João Almeida, o jovem empresário que não esquece as raízes

João Almeida, jovem vizelense, um dos administradores da empresa familiar JF Almeida, esteve no Corta e Prega da Rádio Vizela, onde falou do seu percurso de vida, que inclui apostas, erros e arrependimentos, mas nunca desistência. é um empreendedor que não teme o risco, um jovem agarrado às raízes, deixando a promessa de tudo fazer para ajudar a reativar, um dia, o Callidas Club. 

Como é um dia na vida do João Almeida?
Acordo bastante cedo, às vezes às 06h30 para o exercício físico. Há algo que eu não dispenso fazer diariamente que é levar a minha filha à escola, é religioso, não abdico disso. Eu quero que ela se recorde desses momentos, sabendo que trabalho na maior parte do meu dia, tempo que não lhe posso dedicar. Deixo-a no colégio, em Guimarães, e entro a trabalhar 12 horas por dia na empresa. Agora tenho outra, não é familiar, é uma sociedade com o meu amigo Vítor, ao fim do dia ainda vou trabalhar para essa. é sempre a somar. Com o trabalho aliado à responsabilidade que tenho, é difícil arranjar aquele espacinho à noite para estar com a Carolina, com a família, tento conseguir meia hora entre o jantar e o deitar.

Há quem pense que um cargo de administração facilita a gestão dos tempos livres, o que nem sempre acontece…
Somos quatro irmãos administradores e muito presentes, somos administradores de uma grande empresa, mas também somos trabalhadores, colegas de trabalho não há cá hierarquias porque trabalhamos muito e com gosto, de acordo com o que o meu pai nos transmitiu. Ele sempre foi uma pessoa de trabalho e sempre tivemos a responsabilidade de trabalho incutida e é isso que passamos aos nossos colegas de trabalho. 

Algum dia pensaste ocupar este lugar aos 34 anos?
Eu sempre gostei de números, estudei economia e o meu pai já tem a empresa desde antes de eu nascer. O bichinho do mundo empresarial sempre existiu em mim, apesar de nunca ter pensado em entrar de imediato. Numa fase inicial, gostaria de ter passado pela banca, mas tive sempre a vontade de trabalhar com números. Não devia ter ingressado logo na empresa, mas devido à minha imaturidade na altura, disse ao meu pai que queria entrar ali de imediato, logo a seguir aos estudos, tinha 21 anos apenas. Terminei a minha licenciatura em 10 de junho de 2010 e nesse dia à tarde liguei ao meu pai. No dia seguinte, estava na empresa. 

Porque dizes que devias ter passado antes por outro emprego?
Por causa da imaturidade na altura, passei pela fase de acabar a faculdade e quis ter logo a responsabilidade, para as pessoas olharem para mim já como administrador, enfim, cenas da idade. E hoje arrependo-me. 

O teu pai avisou-te?
Claro, ele percebeu o que ia acontecer e disse-me logo que me iria arrepender. Se antes tivesse passado pela banca, traria outra bagagem, faz em junho 14 anos que trabalho só ali, não passei por mais lado nenhum. Já aprendi muito, mas absorver informação noutro lado dar-me-ia uma bagagem completamente diferente. Estava com tanta vontade que, no fim da licenciatura, tinha em mente tirar mestrado e não fui. Pensei que começaria a trabalhar e com o meu salário iria fazer o mestrado em Finanças no ano seguinte e estava tudo escalonado na minha cabeça. No último ano da minha licenciatura, tive a possibilidade de fazer Erasmus, era algo que eu queria e já estava tudo aprovado. Eu e o meu colega Daniel íamos para a Letónia, e, na altura, o meu pai perguntou-me se eu tinha a certeza, que tinha adquirido outra empresa e que eu a poderia gerir. E, apesar de me arrepender, fiquei em terra. Perdi uma experiência de vida, o Daniel foi e ganhou muita bagagem, conheceu muitos amigos, o inglês dele veio perfeito. Enfim. 

Entraste na JFA à patrão?
(Risos) Não. Graças a Deus que gosto de me autoavaliar e sinto que sou uma pessoa humilde e as primeiras coisas que fui fazer para a empresa foi basicamente pegar no papel e controlar todos os químicos que entravam e saíam da tinturaria, aprendi a trabalhar nas máquinas, operadores de confeção. Eu tenho de perceber pelo menos o mesmo que eles percebem e comecei por baixo, fui crescendo. E não foi o meu pai, foi por mim. A 11 de junho pegou em mim, entregou-me ao Júlio Machado e disse que eu teria de me desenrascar. Andei com o Júlio umas semanas a aplicar a teoria do que aprendi. E cá estamos. 

O que aprendeste com o senhor Almeida?
Ui, muita coisa. Ele observava ao longe e a maneira de me guiar era com raspanetes, não era uma indicação de caminho, eu depois é que tinha de o encontrar. A agressividade dele no mercado, o lado comercial dele, a coragem que tem e que tem de existir e crescer. Passou-me tudo isso, a organização e a vontade de trabalhar, num mercado como o nosso discutimos cêntimos e é preciso haver alguma agressividade.   

Como é trabalhar com irmãos, com a família?
Tudo dá certo se as coisas forem bem geridas.

E como se gere?
O meu pai foi inteligente na forma como dividiu [responsabilidades], nós damo-nos todos bem, mas é evidente que quando os “poleiros” se juntam, há quatro “galos” e há sempre picadas porque somos pessoas, é normal, temos sempre de arranjar um consenso. 

Quem desempata?
Desempatam os quatro. Estamos divididos por quatro núcleos e o meu pai dividiu, e muito bem, assim a gestão. Depois de a minha irmã entrar, seis anos depois, o meu pai fez questão de executar um protocolo familiar, em que uma pessoa independente, um espanhol, com uma bagagem de grandes empresas. Isto é, se alguém se chatear daqui a uns anos, aciona-se esse protocolo que diz como isto tem de ser gerido e isso foi bom para todos, para cada um saber onde deve estar. O Conselho de Administração reúne sempre para alinhar decisões e tudo isto veio nos profissionalizar.  

Separam bem o profissional do pessoal?
Sim, conseguimos. Temos as nossas chatices, não vou negar. Às vezes é mais difícil até com o meu pai, porque isto não é um mar de rosas. 
Por vezes há discussões e à noite estamos todos à mesa. Com aquela moedeira (risos), mas ultrapassável. Eu até se calhar dos quatro, sou o mais nervoso, ultrapasso completamente. 

Qual a sensação de passar na Avenida dos Bombeiros?
Foi aqui toda a minha infância, éramos vizinhos, naturalmente que me recordo de muitas coisas. A Santa Casa foi onde andei na infância, de onde saiu o meu grupo de amigos.  Vivi aqui até aos 18 anos, depois fui para a faculdade e aos 21 comprei a minha casa, sempre quis ter a minha autonomia. 

Estudaste em Coimbra, o que guardas de lá?
Boas memórias, a farra da universidade. O bem de Coimbra é que as universidades estão juntas e criam-se muitas amizades. Diverti-me muito em Coimbra, mas sempre com o foco de acabar rápido para vir trabalhar. Já namorava na altura e a Rita é uma pessoa que me criou equilíbrio emocional. Antes de namorar não tinha focos, e quando a conheço, começou a endireitar-me com as ideias fixas dela. 

Como se preservam amizades?
Falando com elas. Os meus amigos de hoje são os de infância. Algumas amizades perderam-se porque, por vezes, as pessoas não sabem entender a nossa ascensão. Para mim, manter amigos é possível com humildade de ambas as partes, mantendo sempre o contacto.

O andebol sempre esteve na tua vida. Hoje continua a estar… 
Começou cedo, no meu 5º ano, numa brincadeira de amigos. Entrei no Callidas Club sem saber o que era o andebol e eles precisavam de um guarda-redes. Era o Zé Pedro o treinador. O Miranda, treinador de guarda-redes foi muito importante para mim e fui ficando, formou-se ali um grupo de amigos. 

Vizela aguarda a reativação do Callidas, no qual és vice-presidente. O que podemos saber?
Ainda ando por lá, sou vice-presidente e estou a ajudar o clube. Está a ser reestruturado e precisa de tempo para respirar. A estratégia está montada para que, quando houver ar, voltar. 

Como te imaginas com a idade do teu pai?
Vejo-me numa casinha em frente à praia, quero usufruir do que me resta da vida. 
E não será aos 66 anos, conto que seja antes. Imagino-me com a família a gozar a reforma, estou a dedicar este meu tempo agora à empresa para, daqui a uns anos, poder descansar. 

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