Têxtil: "Daqui a 5 anos como estaremos em relação a hoje?"
“Daqui a cinco anos, quando comprar uma peça de roupa, ela tem um bilhete de identidade”. é a opinião de Noel Ferreira, administrador da A. Ferreira & Filhos, que, juntamente com a engenheira Cátia Relvas, receberam a Rádio Vizela, depois do Open Day do projeto ARCHKNIT e das participações nas feiras Pitti Bimbo e Pitti Imagine Filati, em Florença.
A aplicação do têxtil na arquitetura foi apenas o início de uma conversa, que logo depois se focou no tema que já é central em vários domínios: a sustentabilidade. “Já não é moda, veio para ficar, é estrutural”. “A questão é: daqui a cinco anos como estaremos em relação a hoje?” assinala Noel Ferreira. E como vamos estar, questionámos o empresário. “A tendência é que daqui a cinco anos, quando comprar uma peça de roupa, ela tem um bilhete de identidade, assim uma espécie de passaporte digital; vai saber em concreto sobre a peça que tem vestido, qual a cor, quanto se gastou de água e de energia, por exemplo, [se a peça for de algodão] de onde veio o algodão, porque o algodão não pode vir das zonas proibidas”, responde Noel Ferreira. O administrador exemplifica com o algodão produzido em Xinjiang, na China, onde, segundo a Organização das Nações Unidas, mais de um milhão de uigures, de etnia muçulmana, são escravizados. “é proibido comprar fio de lá”, prossegue Noel Ferreira: “Há testes que se fazem, genéticos, que determinam a origem do fio. é incrível, não é?! Consegue-se saber de que zona do globo é”.
Uma das feiras em que participou em Florença, serviu para acompanhar as tendências dos fios. “Vi uma coleção de lã que tem pouquíssimas cores, e nenhuma delas é tingida, é tudo por seleção do pelo do animal, há uma lã mais clarinha, outra sobre o bege e outra sobre o cinzento”. São estes cruzamentos genéticos, feitos com o pelo de animais, ou com as plantas, que dão origem a novos fios. “Na Austrália, por exemplo, que é o maior produtor do mundo, as ovelhas são todas branquinhas, cruzam uma mais branquinha com outra clarinha e a lã vai ser ainda mais branquinha. Com o algodão a mesma coisa, o algodão de há 100 anos não é como o de hoje, foram cruzando geneticamente”, aponta.
O administrador da A. Ferreira & Filhos acredita que o setor será mais “transparente”. “Quando compramos uma peça, o comprador obviamente olha o preço, mas se o preço não for problema, ou se o preço for igual [ao que existia, a sustentabilidade] vai ser mais um critério de escolha”. E neste campo, na opinião de Noel Ferreira, a “França é o país que é mais extremista nesse aspeto da sustentabilidade, para eles é quase decisivo”.
E sendo a Europa o principal mercado da A. Ferreira & Filhos, a questão da sustentabilidade está presente no dia a dia da empresa. Recentemente conseguiram o certificado ISO 142001 e o administrador argumenta que a preocupação com o que é sustentável não se baseia apenas nas diretrizes nacionais e internacionais: “Ninguém nos impôs que temos de gastar x litros de água, no entanto o nosso caminho é poupar a água e a nossa água não é paga (é do poço). Aliás, quando comprámos as nossas máquinas de lavar, quem nos vendeu perguntou porque íamos comprar máquinas para poupar água?!
O foco está também apontado à reciclagem. “Agora temos a preocupação de pôr uma composição que seja 100%, porque se for 100% dá para reciclar, enquanto uma mistura, dou o exemplo de uma mistura clássica que é lã, com viscose, poliamida e caxemira, são quatro componentes, que fazem um fio fantástico, só que para reciclar é mau, porque não é uma coisa nem é outra, por isso agora vamos “fugir” para o 100%.
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