Desporto e Sustentabilidade Ambiental

Jorge Machado

2026-03-05


Vivemos numa época em que o desporto é cada vez mais um fenómeno global, capaz de mobilizar multidões e gerar impacto económico, cultural e social. Contudo, há uma dimensão que tem ganho visibilidade crescente e que não pode continuar a ser ignorada: a relação entre desporto e sustentabilidade ambiental.

Grandes eventos desportivos, como Jogos Olímpicos ou Campeonatos Mundiais, movimentam milhões de pessoas, toneladas de equipamentos e infraestruturas gigantescas. A pegada ecológica é enorme, desde viagens aéreas, consumo de energia, produção de resíduos, poluição sonora e visual. É legítimo, por esse motivo, questionar se faz sentido celebrar o corpo humano e a superação atlética à custa do esgotamento dos recursos naturais e da degradação ambiental.

A boa notícia é que o desporto, precisamente pela sua capacidade de mobilização, pode transformar-se num aliado poderoso da sustentabilidade. Já existem exemplos claros disso mesmo. Vejam-se os estádios construídos com materiais reciclados, programas de compensação de emissões de carbono, instalações desportivas totalmente carbon zero, entre outras. Mas estes casos ainda são exceção, quando deviam ser a regra.

O desporto local, mais próximo das comunidades, também tem aqui um papel fundamental. Autarquias e clubes podem liderar pelo exemplo, promovendo a eficiência energética nos pavilhões, reduzindo o uso de plásticos descartáveis em torneios, criando circuitos de mobilidade suave para o acesso às instalações. A sustentabilidade não precisa de ser um luxo reservado a megaeventos, pode e deve começar na escola, no clube de bairro, na corrida de domingo no parque.

Contudo, para que esta transformação aconteça, são necessárias políticas públicas firmes. O Estado, as federações e as autarquias devem adotar critérios de sustentabilidade na organização e no financiamento do desporto. Não basta proclamar compromissos verdes, é preciso exigir relatórios de impacto ambiental, implementar auditorias energéticas nas infraestruturas e condicionar apoios públicos ao cumprimento de metas ambientais.

A responsabilidade é igualmente dos cidadãos. Enquanto adeptos e praticantes, podemos exigir competições mais sustentáveis, escolher produtos desportivos menos poluentes, apoiar clubes que investem na eficiência energética ou que promovem práticas responsáveis. Tal como não aceitamos doping no desporto, também não podemos aceitar a indiferença ecológica como norma.

O desporto é, por natureza, uma celebração da vida, da vitalidade e da superação. Mas essa celebração só faz sentido se for compatível com a defesa da própria casa comum: o planeta. Continuar a organizar eventos desportivos à custa da destruição ambiental é uma contradição insanável.

A pergunta que se coloca é simples: queremos que o desporto seja parte do problema ou parte da solução? A resposta exige coragem política, inovação tecnológica e, sobretudo, mudança cultural.

O futuro do desporto depende da sustentabilidade. Jogar pelo ambiente é, afinal, jogar pelo futuro.