O Futuro do Associativismo

Jorge Machado

2026-06-11


O associativismo desportivo sempre foi uma das grandes forças silenciosas do país. Nos pavilhões, nos campos de terra batida, nos balneários improvisados, formaram-se gerações inteiras de jovens que encontraram no clube local um espaço de pertença, disciplina e cidadania. Porém, o modelo que durante décadas sustentou esta vitalidade atravessa hoje uma crise silenciosa. O envelhecimento dos dirigentes, a diminuição do voluntariado, a concorrência das tecnologias digitais e uma crescente dificuldade em captar jovens para a vida associativa, são realidades concretas.

Contudo, tal constatação não é exclusiva de Portugal. Em vários países europeus, observa-se o mesmo padrão, no qual os jovens praticam desporto, mas não se envolvem no associativismo. Ou seja, a prática subsiste, mas o espírito comunitário enfraquece. Os clubes funcionam, mas com menos pessoas a “carregá-los aos ombros”. Assim, o associativismo não sobreviverá.

Então por que razão existe afastamento dos jovens? Não temos respostas concretas, mas podemos inferir algumas. Em primeiro lugar, porque o contexto social mudou. As rotinas escolares e familiares tornaram-se mais exigentes, o tempo livre encolheu e a participação prolongada numa instituição não lhes parece tão natural como era para gerações anteriores. Em segundo lugar, porque as plataformas digitais oferecem espaços de socialização imediata, altamente estimulantes e individualizados, competindo diretamente com a ideia de compromisso coletivo. Por fim, porque muitos clubes ainda funcionam segundo modelos organizativos do século XX, pouco atrativos para jovens que valorizam autonomia, criatividade e impacto real.

Mas o problema não é apenas sociológico, é também político. O país continua a subestimar o papel transformador das associações. Elas são, de longe, o maior movimento cívico nacional, muito mais vasto do que partidos, sindicatos ou juventudes partidárias. São escolas de liderança, responsabilidade e democracia de proximidade. Ignorar o declínio associativo é desinvestir no próprio capital social do país.

O futuro do associativismo juvenil exige, por isso, uma mudança deliberada de estratégia. Em primeiro lugar, é necessário reformular a oferta de participação, diversificando papéis e funções. Os jovens não querem apenas “ajudar”, querem pertencer, influenciar e decidir. Neste sentido, as direções dos clubes devem abrir espaço para equipas jovens de comunicação, projetos de inovação, voluntariado estruturado e competências digitais, apenas para dar alguns exemplos.

Em segundo lugar, é fundamental modernizar a governação associativa. Ferramentas de gestão, transparência financeira, comunicação profissionalizada e cultura de prestação de contas não são luxos, são requisitos mínimos para que os clubes se tornem credíveis e atrativos aos olhos das novas gerações. Assim como a necessidade de rever o estatuto do dirigente voluntário, robustecendo a sua atuação e dando-lhe a merecida dignidade.

Em terceiro lugar, é urgente articular escolas, municípios e clubes. O desporto escolar, tantas vezes isolado, deve ser uma ponte para o associativismo, e não um mundo paralelo. Também aqui as autarquias podem desempenhar um papel decisivo, com programas municipais de voluntariado jovem, formação em liderança, bolsas de dinamização associativa e apoio técnico aos clubes.

Por fim, urge reconstruir o discurso público sobre o associativismo. Não basta pedir que os jovens participem, sendo necessário explicar-lhe o motivo pelo qual isso é relevante. O associativismo juvenil não serve apenas para formar atletas, serve para formar cidadãos. É um laboratório de democracia, uma escola de valores, um lugar de encontro num tempo marcado pela solidão digital. Por isso, o futuro do associativismo desportivo não depende apenas dos clubes. Depende do país que queremos ser.