Não vivi Abril, mas sei o que ele vale
Francisca Silva
2026-04-29Nasci depois da Revolução dos Cravos. E, por vezes, é difícil falar deste dia. Difícil porque não o vi, porque não senti na pele o peso do que veio antes, nem o alívio coletivo que tomou conta das ruas naquela madrugada de abril. Falo de um tempo que conheço pelos livros, pelos relatos e até pelas canções e, ainda assim, sei que há uma distância impossível de encurtar.
Mas há também uma certeza que não me abandona: não quero voltar atrás. Mesmo sem ter vivido a ausência de liberdade, reconheço-a nas entrelinhas da história, nas vozes que durante anos não puderam ser ouvidas, nas escolhas que simplesmente não existiam. Talvez seja isso que torna esta data tão exigente para quem nasceu depois: obriga-nos a imaginar aquilo que nunca ex perimentámos, para melhor valorizar o que hoje tomamos por garantido.
Em Vizela, o passado fim de semana foi mais uma prova de que essa memória continua presente. As celebrações do 25 de Abril trouxeram à cidade momentos de encontro e também de refl exão, com destaque para o concerto de Ana Bacalhau, ao lado da Banda de Música da Sociedade Filarmónica Vizelense, e para a sessão solene que evocou os valores de Abril junto da população. E, curiosamente, foi também no presente que essa memória ganhou forma. A inauguração da nova via de acesso e da rotunda junto ao Estádio do Futebol Clube de Vizela trouxe consigo mais do que uma melhoria urbana.
Talvez nunca consiga falar de Abril com a emoção de quem o viveu. Mas posso, pelo menos, falar com a consciência de quem sabe o que está em causa. E isso é, no fundo, também uma forma de responsabilidade. Porque há conquistas que, não sendo nossas desde o início, são agora nossas para garantir que continuam vivas.
Celebrar Abril é, por isso, mais do que recor dar: é garantir que aquilo que se conquistou em 1974 continua a fazer sentido hoje





