Um auditório no Cine Parque: um filme de outro mundo ou um logro monumental?

Eugénio Silva

2018-04-19

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Do imenso rol de infraestruturas a criar e imprescindíveis ao desenvolvimento de qualquer concelho e ao bem-estar dos seus munícipes, destacar-se-á, sempre, um Auditório Municipal. Não espanta, assim, que esta gritante lacuna no concelho de Vizela fosse, unanimemente, reconhecida e inscrita nos programas eleitorais por todas as forças político/partidárias que disputaram a presidência do município vizelense nas eleições autárquicas de outubro de 2017.
Sobre esta matéria, recorde-se, o Movimento Vizela Sempre (MVS), um agrupamento formado por dissidentes do Partido Socialista, prometeu aos munícipes, em plenas pré-campanha e campanha eleitorais [vide, por exemplo o debate da Rádio Vizela, em 23-09-2017], a criação de um auditório municipal, a construir de raiz, no espaço das antigas Sedas Vizela, com capacidade para 500 pessoas. Por seu turno, a coligação de direita, Vizela é Para Todos, uma aliança formada pelo PSD e CDS, propôs a sua criação nos espaços desocupados do edifício sede do município de Vizela. Porém, num surpreendente volte-face, o executivo municipal, uma peculiar “geringonça” constituída pelo MVS e pela coligação de direita (esta, neste capítulo, comportando-se como uma espécie de zombie amnésica), oferece-nos uma despudorada alternativa, uma admirável fita digna rival das melhores produzidas por Hollywood: o auditório municipal funcionará no decrépito edifício do Cine Parque.  
Neste filme espetacular, totalmente produzido, realizado e dirigido com superior mestria pelo gabinete presidencial e fabulosa interpretação de alguns artistas indispensáveis ao desenrolar da ação - os atores principais, secundários ou meros figurantes – e que a ele se devotaram, pretende-se fazer vingar junto de um vasto público exigente, os munícipes com capacidade crítica desse falacioso argumento, que Vizela ganhará com esta opção. Num prodigioso exercício de magia, só admissível na sétima arte, estes protagonistas esforçam-se em transformar as perdas em ganhos, tentando ludibriar a impiedosa realidade, ou seja, que o município acabou a ganhar (perdendo) um espaço de 250 metros onde está edificado um mastodonte em ruínas, que há muito tempo cumpriu a sua missão cultural. Acreditam poder, assim, iludir uma muito recente promessa eleitoral. 
Com efeito, será insofismável que o município sairá sempre a perder, pois, de entre os muitos prejuízos, bastará destacar alguns:
- Desperdiça a criação de um moderno e confortável auditório, capaz de propiciar a montagem e a realização de espetáculos de elevada qualidade (há muito afastados de Vizela) - ópera, ballet, teatro, concertos musicais; 
 - Malbarata livrar-se de um caduco e inestético edifício e a criação de uma entrada nobre para o balneário termal pela rua dr. Abílio Torres, ao isentar o Grupo Tesal dessa obrigação contratualizada; 
- Perde a requalificação de todo o espaço ocupado pelo velho Cine Parque, o que se traduziria numa nova e agradável reconfiguração urbana, outrora acerrimamente defendida e desejada pelo atual chefe do município, conforme bem atestava a gigantesca tela que ordenou (na qualidade de vereador socialista) cobrir o frontispício do mastodonte, mascarando-o durante vários anos; 
- Desperdiça a construção de dois novos pisos destinados à administração, ginásios, gabinetes médicos, salas de espera e elevador panorâmico; 
- Desaproveita, também, livrar-se dos monstruosos depósitos que nasceram ao lado da torre das termas, conspurcando, vergonhosamente, a paisagem;
- Esbanja uma excelente oportunidade para denunciar o contrato da exploração das termas pois, como todos bem pressagiam, dificilmente será cumprido.
A opção pelo Cine Parque é, sem sombra de dúvidas, um despudorado exercício político que, por um lado, serve de álibi ao executivo municipal e, por outro, pretexta-lhe dissimular o incumprimento de promessas eleitorais. Contradita, até, muito da filosofia de trabalho propagandeada pelo MVS [vide RV - Jornal, de 2017-09-21, p.22], quando estabelece que “Vizela não tem mais tempo para estar parada no tempo” e que “o limite do sonho não é a falta de dinheiro”. Nestas circunstâncias, é legítimo questionar-lhe: Irá honrar as promessas eleitorais, designadamente a criação da Piscina Natural, na foz da ribeira de Sá e o Centro Empresarial no restaurado Castelo da Ponte, ou irá oferecer-nos mais fitas espetaculares de manipulação de opinião pública?