Entre a voz e liberdade
Francisca Silva
2026-04-16Na rádio, há algo que nos acompanha todos os dias: a voz.
Neste Dia Mundial da Voz, assinalado a 16 de abril, olhamos para ela não apenas como um instrumento, mas como uma ponte. É através da voz que chegamos a quem está do outro lado. Que informamos, que acompanhamos, que, muitas vezes, fazemos companhia.
Quem trabalha em rádio sabe bem isto (e o que vou dizer a seguir até pode soar cliché): há dias em que uma voz vale mais do que qualquer imagem. Cria-se proximidade, confiança e uma relação bonita. E há ouvintes que nos conhecem sem nunca nos terem visto, mas reconhecem-nos como se fizéssemos parte do seu quotidiano.
Mas falar de voz, nesta altura, é também falar de liberdade.
A poucos dias de celebrarmos o 25 de abril, recordamos que nem sempre foi possível falar livremente. Houve um tempo em que as palavras eram controladas, medidas, condicionadas. Um tempo em que a voz não chegava inteira a quem a queria ouvir.
A rádio teve um papel fundamental nesse momento da história. Foi através dela que o país acompanhou, quase em tempo real, os acontecimentos da madrugada de 25 de abril de 1974. E foi também na rádio que muitos portugueses ouviram, pela primeira vez, as vozes da liberdade.
Foi na rádio que a liberdade começou por se ouvir. Ainda na noite de 24 de abril, João Paulo Dinis colocou no ar a canção ‘E Depois do Adeus’, interpretada por Paulo de Carvalho. Já na madrugada de dia 25, a Rádio Renascença transmitia ‘Grândola, Vila Morena’, de Zeca Afonso. Eram as senhas que confirmavam o avanço das tropas e o início da revolução.
Horas depois, seria também pela rádio que chegariam as primeiras notícias, os relatos e as emoções de quem vivia nas ruas um momento único. Vozes anónimas, mas carregadas de história, como a de quem ofereceu cravos aos soldados, sem imaginar que esse gesto se tornaria símbolo de liberdade. E é nesse mesmo sentido que a voz volta a estar no centro das celebrações do 25 de abril em Vizela, através da transmissão em direto das cerimónias na Rádio Vizela.
Hoje, quando ligamos o microfone, essa liberdade sente-se de forma quase natural. Mas não deixa de ser um privilégio que merece cuidado. Na rádio, cada palavra conta.
Ter voz é ter liberdade; e saber usá-la é uma responsabilidade. Porque aquilo que dizemos tem impacto. E aquilo que escolhemos não dizer também.
E talvez seja isso que nos prende a este trabalho: saber que, todos os dias, do outro lado do microfone, há alguém a ouvir. E que a voz, afinal, nunca é só som.
Na rádio, todos os dias, damos voz ao que importa.





