Agricultores em Vizela são poucos mas lutam pelo futuro

Os agricultores estão em protesto em vários países da União Europeia, tal como acontece em Portugal desde há duas semanas. Após a paralisação de importantes vias em todo o país, o Governo veio garantir que a maior parte das medidas do pacote de apoio entraria em vigor ainda este mês. A Rádio Vizela foi ao encontro de quem, em Vizela, ainda se dedica à agricultura. São poucos e percebe-se facilmente que trocariam os subsídios por uma valorização justa dos produtos que comercializam, cujos custos de produção aumentaram significativamente desde a pandemia.

 Sérgio Fernandes dirige a Agro S. Paio que será, por esta altura, a maior exploração de carne e leite do concelho em cerca de 56 hectares de terra distribuídos pelos concelhos de Vizela, Felgueiras, Guimarães e Fafe. Tem apenas 40 anos, mas é agricultor há 23. Já o pai, Joaquim Fernandes, hoje com 75 anos, abraçou a agricultura há 45, num terreno a 50 metros da Rua da Herdade. “Começou com duas ou três vacas e depois foi comprando uma atrás da outra. Acompanhei-o sempre. Punha-me a pé às 06h00, ajudava a dar de comer aos animais, ia tomar o pequeno-almoço e também um banho e só depois ia para a escola. À noite, a mesma história. No final das tarefas, ia estudar”, recorda Sérgio.

Aos 17 anos, decidiu dedicar-se a tempo inteiro à agricultura, apesar da insistência do pai para que continuasse com os estudos. “Como me juntei à equipa tínhamos de conseguir aumentar a rentabilidade para se conseguir retirar mais um salário. Foi quando começámos a pensar em aumentar a exploração e assim foi acontecendo aos bocadinhos. Nesta altura, somos quatro pessoas a trabalhar cá e temos cerca de 300 animais”, conta, com orgulho, o agricultor. Embora reconheça que os recursos humanos são poucos. Em 18 anos de casamento, gozou apenas oito dias de férias quando foi de lua de mel. “Devíamos ser mais mas, nesta altura, não dá para contratar mais pessoas, porque as matérias-primas sofreram um aumento muito grande, tal como aconteceu com os fitofármacos, as rações, a silagem, os adubos. Já o nosso produto mantém o preço”, diz.

 

Preço da carne e do leite não tem acompanhado o aumento das matérias-primas

 

Tem sido uma luta difícil. Na Agro S. Paio comercializa-se leite e carne: “Há 40 anos, o meu pai já recebia o leite a 65 escudos (32,5 cêntimos) e, neste momento, nós recebemos 47 cêntimos por litro, e é este valor, porque temos muito boa qualidade, porque o preço base é de 44 cêntimos. Na carne há 20 anos já se vendia um quilo por 1000 escudos (5 euros), quando hoje se vende apenas por 5,50 euros”.

Se as contas estão em dia é porque, garante o vizelense, existe uma capacidade de sacrifício muito grande. Os custos de produção têm aumentado muito: “Há 25 anos, a ração custava um terço do que custa hoje. Atualmente, um saco de ração de 25 quilos custa cerca de 13 euros. Para pôr um animal a pesar, ao fim de oito meses, 200 quilos, temos de lhe dar três quilos de ração por dia. é um custo muito grande”.

Também subiu o preço do combustível: “Não me lembro de o gasóleo agrícola ter atingido preços como os do ano passado. A gente encomendava 3 mil litros e lá vinha uma fatura de 4 mil ou 4 mil e 500 euros. A gente até tremia. Para nos calar, o Governo decidiu dar 10 cêntimos por litro. Mas o que queríamos era pagar o valor justo pelo gasóleo”. Os aumentos começaram a gerar maior impacto logo após a propagação da pandemia da Covid-19 em 2020 pela dificuldade na circulação de matérias-primas entre países, e depois em fevereiro de 2022, com o início da guerra na Ucrânia, país exportador de cereais.

Mas Sérgio defende que “a situação no setor agrícola já vinha a descambar há cerca de sete anos”, desde que começaram os cortes nos subsídios no âmbito da Política Agrícola Comum, mas também a partir do momento em que Portugal deixou de produzir matérias-primas suficientes para o país, nomeadamente, cereais”.

“Isto quando poderíamos ter no país produção autossuficiente de cereais, mas as pessoas estão cansadas de gastarem na sementeira o que, no final da colheita, não vão conseguir recuperar. Tive o exemplo do último ano, em que vendi grão [de milho]. Quando fiz as contas entre o que gastei e o que recebi, resultou zero, nem a mão de obra pagou”, garante Sérgio. E lembra: “Em 2022 tivemos momentos em que pagámos para trabalhar. Chegámos a receber 33 cêntimos por litro de leite. Só no ano passado em junho é que chegou ao valor atual e isso só aconteceu depois de muitas explorações fecharem. No país, somos 800 produtores Agro, quando já fomos 2500”.

 

Sérgio Fernandes: “Deviam existir entidades fiscalizadoras para regular o mercado”

 

O problema está no esmagamento de preços. O agricultor de S. Paio considera que a classe política devia estar mais atenta. “Mas não vou culpá-los só a eles, deviam existir entidades fiscalizadoras para regular o mercado”. Sobretudo para impedir que entrem no país alimentos cuja produção não respeita as normas ambientais a que estão obrigados os agricultores portugueses pela Comunidade Europeia. “Isso não pode acontecer, até porque em Portugal somos obrigados a utilizar produtos muito mais caros e depois não conseguimos competir com os preços daqueles que vêm de fora da Europa”, diz o vizelense. Mas deixa uma garantia: “O produto português pode não ser competitivo, mas tem muita qualidade”.

Já na prateleira dos supermercados, os preços têm estado sempre a subir: “Há muitas entidades, no meio, que estão a ganhar muito dinheiro. Tenho colegas que são produtores de hortícolas e que, no ano passado, viram 1 quilo de alface atingir os 3 euros e 1 quilo de tomate 1,80 euros, isto quando a alface saía do agricultor a 50 cêntimos e o tomate a 42”.

Sobre as manifestações das últimas semanas, o vizelense diz que não pode haver lugar a cedências: “Se repararem, nestas ações de protesto, vemos, principalmente, pessoas de bastante idade que daqui a meia dúzia de anos deixam a profissão”.  “Se os governantes não colocarem a atividade a gerar maior rentabilidade, através da valorização dos produtos nacionais, não haverá juventude a querer agarrar esta profissão”, sublinha. Profissão que entende que deve ser mais valorizada: “As pessoas têm de olhar para o agricultor com respeito, pois é ele que lhe põe comida no prato todos os dias”.

Por vezes, Sérgio Fernandes sente-se tentado em projetar novos investimentos. “Mas nos dias de hoje para que isso aconteça, terei de me empenhar durante 20 anos e pedir para que isto não piore. Atualmente, para garantir a subsistência, a partir da agricultura, é preciso que haja alguma dimensão. Nas explorações mais pequenas, as pessoas abraçam a agricultura a part-time mas sei que têm desistido muito. Mesmo a ganhar dinheiro, às vezes, sabe Deus, quanto mais para o calo”.

Como é que olha para o futuro? O agricultor não esconde os seus receios: “Com bastante medo, porque se quem sair vencedor das próximas eleições, seja ele quem for, não olhar para o setor agrícola para valorizar mais o nosso produto, acredito que dentro de três ou quatro anos, desistam, pelo menos, mais 300 explorações de leite”.

Ao mesmo tempo, já não deposita grande confiança na atual Ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes: “Como foi possível ter havido um corte nos subsídios na ordem dos 35 % e agora apareceram do nada 440 milhões para distribuir? é para nos calarmos?”.

Entende o vizelense que a agricultura tem ficado sempre em segundo plano, mesmo na gestão mais aproximada dos territórios: “Olha-se mais para a indústria. Só quando há um abanão como este, é que toda a gente se preocupa, porque se for para parar, mesmo a sério, as prateleiras irão esvaziar-se e as pessoas não terão o que comer”.

 

Carlos Faria: “A nossa paragem é a vossa fome” lia-se num dos cartazes

 

Carlos Faria iniciou-se na agricultura quando o seu avô João de Castro faleceu. Como neto mais velho entendeu que tinha o dever de ajudar a preservar a tradição familiar e, em conjunto com um tio, começou por tomar conta de umas ramadas antigas. Foi quando estava a concluir a Licenciatura em Desporto, em 2011 que decidiu reformular a vinha. “Nessa altura comecei esta aventura. Sou professor e dou aulas num ginásio. O tempo que me resta é dedicado à viticultura, embora também detenha a marca “Encosta de S. Bento”, que comercializo. Mas o meu forte é a produção de uvas”, conta à Rádio Vizela

Nesta altura, o jovem agricultor, de apenas 36 anos, tem já à sua responsabilidade 14 hectares distribuídos entre a Quinta de Frades, junto à Cascalheira, em Vizela, mas também por Santa Eulália e Urgezes. “A minha atividade profissional passou a part-time (risos). Mas costuma-se dizer que quem trabalha por gosto não cansa”, diz o vizelense. E acrescenta: “Se por um lado tem sido difícil encontrar terrenos com alguma área na nossa zona, por outro lado, são já as pessoas que nos começam a procurar para que possamos explorar os seus terrenos. Não sei se é por falta de gente a querer trabalhar a terra, mas é algo que, neste momento, me está a surpreender”.

Embora as motivações que estão na origem dos protestos das últimas semanas constituam motivo de preocupação para Carlos Faria, é com “alguma alegria” que vê os agricultores na rua a lutarem por melhores condições de trabalho: “Vemos que ainda existe alguma união no setor que nos permite acreditar que pode haver futuro mediante algumas condições”. “Isto porque há alguns anos ouvi um provérbio que dizia que “o agricultor é uma pessoa que empobrece a rir”. é bem verdade que só se dedica à agricultura quem gosta e, às vezes, as pessoas estão a perder dinheiro, mas gostam tanto daquilo que fazem, que continuam”.

 

“O que pedimos são preços justos para o produto. Se ele for valorizado, não precisamos de subsídios”

 

Mas é um contrassenso. Por isso, o jovem viticultor defende que o agricultor não pode empobrecer a trabalhar. “Daí que as pessoas tenham de lutar pelos seus direitos. Muitos acham que os agricultores andam atrás de subsídios e é exatamente o contrário. O que pedimos são preços justos para o produto. Se ele for valorizado, não precisamos de subsídios. Eles também não existem para setores como o têxtil, calçado ou restauração… Isto porque o produto final é valorizado”. “No nosso caso, muitas das vezes, o preço que é pago pouco mais cobre que o custo de produção, daí que os Governos se sintam na obrigação de ajudar, dando alguns subsídios para as pessoas se possam sustentar”.

Reconhece que não tem sido fácil: “O preço das uvas em 2011 e em 2024 é exatamente o mesmo. Mas todos os consumíveis aumentaram, os adubos que custam mais do dobro, os produtos fitofármacos que têm preços mais altos, bem como o gasóleo. Mas a própria mão de obra também está mais cara. Aliás, tudo está mais caro, quando o produto se mantém no mesmo valor. Daí ser uma dificuldade tremenda em nos mantermos”. “O agricultor tem de absorver todas essas despesas e fá-lo sacrificando-se, a ele e à família, trabalhando muitas mais horas ao mesmo tempo que faz um “jogo de cintura” para minimizar o impacto das despesas”, confessa Carlos. O lucro? “Fica muito pelo distribuidor”, acrescenta.

Embora o futuro não se apresente risonho, o vizelense acredita que este “passará muito por aquelas que vierem a ser as diretrizes políticas”. “No nosso concelho, não é um setor muito forte. Talvez os agricultores se contem pelos dedos das mãos. Mas o que vejo no futuro próximo é que os mais pequenos abandonem as suas explorações e os grandes produtores tomem conta de mais área. é isso que já está a acontecer em toda a Europa”, acrescenta o viticultor que se vê num futuro próximo a dedicar-se em exclusivo à agricultura, dado o aumento da área de exploração de vinhas e ao constrangimento financeiro que significaria a contratação de mais mão-de-obra.

Sobre a importância do setor, Carlos Faria conclui com a frase que viu escrita num dos cartazes que acompanhava uma manifestação em Portugal: “A nossa paragem é a vossa fome. Se o agricultor não trabalhar, alguma coisa há de faltar”.

 

Nélson Fernandes: “Agricultores como eu, com explorações mais pequenas, são para acabar”

 

Ainda na última semana passamos pela Quinta da Nogueira, na Rua da Bouça, em S. Paio de Vizela, para nos encontrarmos com Nélson Fernandes. Aos 42 anos explora cerca de 10 hectares de terra no concelho aos quais soma dois campos em território vizinho.

Herdou o gosto pela agricultura dos avós e depois dos pais.

A sua exploração é de engorda, ou seja, dedica-se à produção de novilhos. “O meu pai chegou a ter três vacas de leite, das quais conseguia retirar rentabilidade, porque ainda existiam os postos de leite nas freguesias e chegava a tirar, há 25 anos, cerca de 500 euros por mês. Quando se acabaram esses postos de leite, acabou-se também a rentabilidade”, conta.

Foi há 10 anos, quando o pai ia desistir da exploração, que Nélson decidiu alugar alguns terrenos e continuar com a atividade. Antes da pandemia chegou a ter 52 animais, depois 47 e agora cuida de 38.

O que falta dizer é que Nélson não vive exclusivamente da agricultura: “Tomara eu ter essa possibilidade. A minha profissão é trabalhar com máquinas de terraplanagem e a agricultura é um extra. Quando tive 52 animais, se tivesse tido mais apoios do Estado e se as coisas não passassem a estar tão caras, era capaz de me ter lançado só para a agricultura mas, infelizmente, agora não dá”.

Desta feita, a jornada diária de trabalho, como dá para imaginar, é longa: “De manhã tenho de me pôr a pé por volta das 06h30 para dar de comer aos animais antes de ir para o trabalho. No final do dia, regresso a casa pelas 18h00 e até às 21h30, tenho de orientar os animais”. Além disso, a semana de trabalho tem sempre sete dias: “Ao sábado, aproveito para orientar podas e outros trabalhos. No domingo, também tenho de me levantar cedo e orientar os animais até ao meio-dia para que possa passar o dia sem ter de lá voltar”.

 

“é a paixão, o gosto que tenho de trabalhar com os animais e que já vem de trás. Se não fosse isso…”

 

O que o motiva a continuar? “é a paixão, o gosto que tenho de trabalhar com os animais e que já vem de trás. Se não fosse isso…”, diz o agricultor. Lembra que foi depois da pandemia que as matérias-primas começaram a aumentar de forma mais significativa. “Eu pagava 380 euros por 1000 quilos de ração e agora estou a pagar 500. Ao mesmo tempo, estava a vender 1 quilo de carne por 4 euros ou 4,20 euros, quando esse valor desceu para 3,60 euros. Só esta redução nos deitou muito abaixo”, garante Nélson. Sobre a subida das matérias-primas, nomeadamente dos cereais, “dizem que é da guerra na Ucrânia”. “Mas já não sei”, desabafa o vizelense. Quanto à desvalorização do preço da carne, fala do conflito no Médio Oriente, que se refletiu numa redução na sua procura para exportação. O que é um facto é que a evolução do preço nas prateleiras tem caminhado no sentido oposto, ou seja, tem sido sempre a aumentar: “Quando vi o preço descer para 3,60 euros, pensei que, ao menos, a população iria beneficiar dessa redução, mas chega-se aos talhos e aos hipermercados e o preço continua a sempre a subir”.

Sobre as manifestações dos últimos tempos, Nélson defende que “há mais que razões para isso”. Fala inclusive de subsídios que deveriam ter sido pagos até 28 de dezembro, o que só se veio a verificar em 25 de janeiro último e com cortes. “Neste momento, os agricultores precisam de ajuda do Estado, que deve cumprir com o que promete”.

Teme o futuro?  “Sem dúvida. Agricultores como eu, com explorações mais pequenas, são para acabar”. Isso só será evitado se passar a haver “maiores apoios financeiros do Estado para incentivar os jovens para a agricultura”. “Mas se terminarmos com os pequeninos, só vão ficar os grandes, que não terão capacidade para que Portugal produza as quantidades que precisa. Será obrigado a ir ao mercado [de países] que não estão a respeitar as mesmas regras que nos são impostas pela União Europeia. é isso também que nos obriga a desistir”, sublinha o agricultor.

 

Sérgio Oliveira:  “A distribuição e a comercialização estão a ganhar muito dinheiro e esquecem-se de quem produz”

 

Já no alto de S. João, próximo do emblemático Paço de Gominhães, labora Sérgio Oliveira, aos 42 anos, responsável pela Pec-Nature, Sociedade Agrícola, Unipessoal, Lda. Filho de Baltazar Oliveira, antigo presidente da Casa do Povo de Vizela, está ligado à agricultura desde sempre. Mas foi em 2015 que assumiu a liderança deste projeto e hoje coordena uma equipa de quatro pessoas.

A Pec-Nature tem como principal fonte de rendimento a exploração de leite, mas também se dedica à produção de vinho, à exploração de engorda (venda de carne) e ainda aos cavalos de corrida. Por esta altura, são cerca de 170 animais para cuidar e 31 hectares de área para cultivar.

Sérgio Oliveira lembra que as dificuldades vividas no setor primário já não são de agora e que tem sido a resiliência dos agricultores que tem permitido, na maioria das vezes, dar a volta por cima. “Desde sempre que o setor primário foi um bocado discriminado, só que hoje já se vê muita gente formada na agricultura que, além de fazerem bem as contas, sente as mesmas necessidades de qualquer outro cidadão. Por isso, depois de verem os resultados da comercialização, percebem que sobra muito pouco para os compromissos dos agricultores”, sublinha o responsável.

Isto porque a balança entre produção e distribuição/comercialização parece estar cada vez mais desequilibrada: “Estão a ganhar muito dinheiro e a esquecerem-se de quem produz e isso está a consternar os agricultores e a trazer graves consequências para o setor primário.  A produção tem de ter retorno”. Daí que reconheça que as ações do protesto, por exemplo, desta última terça-feira, realizada no norte de Portugal, tenham um impacto significativo e são importantes “para fazerem ver às forças políticas mas também aos cidadãos em geral que o setor primário, nomeadamente a agricultura, é indispensável para o desenvolvimento de qualquer país”.

 

“Não temos é quem queira controlar essas grandes superfícies. Têm medo”

 

O jovem empresário acredita que não será difícil regular o mercado. “Não temos é quem queira controlar essas grandes superfícies. Têm medo e acabam por sacrificar sempre o produtor. Vou dar um exemplo, tenho um amigo meu que é produtor de morangos, ou seja, que planta e cuida, e que estava a vender o quilo por 2 euros, quando passada uma semana, viu o quilo de morangos ser comercializado numa grande superfície a 8 euros. Só pela distribuição e comercialização uma margem de lucro de 6 euros. é inadmissível”, defende Sérgio Oliveira.

Mas não fica por aqui. “O setor também tem de ser mais apoiado. O Ministério da Agricultura tem enviado muitas informações para a Comunicação Social a falar da ajuda aos produtores e que leva as pessoas a ficarem com uma visão diferente daquela que é a realidade. Ainda na quinta-feira, mais um falhanço da Ministra da Agricultura, que anunciou a descida imediata do gasóleo, quando esta segunda-feira, além de não ter descido, ainda aumentou mais três cêntimos”, lamenta o vizelense.

 

Pacote de 400 milhões de euros? “Já devia ter sido dado em janeiro”

 

Quanto ao pacote de ajuda no valor de 440 milhões de euros. O agricultor diz que já vem tarde: “Devia ter sido dado em janeiro. [Maria do Céu Antunes] anunciou o ano passado um conjunto de medidas mas esqueceu-se do número de animais que havia em Portugal, o que fez com que o dinheiro que tinha para distribuir não tivesse sido suficiente. Fez um corte de cerca de 20 euros por animal e agora só vai repor a diferença”.

O foco deve estar na adoção de medidas que protejam os produtos e os procedimentos que respeitam as diretivas da Comunidade Europeia ao mesmo tempo que se protege quem cumpre todos os requisitos ambientais, sanitários e de bem-estar animal. Nem sempre tem sido assim: “Confrontamo-nos com uma série de medidas que aumentam o custo do produto, mas depois há países que aplicam tudo o que são pesticidas e que recorrem, inclusive, à mão de obra infantil, mas que chegam ao nosso mercado com preços com os quais não conseguimos competir”. “Fica também o alerta para os nossos cidadãos, porque não é só comprar barato… Estamos a falar de pesticidas, fitofármacos e que são prejudiciais à saúde. Devem optar pelos produtos nacionais que respondem às medidas europeias”, defende o responsável.

Ao mesmo tempo, Sérgio Oliveira considera que há muitos portugueses que estão ao lado dos agricultores por reconhecerem que “quem está a ganhar muito dinheiro são as grandes superfícies e os distribuidores e não os agricultores”. Por isso, antecipa, que a não haver alterações de fundo, “os agricultores vão manter-se na rua”: “O que poderá ter grande impacto futuro. Já se falam em manifestações de cancelamento de encomendas de duas a três semanas e que podem causar alguns problemas ao consumidor”.

Em suma, o vizelense entende que o caminho deve ser feito a dois – Governo e agricultores – rumo a um futuro sustentável do setor, que motive os jovens a agarrarem a agricultura como modo de vida, caso contrário teremos cada vez mais espaços verdes ao abandono. O mesmo local onde nascerá mato, o combustível perfeito para os incêndios. “Atualmente, desanimam. Os custos de produção são muito altos, a receita é pequena e as pessoas fogem para outras áreas”, conclui o agricultor.

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