
O Corpo como Sujeito no Desporto
Jorge Machado
2026-07-23Merleau-Ponty, um dos grandes nomes da fenomenologia do século XX, rompeu com a velha ideia de que o corpo é apenas um instrumento ao serviço da mente. Para ele, o corpo não é um objeto, nem uma máquina que executa ordens. O corpo é sujeito. É através dele que percebemos, agimos, comunicamos e habitamos o mundo. Não somos uma consciência que tem um corpo; somos corpo vivido.
Esta ideia tem profundas consequências na forma como olhamos para o desporto. O gesto desportivo não é um simples movimento mecânico. Um passe, uma corrida, um salto ou um remate são atos carregados de intenção, perceção, criatividade e sentido. O atleta não se limita a executar, interpreta, improvisa, decide e responde. Há, por isso, no movimento, uma inteligência própria do corpo, um saber incorporado que não se reduz a cálculo racional.
Quem já viu uma grande jogada coletiva, um gesto técnico inesperado ou a harmonia de uma equipa em campo percebe isso intuitivamente. Há ali mais do que treino e repetição. Há sensibilidade, leitura do momento, adaptação ao outro e ao espaço. O corpo pensa em movimento. O desporto é, neste sentido, uma forma de conhecimento prático e vivido.
Mas esta leitura também tem relevância ética. Se o corpo é sujeito, então o outro também o é. O adversário não é um obstáculo inerte; é alguém que partilha connosco o mesmo espaço de ação, vulnerabilidade e significado. É por isso que valores como o respeito, o fair play e a solidariedade não nascem apenas de regras impostas de fora. Nascem, antes, de uma compreensão encarnada da presença do outro.
Quando um atleta ajuda um adversário caído, quando reconhece uma falta que o árbitro não viu, ou quando contém a agressividade em nome da dignidade do jogo, há aí uma ética do corpo. Uma ética feita de atenção, sensibilidade e reconhecimento mútuo. O desporto mostra-nos, assim, que a moralidade não vive apenas nos códigos e regulamentos. como também se manifesta nos gestos.
Merleau-Ponty ajuda-nos ainda a recuperar a dimensão estética e lúdica do desporto. A beleza de um movimento bem executado, a elegância de uma jogada, a emoção de uma competição equilibrada ou a plasticidade de um corpo em ação fazem parte da verdade do fenómeno desportivo. O desporto não é apenas rendimento; é também expressão, criação e presença.
Num tempo em que o desporto corre o risco de ser reduzido a números, estatísticas e mercado, esta perspetiva é particularmente importante. Recorda-nos que o corpo não pode ser tratado como mera ferramenta de produção de resultados. O desporto só realiza plenamente a sua dignidade quando respeita o corpo como sujeito, isto é, como lugar de liberdade, relação e sentido.
No fundo, reconhecer o corpo como sujeito é devolver ao desporto a sua dimensão mais humana.





