Hélder Magalhães: “A literatura obriga-nos a pensar"

O escritor vizelense Hélder Magalhães acredita que a literatura continua a ser uma das mais importantes ferramentas para formar cidadãos críticos e conscientes. Numa conversa no Especial Informação da Rádio Vizela, o autor falou do percurso literário que iniciou há mais de uma década, da forma como o cancro mudou a sua vida, das dificuldades do mercado editorial em Portugal e da importância de aproximar os jovens da leitura.

Autor de uma obra que atravessa diferentes géneros, da poesia à literatura infantojuvenil, passando pelo teatro e pelos livros artesanais, Hélder Magalhães lançou-se na escrita motivado por uma experiência pessoal: a luta contra o cancro.

“Em 2007 senti necessidade de escrever sobre aquilo que tinha vivido, com a minha vivência do cancro e de tudo o que sucedeu, que foi um renascimento na minha vida”, explicou. Hélder Magalhães sublinha que esse período não foi vivido com medo, mas antes como um processo de transformação: “Eu recordava tudo como se estivesse a viver novamente, de uma forma positiva… não olhava com receio para trás, pelo contrário, isso permitiu-me continuar vivo”.

Dessa necessidade nasceu Iluminado, publicado, pela primeira vez, em 2008 e reeditado em 2011, uma obra onde partilha um testemunho autobiográfico que marcou o início do seu percurso editorial. O escritor admite que não tinha qualquer contacto com o meio da edição: “Eu não fazia ideia do que era o mundo editorial. Era apenas leitor”.

Foi a partir desse primeiro contacto com a publicação que percebeu o impacto que a escrita poderia ter nos outros, depois de lhe terem sugerido que os textos poderiam ser partilhados com leitores.

 

Mercado editorial e autonomia criativa

Ao longo da entrevista, Hélder Magalhães abordou de forma crítica o funcionamento do setor editorial em Portugal, referindo que a sua experiência inicial não foi a mais positiva e que isso o levou a optar, em alguns casos, pela edição de autor.

“Se vou pagar uma edição, então vou a uma gráfica e faço eu esse trabalho”, afirmou, acrescentando que considera essencial uma relação mais transparente entre autores e editoras. Para o escritor, um contrato deve respeitar de forma clara os direitos de autor, e não inverter responsabilidades: “Um contrato implica uma cedência dos direitos de autor em troca de um pagamento ao autor, e não o contrário”.

O autor lamenta ainda a evolução do mercado editorial, sublinhando que muitos escritores acabam por suportar os custos das próprias obras. “A maioria das editoras funciona como um serviço que de edição não tem nada. O autor é que paga”, referiu.

Apesar dessas dificuldades, garante que nunca procurou depender financeiramente da escrita, o que lhe permite maior liberdade criativa. “Se algum dia tive a ilusão de viver da escrita, ela desapareceu há muito. Não sinto essa dependência e isso dá-me liberdade para criar”.

Para Hélder Magalhães, cada obra transporta inevitavelmente uma parte do autor, ainda que atravesse diferentes géneros e estilos. “Cada livro tem uma parte de nós, mais ou menos ficcional. Há perspetivas diferentes, mas existe sempre algo pessoal”, explicou.

O processo criativo, segundo o escritor, nasce muitas vezes de imagens e perceções que ficam registadas na memória: “São imagens que permanecem, como fotografias que ficam dentro de mim e que depois preciso de escrever”.

O autor descreve a criação literária como um processo espontâneo, mas que resulta de uma longa maturação interior. Um dos princípios que procura seguir ao longo da carreira passa por colocar sempre a obra acima do próprio autor. “Há uns tempos, a minha mulher mandou-me uma mensagem a dizer que alguém tinha utilizado uma expressão que uso muito, ‘Assassinar o Ego’. (…) Quando surge algo e depois estão os holofotes de determinada maneira… temos muita tentação, seja em que área for; o nosso ego, a nossa vaidade… há uma vaidade positiva, mas depois se essa vaidade nos engole, acaba por ser prejudicial. Durante bastantes anos esse foi o meu principal trabalho: não deixar que sobressaísse o ego; para que seja a obra e o trabalho a sobressair e não o autor”.

Confessa, por isso, preferir o anonimato e o papel de observador: “Parte do trabalho da escrita é observar. O meu olhar repara muitas vezes naquilo que passa despercebido à maioria das pessoas”.

 

Leitura, jovens e o papel da cultura

Nos últimos anos, para além da escrita, Hélder Magalhães tem desenvolvido vários projetos de promoção da leitura, sobretudo junto das escolas. Um dos mais recentes foi “A Mala de Camilo”, dinamizado em parceria com o Município de Vizela, envolvendo alunos do 9.º ano no âmbito das comemorações do bicentenário de Camilo Castelo Branco.

O escritor considera que estas ações são fundamentais para estimular o pensamento crítico. “A literatura obriga-nos a pensar e a formar-nos enquanto cidadãos”, afirmou. Contrariando a ideia de que os jovens leem menos, defende que existem hoje mais oportunidades de contacto com livros do que no passado. “Quando eu tinha 13 ou 14 anos, os únicos livros que lia eram os manuais escolares. Hoje vejo jovens nas bibliotecas e nas feiras do livro a requisitar obras. Há mais acesso e mais diversidade”.

Ainda assim, sublinha a importância de continuar a criar condições para esse contacto com a leitura, sobretudo numa fase de formação. “Temos de lhes dar oportunidades que os levem a refletir e a construir pensamento próprio”.

Hélder Magalhães mostrou-se igualmente preocupado com o investimento público na cultura em Portugal, considerando que continua aquém do necessário. “Basta olhar para o orçamento da Cultura. (…) Há espaço para tudo. Há espaço para um concerto que enche um estádio, mas também para um espetáculo para cem pessoas. Ambos são válidos. É como o teatro e outro tipo de expressão artística. Temos de ter essas ofertas para as pessoas poderem escolher”.

Quanto ao futuro, Hélder Magalhães mantém projetos em curso, sobretudo na área da literatura infantojuvenil, embora sem datas definidas para novas publicações.

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