Endutex é hoje dona de uma rede de hotéis
Confira a entrevista a André Ferreira, o diretor da Endutex Hotéis.
Já há alguns anos que a “Endutex”, sedeada em Vilarinho, deixou de se dedicar apenas à produção de têxteis técnicos para se lançar em investimentos no setor imobiliário e hoteleiro. Hoje a empresa é dona da rede de hotéis Moov e inaugurou recentemente, na cidade do Porto, o parque empresarial District Offices na Lifestyle.
A Rádio Vizela esteve à conversa com André Ferreira. O diretor da Endutex Hotéis explica como é que a diversificação da atividade de uma empresa pode conduzir ao sucesso.
RVJornal (RVJ) – Quando é que a “Endutex” decidiu deixar de se dedicar apenas ao setor têxtil para passar a investir no ramo imobiliário e hoteleiro?
André Ferreira (AF) – Já há muitos anos que a Endutex apostou em diversificar as suas áreas de negócio. Entendemos que a área hoteleira, com um conceito específico poderia ser uma boa oportunidade. Começamos a pesquisar terrenos e abrimos o primeiro hotel em 2011. A partir daí, abrimos mais dois hotéis. Temos dois a funcionar no Porto e um em évora. Neste momento, existem mais três projetos aprovados para a área da Grande Lisboa, pelo que a construção arrancará este ano. Estamos ainda a construir o primeiro hotel no Brasil, com um segundo para começar em breve.
RVJ – Quanto vale hoje a marca “Moov”?
AF – Já é uma marca conhecida. Pela sua localização, a abertura do último hotel junto ao NorteShopping acabou por lhe dar uma grande visibilidade. Nesta altura, as pessoas associam a marca “Moov” a algo que tem uma relação de qualidade/preço imbatível. Não temos hotéis de luxo, mas escolhemos os serviços que queremos dar aos clientes, ou seja, oferecemos aqueles que, de facto, os clientes valorizam. A aposta tem sido ganha, porque as ocupações têm sido boas e os resultados também. é sinal de que estamos num bom caminho.
“Este é um negócio que tem viabilidade económica por si só e investimos com confiança”.
RVJ – O que é que vos distinguem de outras unidades hoteleiras?
AF – Um hotel vende uma boa noite de sono, por isso, a insonorização do quarto tem de ser perfeita, o colchão deve ser ótimo e o chuveiro tem de ser muito bom… E é aí que concentramos muito do nosso investimento. Garantindo isso, para um hotel no centro da cidade, tudo o resto é um bocadinho irrelevante. Não precisamos de ter um spa ou uma piscina, porque quando as pessoas vão visitar o Porto durante dois ou três dias querem é estar e viver a cidade. Para esse público, este conceito é perfeito. Por isso, é que não abrimos no Algarve, nem num destino rural…
Sendo assim, e retirando todas as valências adicionais que as pessoas acabam por não usar, nós conseguimos ter um produto com um preço mais económico. De facto o que as pessoas dizem é que preferem pagar um bocadinho menos no quarto e gastar o resto do dinheiro num bom restaurante, num bar, num museu, porque é isso que se procura quando se viaja.
RVJ – Que investimento foi preciso fazer para que a “Endutex” pudesse dispor hoje de três hotéis em funcionamento?
AF – Os três hotéis tiveram um investimento conjunto na ordem dos 18 milhões de euros. Há uma parte que foi financiada pela banca, sendo que não pudemos recorrer a fundos comunitários, até porque a “Endutex” que já é considerada uma grande empresa e muitos desses fundos só estão acessíveis às Pequenas e Médias Empresas. No entanto, para nós, este é um negócio que tem viabilidade económica por si só e investimos com confiança.
RVJ – Como é que se proporcionou a criação do District Offices and Lifestyle?
AF – Não foi a nossa primeira aposta imobiliária nesta área. Comprámos a antiga “Baiona” há alguns anos e dividimo-la em vários pavilhões, que estão agora alugados a várias empresas. Fizemos uma coisa do género também em Guimarães, sendo que nesta área temos ainda feito outros pequenos investimentos espalhados pelo país mas mais na zona norte. Surgiu-nos aquele edifício [um espaço onde outrora funcionou o Governo Civil do Porto e o Comando Metropolitano da PSP], sabíamos que ele estava à venda e decidimos avançar. A experiência que já tínhamos nesta área permitiu-nos ter algum conhecimento de mercado. Depois também já estávamos habituados a fazer reabilitação, porque assim tinha acontecido em dois dos nossos hotéis. O conceito que, desde logo, pretendíamos implementar tinha algumas caraterísticas diferenciadoras e nós decidimos apostar. Também será importante dizer que o edifício foi comprado numa altura em que o mercado imobiliário não estava tão caro como está hoje, por isso, vimos ali uma oportunidade.
“Contratamos um pacote grande e dividimos por muitos utilizadores, o que nos possibilita ter um preço mais barato para cada um deles”.
RVJ – Falamos de que caraterísticas diferenciadoras?
AF – Hoje as pessoas querem ter um escritório mas também uma casa de banho, uma sala de reuniões, uma copa. Querem ter isso tudo… Mas o centro do Porto é um destino hoje mais caro do que outras zonas mais periféricas.
O que nós fizemos foi o seguinte: na área dos escritórios, os empresários têm apenas o seu posto de trabalho, com a sua secretária, o seu computador, tudo o resto, ou seja, o anfiteatro, as salas de reuniões, a zona de estar, a copa e até uma sala de jogos (tal como vemos na América nas empresas tecnológicas), está concentrado numa zona comum.
O empresário só estará a pagar o seu espaço que é mais pequeno, é aquele que precisa, mas tem acesso às valências que só as grandes empresas conseguem ter. Daí que conseguimos entrar a preços muito competitivos, porque ganhamos escala, porque esses serviços, que referi anteriormente, sendo partilhados ficam mais baratos para cada um dos utilizadores. Além disso, incluímos no preço de arrendamento os custos com o ar condicionado e a internet. O conceito continua o mesmo: mais uma vez, contratamos um pacote grande e dividimos por muitos utilizadores, o que nos possibilita ter um preço mais barato para cada um deles. No District temos 60 escritórios, 12 lojas de comércio e uma área de restauração com nove espaços.
RVJ – Qual é a taxa de ocupação?
AF – Os escritórios estão completos. O aluguer aconteceu ainda na altura em que fazíamos a reconstrução. Aquando da abertura do District e depois de todas as notícias que foram surgindo apareceram muitos outros pedidos por parte de pessoas que pretendiam alugar espaços. Mas estamos lotados. No entanto, registamos o interesse. Aliás, é motivador para fazermos mais qualquer coisa nesta área.
“Se não conseguirem se implementar numa infraestrutura como o [District], o preço para se ter um escritório decente é incomportável”
RVJ – Como é que perceberam de que havia mercado? O custo de contexto de criar instalações próprias continua a ser muito pesado para um empresário?
AF – é mais fácil o arrendamento. Nós estudamos o crescimento das cidades e o que está a acontecer hoje no centro do Porto aconteceu em outras cidades europeias há 10 ou 15 anos. Cada país ou cada cidade tem a sua própria realidade mas há tendências que conseguimos antecipar, porque a história nos ensinou que era assim. Nós sabíamos que os serviços iam chegar agora ao Porto. A cidade não era competitiva para a indústria. Aliás perdeu muitas empresas dessa área, porque as acessibilidades e os preços [de instalação] não eram competitivos, mas as empresas da gente criativa ligada à Informática, ao Marketing, à Arquitetura e às Engenharias, setor ao qual pertence o nosso cliente tipo, valorizam o facto de estarem no centro do Porto pela oferta cultural e de lazer que a cidade proporciona.
No entanto, e infelizmente, se não se conseguirem implementar numa infraestrutura como o [District], o preço para conseguirem ter um escritório decente é incomportável. Sabíamos que se conseguíssemos ser eficientes e, mais uma vez, selecionar bem os serviços que queríamos oferecer, conseguiríamos chegar ao mercado com um produto com um preço imbatível. Esse era o princípio.
RVJ – Mediram o risco do investimento?
AF – Na reconstrução do edifício, estaremos a falar de um investimento de cerca de 2 milhões de euros… é obviamente um valor alto, mas tínhamos uma análise de risco bem feita. Fomos muito eficientes na reconstrução e a compra também tinha sido feita por um valor que hoje seria impossível. Diria que atualmente nem pelo dobro do preço o teríamos conseguido comprar. Fizemo-lo em boa altura, no final de 2014. A partir daí, os preços começaram a subir a pique nos centros do Porto e Lisboa.
“Eu diria que sofremos desse mal. Esse é o ADN da Endutex que, desde a sua fundação, sempre quis fazer mais”.
RVJ – Agora que estão com lotação esgotada no District, já começam a olhar para o lado, ou seja, para a possibilidade de encetarem novos investimentos nessa área?
AF – Já temos olhado (risos)… Eu diria que sofremos desse mal. Esse é o ADN da “Endutex” que, desde a sua fundação, sempre quis fazer mais. Internacionalizou-se muito cedo ainda quando outros grupos ainda não pensavam no assunto, isto para dizer que este espírito [empreendedor] já existe na empresa há muitos anos. Quem chega ao Grupo mais tarde [há cerca de 10 anos] não tem outro remédio que não seja o de seguir a mesma filosofia, o mesmo espírito. Por isso, sim, estamos a ver outras opções, porque para já os investimentos têm corrido bem.
RVJ – Passando novamente para os investimentos no setor imobiliário, perguntar como surgiu a oportunidade da aposta no Brasil?
AF – A “Endutex” tem uma unidade produtiva no Brasil desde 1998. Por isso conhece muito bem a realidade do Brasil, pelo menos do sul daquele país, região onde está implementada. Daí que percebemos que o nosso conceito hoteleiro também encaixaria bem no mercado brasileiro e resolvemos fazer o teste, internacionalizando este nosso setor de atividade.
No setor hoteleiro, já devemos ter perto de 60 pessoas a trabalhar. O Grupo tem cerca de 700 funcionários, mas isso engloba também o Brasil. Eu diria que em Portugal devemos ser à volta de 500.
RVJ – Na criação dos vossos hotéis utilizam os materiais têxteis produzidos na “Endutex”?
AF – Sim, temos algumas coisas que utilizamos. Os hotéis não são consumidores de muitos produtos têxteis, pelo menos dos que nós fazemos, mas os resguardos dos colchões são, obviamente, nossos… Também acabamos por utilizar o couro artificial para revestir parte do mobiliário… Sempre que possível, utilizamos os produtos produzidos cá.
“Às vezes, as empresas querem diversificar, vão para áreas que não conhecem e corre mal… Mas também há situações em que corre bem”.
RVJ – Considera que a maioria das pessoas que viu a “Endutex” nascer como uma indústria têxtil conhece hoje o resultado da diversificação das suas áreas de negócio?
AF – Francamente, não sei. A “Endutex” é uma empresa que pertence a um grupo industrial com uma atividade maioritariamente direcionada para a exportação e que trabalha clientes específicos. Além disso, a empresa nunca investiu nessa comunicação para o exterior, porque as vantagens não seriam grandes, ao contrário do que poderiam representar as desvantagens. Agora começam a aparecer notícias e alguma divulgação, porque na hotelaria, o nosso público são já os clientes finais. Daí que acredite que as pessoas comecem a conhecer melhor aquilo que é feito pelo Grupo Endutex. Eu, pelo menos, fico mais atento quando vejo uma notícia da minha região.
RVJ – é importante que as empresas não se centrem apenas numa ideia de negócio e seguirem o exemplo da “Endutex”?
AF – Isso é sempre polémico. Às vezes, as empresas querem diversificar, vão para áreas que não conhecem e corre mal…
Mas também há situações em que corre bem. Isto depende muito da forma como as empresas entram nos novos negócios e da competência que lhes conseguem imputar. Conseguindo isso, acho que é sempre bom diversificar atividades.
RVJ – Até onde quer levar a “Endutex Hotéis”?
AF – Sonhos temos todos e queremos sempre ir o mais longe possível… Mas, para este ano, temos já uma tarefa árdua. Três novos hotéis agora a começar, sendo que estamos ainda a fechar o projeto do District. Temos outros projetos na manga e dois projetos no Brasil, por isso, nesta fase estamos concentrados em executar o que temos. Isto para dizer que se surgirem boas oportunidades, até podemos olhar para elas, mas o foco agora é levar este barco para a frente.
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