VIZELENSES DE GEMA... para memória futura

João Ilídio Costa

2020-11-19

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19-11-2020


Foi-me confiado, pela minha mulher, um ‘caderno de memórias’ escrito por Gabriel Coelho Dias, seu pai, que nas suas 128 folhas manuscritas encerra tanta vivência, tanta história e tanto amor à terra que, talvez um dia, ainda venha a fazer a sua publicação, sobre que forma não sei, mas inclino-me para livro/brochura. O caderno abre com uma saudação familiar até à terceira geração e dois poemas, um deles da autoria de Bráulio Caldas, datado de 20 de janeiro de 1880, que não resisto à sua transcrição: “Oh! Salve! Salve! Vizela querida! Berço d’ infância! Meu pátrio lar! Aceita meus versos, são pobres mas gratos Não têm melodia, mas vêm-te saudar!” Depois fala da criação da “Associação Amiguinhos de S. Bento”, da subida de automóvel ao monte, sem a existência de estradas, em 11 de julho de 1928, dia da romaria de S. Bento das Peras, pelos vizelenses Raúl Augusto Macedo, Alberto Faria e João do Apolina (mais conhecido por João Diabo), por caminhos traçados pelos pastores, tendo o percurso de 5 quilómetros levado 10 horas a percorrer. Fala, também, da fundação do “Atlético Club Vizelense”, que esteve na gênese do Futebol Clube de Vizela, e dos seus obreiros, dos seus beneméritos e dos seus Corpos Gerentes, da chegada do 25 de abril de 1974, da criação da primeira “Comissão de Moradores de Vizela” e de todos os elementos que integraram os seus órgãos, da carta de saudação à comissão de moradores assinada pelo Presidente da Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vizela, Comendador José Luís de Almeida, em 15 de abril de 1976, documento de um brilhantismo solidário que pautava as relações institucionais dos bombeiros com os demais parceiros de proximidade, e fala ainda da odisseia da abertura da Estrada de S. Bento a S. Simão, do seu custo (75.148$00 em maquinaria e explosivos), do peditório feito de casa em casa, das listas dos nomes e das quantias dadas por cada um, bem como da sobra de 2 ou 3 escudos que ficaram na posse da Tesouraria da Comissão de Moradores. Fala das primeiras eleições autárquicas do pós 25 de abril de 1974 e da sua eleição como Presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel pelo Partido Socialista, com maioria, tendo depois sido reeleito para mais 2 mandatos, do primeiro programa eleitoral transformado em plano de atividades, da resistência da Câmara de Guimarães à concretização do plano e, também, de uma história deliciosa que não resisto a transcrever, com a devida vénia: “Como amigo do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vizela, Senhor Fonseca e Castro, não ficava com a consciência tranquila se não lhe dissesse do nosso objetivo, de invadir alguns terrenos por ele administrados para a expansão da freguesia. O Senhor Provedor achou a iniciativa excelente, além de arrojada. A única condição que me pôs foi a de eu jurar que ninguém iria saber sobre a nossa conversa, uma vez que a Santa Casa da Misericórdia de Guimarães era a detentora do bem de raiz, enquanto que a de Vizela só dispunha do seu usufruto. Cumpri o meu juramento e só o revelo agora, dado o Senhor Provedor já se encontrar do lado de lá.” A talhe de foice, também do caderno manuscrito, não quero deixar de citar uma conversa com o Dr. Fernando Alberto Ribeiro da Silva, recentemente falecido, e Governador Civil à altura, no tocante ao melindre de uma questão acerca da Escola Primária P3, durante uma confraternização proporcionada pela Fábrica de Tecidos Varela Pinto que, seguramente, haveria de surpreender muitos protagonistas políticos da época. Em matéria de toponímia, os apontamentos manuscritos são um verdadeiro hino aos vizelenses de gema, mas como a memória é curta, algumas personalidades acabaram descartadas por nítida inveja, ou então os seus nomes foram simplesmente relegados para ruas secundárias, uma forma clara de desvalorizar o seu contributo para a nossa história coletiva. Como o artigo já vai longo, não poderei tratar jornalisticamente, como se impõe, os apontamentos manuscritos subordinados ao tema “Contenda na Residência. Morte do Monsenhor José de Sousa Monteiro e nomeação do Padre Constantino Matos de Sá para a Freguesia de S. Miguel”. São 8 páginas manuscritas que por si só davam um romance, desde logo pela passagem do dito popular “criada que manda no padre, manda na paróquia inteira, também”, e que atesta sobremaneira o ambiente que se vivia na altura, em que não raras vezes houve “intromissão” da igreja nos assuntos da Junta de Freguesia, nem sempre para honrar causas nobres. No capítulo de “beneméritos” são destacados vizelenses de gema: “Varela Pinto”, “Guilherme Caldas Peixoto” e “Armando da Silva Antunes”, cujos contributos foram decisivos para transformar Vizela e cuidar a sua preservação cultural, para além da ajuda à proteção e conservação do património edificado, de que é exemplo o “Coreto”. Nesta revisitação da memória coletiva de uma parte de Vizela e da sua sociedade, Gabriel Coelho Dias não podia fechar da melhor forma o seu manuscrito ao homenagear o poeta Bráulio Lauro Pereira da Silva Caldas com dois dos seus poemas, datados um de 1885 e outro de 1887, este último pela sua singeleza merece ser tratado assim: “Foge lua envergonhada Retira-te lá dos céus Que os olhos da minha amada Têm mais brilho do que os teus.” Em nome da memória, cumpri o meu dever. Até sempre,