Manuel João Freitas Ribeiro de Faria – Parte 1

Júlio César Ferreira

2020-07-30

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Não é fácil falar de gigantes. Não é fácil falar de quem tanto e tanto fez pela sua terra. E falar de Manuel João Freitas Ribeiro de Faria, não é tarefa fácil, pelo menos para mim que me sinto pequenino, demasiado pequenino, perante o legado desta grande figura de Vizela. Afinal, quem foi Manuel João Freitas Ribeiro de Faria, ou mais simplesmente Manuel Faria? Para os homens de hoje, para aqueles que num corre-corre, no seu dia a dia, nem têm tempo para pensar, é fácil aliar o nome de Manuel Faria, ao nosso jardim e, se calhar, também lhes é fácil perceber que Manuel Faria foi o principal obreiro desta autêntica “sala de visitas” de Vizela, mesmo na linha divisória das duas freguesias que formam a cidade, já que o mesmo ostenta o seu nome. Nesta “sala de visitas” podemos encontrar um coreto com painéis de azulejos representando as Igrejas das paróquias que compõem o nosso concelho, painel construído em 2006, e onde, para além de um monumento à confraria do Pão de Ló, homenageando o saboroso doce ex-libris de Vizela, podemos ver também um monumento de homenagem aos valentes vizelenses que defenderam as cores da nossa pátria, lá nos confins do mundo, na França, Índia e África, com a descrição daqueles que deram o seu sangue por esta pátria amada. Neste mesmo jardim podemos ver uma lápide com memórias de Camilo Castelo Branco quando este em Junho de 1851 visitava as nossas termas procurando lenitivo para as suas maleitas. Mais ao fundo, uma alegoria às origens romanas de Vizela, com uma estátua simbolizando a Vizela Romana, da qual foi autor o pintor Vizelense José Pereira da Costa e reproduzida pelo escultor João Barata Feyo. Seria fácil, para mim, terminar por aqui. Não ficaria, porém, em paz com a minha consciência, porque Manuel Faria foi mais que isto. Muito mais. Manuel Faria esteve sempre ligado à luta emancipalista de Vizela e por isso, enquanto vereador municipal, sofreu alguns desaforos, como nos conta o ilustre advogado Augusto Leite de Faria, no seu pequeno opúsculo “Um Pelouro e um Pelourinho”. As primeiras notícias que nos chegam de Manuel Faria é de ter sido proprietário, juntamente com outros familiares, do Centro Comercial de Vizela, quase em frente ao Casino Peninsular e onde hoje se encontra uma loja de venda de artigos por cidadãos oriundos da China. Foi sócio gerente da Firma Fábrica de Tecidos da Lameira, Lda., mais conhecida por Brito e Gomes, nome do primeiro proprietário que veio da Fábrica da Ferro, de Fafe. Foi durante a sua gerência que a empresa se engrandeceu, quando em 1939 adquiriu 50 novos e modernos teares. Para a história fica também a cedência da parte dos escritórios da Brito e Gomes, (onde nos princípios do século passado tinham funcionado os Banhos e o Hotel do Paulino e que nos anos 20, segundo algumas crónicas sofreram um pavoroso incêndio…) para ali funcionar o primeiro posto clínico de Vizela, criada que foi em Portugal, a Previdência Social. Manuel Faria foi ilustre Vereador Municipal na Câmara Municipal de Guimarães e nessa qualidade, tudo fez para dotar Vizela dos melhores equipamentos. Vimos já, que a ele se deve a construção do Jardim que, presentemente tem o seu nome, mas que se chamou já D. Maria do Resgate Salazar, mãe de António Oliveira Salazar e mais tarde, após o 25 de Abril, o do general sem medo, Humberto Delgado. Como curiosidade, refira-se que o Jardim, não foi concluído de acordo com o seu primitivo desenho, uma vez que era para ser todo murado, a exemplo do que vemos na Rua Alfredo Pinto e Rua Dr. Abílio Torres. Parece que não havia dinheiro para os muros em pedra para a sua conclusão e ficou assim, em uma sebe vegetal, quer na atual Rua Manuel Faria, quer na Rua em frente à Praça da República. Conta-se ainda que Manuel Faria, desagradado com o desleixo da Camara de Guimarães para com o “seu” Jardim, escreveu a Salazar uma carta, com um foto, dizendo: “Veja V. Exa. como se encontra o Jardim que ostenta o nome da sua mãezinha”. Parece que daí em diante, dois zelosos funcionários da Camara passaram a estar ali permanentemente… Permito-me fazer aqui um aparte, agora que se fala na reconversão e requalificação do Jardim Manuel Faria e Praça da República, para o seguinte. Aquando da construção do Jardim, no local onde existia o campo do Jerufino (que desconheço origens) e cujo terreno, ou pelo menos uma boa parte dele, foi oferecido pelo próprio Manuel Faria, foi apresentado pelo próprio em sede da Câmara de Guimarães, um projecto em que previa a união dos dois jardins, tendo no lado norte a construção de um grande edifício que serviria para Paços do Concelho. É evidente que um grande atrevimento destes tinha de ser rejeitado… Foi ainda durante o tempo que foi vereador Municipal que se inaugurou a Avenida dos Bombeiros Voluntários. Durante a segunda guerra mundial e perante a onda de miséria e fome que assolou toda a Europa e mesmo não entrando diretamente na guerra, Portugal sofreu todas as agruras da mesma e foram criadas as famosas senhas para comida e criadas as Sopas dos Pobres. Guimarães, entidade responsável teve de criar uma Sopa dos Pobres que, em Vizela, funcionou no atual edifício da Fundação Jorge Antunes. Também aqui, Manuel Faria, acompanhado da sua ilustre progenitora, teve um papel altruísta, dando de comer a centenas de pessoas “com almoço para o meio e ainda levavam para jantar à noite. Já vimos que Manuel Faria foi um grande vizelense, empolgado na sua defesa e na defesa de muitas das suas valências, tendo sido provedor do Hospital de Vizela e Presidente da Direcção da Casa do Povo de Vizela, desde a sua fundação em 1944 até 1954. (continua)