Clientes da Abanca lesados em transferências sem autorização
Centenas de milhares de euros terão sido transferidos, sem qualquer autorização, de contas de clientes da Abanca, antigo Eurobic. Um dos casos denunciados é o de Filipe Ferreira, vizelense e proprietário da oficina automóvel Auto Ferreira, que viu sair da sua conta mais de 82 mil euros num curto espaço de tempo.
À Rádio Vizela, a situação é relatada por Cidália Ferreira, irmã do empresário, que explica que tudo aconteceu no contexto da transição do Eurobic para a Abanca. “O meu irmão era cliente do Eurobic, que foi integrado na Abanca. Houve um processo de transição e, a partir do dia 24 de novembro de 2025, o Eurobic deixou de existir, passando tudo a funcionar através da Abanca. Os clientes receberam cartas com instruções sobre o acesso ao homebanking, indicando que deveriam utilizar o número de contribuinte e a senha do antigo Eurobic”, começa por referir.
Segundo Cidália Ferreira, no próprio dia 24 de novembro, Filipe Ferreira não conseguiu aceder à conta. “Esteve o dia todo sem conseguir entrar. No dia seguinte, a 25, deslocou-se ao banco, onde lhe foram atribuídos novos códigos. Já na oficina, conseguiu finalmente aceder à conta e verificar os movimentos, que até então estavam normais”.
No entanto, ainda no dia 25, surgiram algumas mensagens, ‘pop-ups’, durante o acesso à conta. “Começou a aparecer uma série de mensagens pop-up a indicar que o banco estava a testar a comunicação entre o telefone dele e o sistema, alegadamente por causa de uma atualização necessária. Como o meu irmão, nunca tinha utilizado o site da Abanca, achou que fosse normal e seguiu as instruções”, relata.
De acordo com o testemunho, Filipe Ferreira recebeu mensagens a indicar que seriam feitas transferências de teste, supostamente em modo de simulação. “Recebeu um aviso no telefone a dizer que, para testar a comunicação, teria de inserir um código para uma transferência de 22.222,22 euros; e inseriu o código. A partir daí, não conseguiu mexer em mais nada no computador, apenas conseguia colocar os códigos quando lhe eram pedidos”.
Seguiram-se novas operações. “Apareceu outra mensagem para uma transferência de 55.555,55 euros, que acabou por não se concretizar; entrou a débito e depois a crédito. Depois, uma transferência de 50 mil euros foi efetivamente realizada. Mais tarde uns minutos, houve outra tentativa de 10 mil euros que também não se concretizou, mas, de seguida, saiu mais uma transferência de 10 mil euros. No total, saíram da conta 82.222,22 euros”.
Cidália Ferreira sublinha que este não é um caso isolado e que “há vários clientes da Abanca a queixarem-se do mesmo”. “Existe inclusive um grupo de WhatsApp com cerca de 100 pessoas lesadas. Os valores em causa rondam, neste momento, cerca de um milhão de euros. Há situações diferentes: alguns casos ocorreram através do computador, outros por contacto telefónico, mas o problema de fundo é semelhante”.
A principal crítica dos lesados prende-se com a atuação do banco. “O banco ‘lava as mãos’ porque diz que foram introduzidos códigos por SMS, o que é verdade. Mas isso aconteceu num contexto de transição, em que tudo era novo para os clientes. Qualquer pessoa podia cair numa situação destas”, afirma.
Neste caso concreto, Cidália Ferreira questiona os mecanismos de controlo da instituição bancária. “Estamos a falar de uma empresa com um único CAE, de reparação automóvel, que nunca fez este tipo de transferências. De repente, surgem operações de valores estranhos, como 22 mil euros, depois 50 mil euros, para contas particulares noutro banco, e não soa qualquer alerta no sistema? Como é que isto é considerado normal numa empresas que tem um CAE de reparação automóvel e que, de repente, sem nunca ter feito isto, transfere este tipo de valores para contas particulares?”.
“É isto que os clientes se queixam. Não sabemos, e isto terá de ser provado pelo banco, se o computador foi hackeado ou não, provavelmente até poderá ter sido, mas nem que tivesse sido, este tipo de movimentos, o banco não pode permitir fazer. Simplesmente deixaram o dinheiro sair; com estes movimentos estranhos não alertaram o cliente”, referiu.
A irmã de Filipe Ferreira acrescenta ainda que foi um cliente que alertou o banco, quando percebeu a situação. “Quando telefonou para o banco, o dinheiro já tinha saído da Abanca, tinha passado pelo BPI e depois desapareceu. Já não estava em lado nenhum”.
Apesar da dimensão dos prejuízos, nem todos os lesados avançaram com processos judiciais. “Há pessoas que perderam 4 mil ou 5 mil euros e não avançam porque consideram que os custos com advogados e taxas de justiça não compensam. Mas há casos, como o do meu irmão, de 82 mil; 85 mil, 107 mil e 125 mil euros. São muitos casos”.
No caso de Filipe Ferreira, já foi apresentado um processo contra o banco. “É um processo cível e, até hoje, não houve qualquer resposta. Ninguém do banco entrou em contacto, não houve um responsável, um diretor, nada. O dinheiro saiu, o banco lava as mãozinhas e está tudo bem; e o banco continua a funcionar normalmente”. “Não comunicaram nada, nem ao meu irmão, nem a outros clientes”.
Cidália Ferreira acrescenta: “Estamos a falar de uma empresa com 4 funcionários, mais ele, portanto são 5 funcionários. Isto aconteceu numa altura em que havia subsídio de Natal para pagar, segurança social a dobrar… e as pessoas, de repente, estão numa situação que, se tiver de fechar a porta, fecha, e não é o banco que vai apoiar para não fechar. Não fechou a porta, felizmente, e continua a ter trabalho. No entanto, estamos a falar de uma empresa, com 5 funcionários que, de repente, fica sem 82 mil euros na conta; para falir uma empresa não é preciso muito”.
As transferências ocorreram todas no mesmo dia. “Foi tudo no mesmo dia, num espaço de cerca de 20 minutos. Houve uma diferença de 14 minutos em algumas operações e, mesmo assim, não houve qualquer alerta do banco. Em qualquer outra instituição, um movimento destes levantaria suspeitas. Mas para Abanca foi tudo normal, transferir estes valores para contas particulares”, considera.
Apesar do desgaste financeiro, garante que o irmão não vai desistir. “Está a gastar muito dinheiro e vai gastar mais, mas só desiste se um juiz disser que a culpa foi dele, o que eu acredito que dificilmente acontecerá. As advogadas que acompanham o processo consideram que ele tem razão e que poderá recuperar o dinheiro”.
“Não podemos ficar calados. As pessoas têm de saber o que está a acontecer, porque é uma situação muito complicada e pode acontecer a qualquer um”, Cidália Ferreira conclui.
A Rádio Vizela já pediu um esclarecimento ao banco Abanca, mas, até ao momento, sem resposta.







