
Vizela e o bicentenário de Camilo: uma oportunidade desperdiçada?
Duarte Silva
2025-05-16Este ano assinala-se o bicentenário do nascimento do célebre escritor português Camilo Castelo Branco, um dos mais influentes escritores da língua portuguesa. Na sua edição de 14 de março, o conhecido jornal português Expresso publicou “Um roteiro de Camilo Castelo Branco pelo país: da cela de cadeia à igreja onde casou”, destacando locais de Portugal retratados nas suas obras, partilhando também dicas sobre o que visitar nesses mesmos locais.
Surpreendentemente, Vizela não está incluída no roteiro. Isto apesar de Camilo ter passado algum tempo na cidade e de ter descrito a sua paisagem idílica e as suas termas no livro “Novelas do Minho”. O município reconhece a importância do escritor e até tomou algumas medidas para destacar a sua ligação ao escritor, incluindo a construção de uma estátua no centro da cidade. Mas será isso suficiente? Até agora, não há qualquer iniciativa anunciada para assinalar esta data. Pode-se apontar o dedo ao Expresso por ignorar Vizela, mas o município também não parece estar a fazer nada para mudar essa situação.
Enquanto isso, aqui ao lado, Famalicão organizou um congresso internacional sobre Camilo que integra um programa mais vasto que se estenderá até 2026, com reedições, edições críticas, e eventos que vão do teatro e dança ao cinema, gastronomia e até ópera. Fafe, por outro lado, inaugurou um centro interpretativo camiliano, com direito a uma bela recriação histórica.
Este tipo de evento poderia ser replicado em Vizela, especialmente para atrair o público brasileiro, tradicionalmente grande leitor de Camilo. Embora uma realidade diferente, Bath em Inglaterra (também cidade termal) aproveitou a sua ligação com Jane Austen, sendo hoje em dia um pólo turístico de renome ao conseguir transformar o seu legado literário num poderoso motor económico.
É natural que Famalicão, por ser a casa do Centro de Estudos Camilianos, tenha uma programação mais extensa. No entanto, Vizela não se pode dar ao luxo de ficar fora desta conversa. Os setores industriais mais fortes de Vizela, têxtil e calçado, enfrentam atualmente grandes desafios e continuarão a fazê-lo no futuro próximo.
Um estudo da CIP (Confederação Empresarial de Portugal), prevê que a região Norte perderá 90 000 empregos industriais entre 2016 e 2030, com quase 40 000 no setor têxtil. Este impacto será particularmente sentido em Vizela, o município do distrito de Braga com a maior percentagem da população empregada na indústria transformadora.
Por isso, é essencial diversificar a economia e aproveitar todas as possibilidades. O município tem investido no turismo, com os passadiços e a promoção do bolinhol, mas um evento tão relevante como o bicentenário de Camilo não pode passar despercebido. Com o turismo em alta, Vizela tem aqui uma oportunidade única para se afirmar.
Alguns municípios estão a aproveitar esta oportunidade, Vizela fará o mesmo?





