Memória, Consciência e Futuro
Francisca Silva
2026-03-0505 de março de 2026. Passaram seis anos desde que, a 02 de março de 2020, foram confirmados em Portugal os primeiros casos de COVID-19. A 16 de março, morria o primeiro português infetado. Dois dias depois, o então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, decretava o Estado de Emergência em todo o território nacional, algo que não acontecia desde a Revolução dos Cravos. De repente, a História deixava de ser matéria dos livros para passar a ser vivida, em tempo real, por todos nós.
“Vai ficar tudo bem” tornou-se a frase-símbolo de uma época marcada pelo medo e pela incerteza. Repetíamo-la quase como um ato de fé, enquanto as cidades se esvaziaram, o silêncio ocupava as ruas e o confinamento se tornava obrigatório. Teletrabalho sempre que possível, restaurantes e bares de portas fechadas, comércio encerrado, ajuntamentos proibidos, circulação limitada entre concelhos… A rotina transformou-se radicalmente e, com ela, a nossa forma de viver.
O fim da pandemia foi declarado pela Organização Mundial da Saúde em maio de 2023. Mas o “fim” foi sobretudo administrativo. Muito mudou e nem tudo regressou ao ponto de partida. A pandemia redefiniu hábitos, acelerou a digitalização, abalou a economia e deixou marcas na saúde mental. Houve perdas irreparáveis, mas também lições silenciosas.
Aprendemos alguma coisa? Quero acreditar que sim. Que nos tornamos mais conscientes da fragilidade da vida. Que passamos a valorizar o tempo, os afetos, a proximidade. Que percebemos que a ciência importa, que o serviço público é essencial e que a empatia não é um luxo… é uma necessidade. A memória não deve prender-nos ao medo, mas responsabilizar-nos pelo futuro.
E é com essa consciência que entramos em março, mês em que se assinala, este domingo, o Dia Internacional da Mulher, instituído pela Organização das Nações Unidas. Faz sentido celebrá-lo? Sim. Mil vezes, sim.
Multiplicam-se campanhas, flores e promoções. É irreal esperar que as marcas ignorem a data. O essencial é que não se desvirtue o seu significado. Que não se reduza a um apelo ao consumo aquilo que é, antes de tudo, uma evocação de luta e de conquistas.
Atrevo-me a dizer que ser mulher nunca foi fácil. Mudaram os contextos, as reivindicações e as oportunidades, e felizmente evoluímos. Mas ainda há um caminho exigente a percorrer: igualdade salarial, representação em cargos de decisão, conciliação entre vida profissional e familiar, combate à violência.
Tal como na pandemia, também aqui a pergunta se impõe: aprendemos com o passado? Espero que sim. Que tenhamos aprendido a não dar direitos como garantidos. Que saibamos reconhecer avanços, mas também identificar retrocessos. Que celebremos com consciência, orgulho e determinação.
Viva as mulheres!





