"Menina da Aldeia", palavras que nascem da terra e emoções

Natural de S. Torcato, vila do concelho de Guimarães, Diana Araújo cresceu entre livros, música e conversas à mesa que alimentaram, desde cedo, uma relação profunda com a leitura, a escrita e a cultura. Essa ligação deu origem a Sentimentos, a sua primeira obra publicada, e mais recentemente ao projeto desenvolvido nas redes sociais a que chamou “A Menina da Aldeia”.

“A Diana Araújo é efetivamente isso, é a menina da aldeia, que ainda vive nos sonhos de um mundo cor-de-rosa, apesar de saber que ele não é assim”, começa por explicar Diana Araújo, escritora. “Sou uma pessoa que valoriza muito as coisas da minha terra, da minha gente, e dou valor em especial a certos pormenores do dia a dia, o bom dia, o olá, o abraço… coisas que hoje vamos perdendo, mas que acredito que ainda podem mudar.”

O gosto pela leitura e pela escrita nasceu cedo, muito por influência familiar. Criada pelos avós até aos sete anos, Diana recorda as noites passadas em família como momentos determinantes. “Começávamos sempre por ver o telejornal, era sagrado. Depois debatíamos os assuntos do dia, falávamos da escola, da vida. No fim, o meu pai cantava, tocava viola e lia aquilo que escrevia. Eu ficava completamente deslumbrada”, recorda.

O pai acabou por ser a grande referência no seu percurso literário. “Foi o ponto-chave para eu me lançar a escrever”, afirma. “Ele escrevia poesia, fazia sátiras do quotidiano, lia-nos à mesa e aquilo eram gargalhadas...Acho que quis ser como ele, porque o admirava profundamente.” Também a mãe surge como uma influência marcante. “Nunca escreveu, mas é uma pessoa extraordinária, alegre, bondosa. Encontraram um equilíbrio perfeito e isso marcou-me muito.”

Foi aos 12 anos que Diana Araújo começou a escrever os primeiros textos, sempre com o incentivo do pai. “Eu lia-lhe aquilo que escrevia e ele dizia-me para continuar. E eu continuei… e nunca mais consegui parar.” Com o tempo, a escrita tornou-se também uma forma de gerir emoções. “Tenho dificuldade em dizer às pessoas quando não estou bem. Acabo por acumular e depois escrevo. No papel consigo dizer aquilo que não consigo dizer em voz alta.”

Apesar de escrever sobre si, Diana Araújo garante que a autora não é exatamente igual à mulher do dia a dia. “A Diana do dia a dia não passa cá para fora tudo aquilo que vai na alma. Há coisas que ficam guardadas, porque temos medo do julgamento, medo da reação do outro. Na escrita, consigo ser mais verdadeira.”

O processo criativo surge tanto por impulso como por necessidade. “Escrevo sempre nos extremos, ou muito bem ou muito mal. Nunca no meio termo”, confessa, entre risos. “Mas a escrita ajuda-me a organizar emoções, a refletir, a desenvolver empatia. Ajuda-me a crescer.”

Quanto aos temas, são sempre pessoais. “Não consigo escrever sobre aquilo que não vivi ou não senti. Têm de ser coisas que estejam ligadas às minhas vivências. Temas impostos não funcionam comigo.”

Sobre a poesia, defende que deve ser sentida, mas também entendida. “Hoje a minha linguagem é muito mais simples. Quero que as pessoas se revejam nos textos, que sintam que estou a falar delas. O maior prémio para um escritor é chegar ao coração das pessoas”, sublinha.

O projeto “A Menina da Aldeia” nasceu oficialmente a 2 de outubro de 2025 e surge também como uma alternativa à venda direta de livros. “Custava-me muito cobrar às pessoas. Então pensei numa forma de continuar a partilhar aquilo que escrevo, mas sem cobrar nada. O nome vem de um poema do livro Sentimentos e retrata aquilo que sou e aquilo que sinto pela minha aldeia.”

Publicado há cerca de dois anos, Sentimentos marcou um momento especial na vida da autora, com sessões de autógrafos e uma receção calorosa do público. Ainda assim, a exposição continua a ser um desafio. “Sou muito nervosa com eventos e apresentações. No meu meio sinto-me confortável, mas fora dele fico muito insegura. Mesmo assim, o lançamento do livro foi um dos momentos mais bonitos da minha vida.”

No livro, garante, os leitores vão encontrar emoções universais. “Vão encontrar tudo aquilo que todos nós vivemos e muitas vezes não temos coragem de expressar. Vão encontrar-me a mim, mas também a eles próprios.”

Àqueles que escrevem, mas ainda não tiveram coragem de publicar, deixa um apelo simples e direto: “Tirem os textos das gavetas, dos telemóveis, do computador. Criem uma página, publiquem. Precisamos de cultura. Escrevam. Publiquem.”

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