é tudo uma questão de tempo e dinheiro.







