Fátima Guimarães: "Domingos Vaz Pinheiro era um visionário"

Assistente administrativa na SCMV há mais de duas décadas, e não há projeto que não passe por si.

Fátima Guimarães esteve no Corta e Prega da Rádio Vizela. Ouça tudo na secção de podcast.

Ainda se lembra do seu primeiro dia na Misericórdia de Vizela?

Lembro-me mais do dia da entrevista. Vim em junho, mês muito complicado porque é quando são feitas as inscrições, e quando cheguei e vi uma fila enorme de supostas candidatas ao lugar, pensei logo no que estava ali a fazer. Depois é que percebi que eram mães para inscreverem os filhos nas valências de infância. Depois lá fui à entrevista, com o senhor provedor Domingos Vaz Pinheiro e fiquei, já lá vão 22 anos.

O que fez antes, profissionalmente?

Licenciei-me em Economia, logo depois de terminar o curso fui estagiar, através da Associação Nacional de Jovens Empresários, numa empresa em Guimarães durante nove meses. E depois a vida até podia ter caminhado noutro sentido porque fui convidada para trabalhar na “Sol do Ave”, em Guimarães, que naquela altura geria os fundos comunitários. A dra. Sofia Ferreira era esposa do meu patrão na altura, e achou que eu teria essas capacidades. Quando chego à “Sol do Ave” a minha primeira função era ir para Bruxelas tratar dos fundos comunitários precisamente. Mas a Fátima tem pavor de andar de avião e rejeitei. Mas o pior era dizer aos meus pais que havia surgido esta oportunidade e que não a ia agarrar. Não fui capaz de aceitar, até ao dia de hoje ainda não andei de avião, se bem que se fosse hoje já conseguiria. A minha vida podia ter sido diferente se tivesse aceitado ir para Bruxelas, mas andar de avião não é para mim, se fosse só uma viagem, estaria resolvido, mas eram muitas (risos). Quando contei os meus pais não acharam muita graça.

A seguir trabalhei numa empresa, em Moreira de Cónegos, e adorei, não estava na minha área, mas as pessoas confiaram em mim como equipa, estava à frente de um balcão, a gerir uma empresa de informática que dava formação, dava assistência. Nada a ver com a minha área, mas eu apego-me àquilo que as pessoas confiam em mim. Não tenho vergonha de dizer que chorei quando saí para a Misericórdia.

Mas então sai porquê?

O meu pai trabalhava na “Mundotextil” e soube que ia haver uma oportunidade. Não fui contratada como economista porque há 20 anos as IPSS não pensavam sequer em quadros desta ordem, talvez tenha sido a visão de futuro do senhor Domingos Vaz Pinheiro que sabia que as instituições deviam ser geridas com critério e rigor. 

Fui selecionada para a Misericórdia, mas tudo o que deixo para trás, também deixo com apego, mesmo não sendo a minha área. Criar empatia com as pessoas é o que me dá gozo na vida. E o senhor provedor apostou em mim, permitindo-me participar nas reuniões da mesa administrativa como secretária, ou seja, fazia atas das reuniões. Comecei a conhecer a instituição no seu todo e as pessoas viram potencial em mim, começando a colocar-me nas mãos as diversas matérias da instituição, e é isso que me gratifica e consigo-me já identificar com o crescimento da Misericórdia.

Quando é que percebeu que ainda bem que não foi para Bruxelas?

(Risos) Isso percebi desde logo. ``As vezes, quando não tenho mais nada para fazer, o que é raro, onde estaria hoje se tivesse ido. A mesma pessoa seria de certeza, não sou de grandes horizontes fora de Portugal e o apego à família pesou. Sou filha única, mas sempre tive liberdade para fazer o que entendesse.

 Quando hoje olha para a Misericórdia, consegue imaginar-se fora dali?

Consigo, adoro o que faço, estou completamente realizada, a instituição ainda tem muito para crescer, mas se estivesse numa situação em que já não houvesse mais nada para fazer ali, gosto de desafios e apostaria (…) não sou de rotinas, sou técnica oficial de contas, mas não exploro bem porque é sempre a mesma coisa (risos). Identifico-me mais com áreas de crescimento, elaboração de projetos, desde que estou na Santa Casa que os projetos são feitos internamente e sinto vaidade ao dizer isso.Vejo-me a fazer outra coisa no futuro, a partir do momento em que sinta que Misericórdia não tem mais por onde crescer.

Como era trabalhar com Domingos Vaz Pinheiro?

Foi uma pessoa que, quando o conheci, teve de ser “conquistado”, era desconfiado quando não conhece quem está do outro lado. Nós temos de nos dar bastante e demonstrar que somos capazes de alcançar os objetivos que ele traçou. Mas ele era um visionário, ele lançou valências, na altura, que hoje fazem todo o sentido ainda. Ele via à frente do tempo dele.

Olha para si e o que traz da infância?

Felicidade, família. O apego dos pais, adorava os natais, que era de muitos dias. Recordo os meus avós paternos, foram eles que me criaram até porque nunca andei num pré-escolar, naquele tempo também creio que não existia. Havia tanta criança, às dez da noite andava a minha mãe a ver onde estava para ir para casa. Era filha única, não tinha irmãos, nunca senti falta. E não sou mimalha, sou mimada, sou autónoma e desenrascada. O meu pai para saber que eu andava na linha, na altura do Secundário, dizia-me que passava por lá a qualquer momento para ver se me via (risos).

Ser mãe sempre esteve na sua lista de objetivos na vida?

Sim, se tivesse outra profissão certamente que seria educadora de infância, apesar de achar que não ia conseguir. Eu sou de números, sou mais fria, e ter nas nossas mãos todos os dias o maior bem dos outros, se calhar, não me daria tranquilidade. A maternidade foi um pouco tardia devido, se calhar, ao meu estilo de vida, do meu trabalho que gostava. Mas uma cara-metade completa-nos numa vida, via-me frustrada se não a encontrasse.

O que lhes trouxe a Maria?

Se me perguntar o que mais gosto de fazer eu respondo que gosto de estar com a minha filha. Gosto de falar da Maria e que me falem da Maria (risos), só isso acho que me preenche. A minha gravidez foi plena, gostei dessa fase, não tive qualquer mal-estar estive sempre bem, até na cesariana. Eu até disse ao médico que se calhar seria melhor um parto normal, para eu sentir dor e estar lúcida (risos). A minha filha hoje tem imensos brinquedos porque eu os quero para brincar com ela (risos), adoro. Talvez porque tenha essa experiência com a minha mãe, guardo muitas imagens e quero estar ao nível da minha filha.

A pandemia foi terrível, tive de ficar em isolamento durante 15 dias, tinha a Maria oito meses. Só a via por fotografia porque nem tinha coragem de fazer videochamadas, foi muito mau, emagreci imenso mesmo não fazendo nada. Sou muito ligada a ela e é certo que a vou impulsionar a andar de avião (risos) e andar de bicicleta, porque eu não sei.

Dedicar tempo aos seus, tira-lhe tempo para dedicar a si?

Às vezes penso que há coisas que gosto de fazer. Há uma coisa que ainda não ultrapassei, dava-me muito prazer ir ao futebol ver o FC Porto, ao Dragão. Dava para libertar, mas agora a minha cara-metade não é da mesma cor. Eu era sócia com lugar cativo e o Narciso reconhece que eu tenho de voltar a fazer isto.

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