CONFRARIA SS. SACRAMENTO DE S. MIGUEL VIZELA (I)

Pedro Marques

2025-07-10


É para nós muito gratificante sermos curioso e gostar de pesquisar. E tanto quanto possível, sabermos o porque das coisas e não nos conformarmos com a afirmação comodista das perguntas à resposta “porque sim”.
Desta vez, o assunto que nos traz até do prezado leitor é sobre as confrarias de 
âmbito religioso. Que até nasceram depois de outras de âmbito laico. Isto na Idade Média já. Confrarias ou irmandades são sinónimos. Confraria deriva de duas palavras latinas “cum” e “fratres” – “fratem” no acusativo. “Cum” significa “com”; e “fratrem” abrandou para “fradem” e queda do “m”. Isto segundo fenómeno de evolução do Português derivado do latim do tempo da fundação da nacionalidade já. E temos a palavra “confrade” - irmão com – e cujo significado vai de “colega”, “camarada” a outros de âmbito mais alargado.
Confraria é, portanto, uma associação de “irmãos em sintonia com os mesmos objetivos. E em sintonia, temos também o vocábulo de “irmandade”. Ou seja, comunidade de “irmãos”. Ou se quisermos no âmbito da militância política, os “partidos”.
Como, porém, o nosso objetivo não é dar “aula” de Português mas sim nos debruçarmos sobre o que são as “confrarias” ou “irmandades” e tendo como objetivo nos debruçarmos – neste nosso caso a iniciar a partir de agora – sobre o que foi e como foi e ou que restará, hoje, da Confraria do SS. Sacramento da paróquia de S. Miguel.
Temos um projeto de livro/monografia, acabado em Agosto de 1987, mas que permaneceu “na gaveta” e nela continuará enquanto projeto de livro. Este projeto consta de sessenta e quatro páginas. E começa assim:
“UM TRABALHO EM SUSPENSO DESDE 1987".
A Confraria do SS. Sacramento de S. Miguel das Caldas foi, pelo que escrito já ficou, uma das mais dinâmicas e ricas das redondezas. O seu património físico e financeiro chegou a ser invejável dos séculos XIII ao XIX, tendo vindo, posteriormente, a decair de forma contínua e acelerada até à sua delapidação patrimonial total.
Causas? Possivelmente a desorientação que se viveu nos tempos agonizantes da Monarquia e instauração da República e indefinições subsequentes.  E depois da revolução de 28 de Maio, outros fatores vieram dar a sua “ajuda”.
Segundo testemunhos, de que recolhemos apontamentos, por exemplo no tempo do abade Bento Lopes Carvalho, pároco de S. Miguel das Caldas, provavelmente como testemunho da temperatura política que noutras localidades também se vivia, o povo estava dividido: uns apoiavam os chamados jacobinos (adeptos da República); outros, a Monarquia (os monárquicos).
E por isso ele próprio se envolveu ao ponto de verberar publicamente nas homilias os apoiantes das novas ideias. O que lhe valeu o “degredo” por sentença judicial, que ele “registou” na margem de um dos assentos paroquiais.
Na verdade, ele teve de sair, coercivamente, da paróquia de S. Miguel, por durante uns tempos. Este episódio já foi tratado por nós num dos trabalhos feitos sobre os abades de S. Miguel, publicados na extinta revista “Alerta S. Miguel". Se a hipótese referida tem consistência, outros fatores haverão também contribuído para o declínio não só desta como de outras confrarias. E de arrasto, não só da SS. Sacramento como das outras. Como iremos ver também.
Entenda-se, entretanto, que a nossa invocação para a presente monografia nada tem a ver com a polémica, ao tempo gerada e alimentada a propósito da projetada criação da “Irmandade de S. Bento”, que hoje já é um facto, embora ainda sem órgãos sociais eleitos diretamente pelo voto dos “irmãos”. Digamos que o sistema governativo da mesma se mantém “oligárquico”. Estávamos, então, em 1987. Hoje estamos em 2025.
E temos de abrir aqui um parêntesis e afirmar que, hoje, e desde há anos, a Confraria ou Irmandade de S. Bento é uma associação no pleno exercício e cumprimento dos seus estatutos, com órgãos eleitos colegialmente e exercício dos respetivos mandatos. E obra feita no âmbito religioso e social e até de projeção de Vizela no panorama do turismo. Religioso ou não. Com os nossos parabéns, portanto. Mas que os resultados, aliás bem positivos, depois de criada a Irmandade de S. Bento estão à vista, lá isso estão!
Infelizmente, por causa desta Irmandade, fomos nós objeto de injustiça por injustificável acusação de termos sido o “pai”, o “cérebro” da ideia. O que nos trouxe bastantes amargos de boca e de alma e nos fizeram alvo da ira de algumas pessoas, ledas a condenar, mas lentas senão mesmo incapazes de reconhecerem a injustiça cometida contra nós e muito menos de conversar e dialogar”.

Com o abraço amigo de sempre.