Santa Eulália em 1758

Júlio César Ferreira

2022-12-07

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(Porque tenho para mim que é deveras importante e até interessante, conhecer a realidade das nossas terras há muitos anos atrás, tenho de uma forma leve e delicada, despretensiosa e quiçá, agradável, trazido aos leitores deste semanário, as memórias paroquiais de 1758 que são o resultado de um inquérito realizado a todas as paróquias de Portugal, a mando de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal.
Depois de S. Miguel das Caldas, desta feita convido os meus leitores a “visitar” Santa Eulália, então chamada de Barrosas) 

Santa Eulália de Barrosas

Padre Manuel Machado da Silva, pároco de Santa Eulália de Barrosas, termo da vila de Guimarães, do Arcebispado de Braga, em satisfação de uma ordem deambulatória do muito reverendo Senhor Doutor Provisor da cidade de Braga, em que mandava responder aos interrogatórios do mapa incluso, ao qual respondo na forma e maneira seguinte.
Ao primeiro, fica esta igreja na província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado de Braga, comarca secular e termo de Guimarães.
Ao segundo, é terra de el-rei meu senhor.
Ao terceiro, tem duzentos fogos ou vizinhos, e tem seiscentas pessoas de sacramento.
Ao quarto, está situada num baixo encostado ao monte Pena Besteira, da parte do Poente. Nada se descobre dela. Tem de distância, ao todo, uma légua.
Ao quinto, não tem termo seu, tem oitenta e quatro lugares ou aldeias.
Ao sexto, está a igreja no meio da freguesia. Tem os lugares acima, que são: Igreja, Assento, Casais, Cruz, Devesinha, Senra, Boavista, Bouça, Cobelo, Cabo, Pomares, Campo da Eira, Sá, Ribeiro, Acelho, Março, Souto, Venda, Pereiras, Portelas, Bouças, Barreira, Lamela, Barreiro, Herdade, Vinha, Portelo, Entre-as-Vinhas, Latada, Eiras, Gotinha, Eira Vedra, Sernugueira, Fundo, Quintã, Quinteiro, Passo, Lavandeira, Costa, Carreira Chã, Água Coada, Campo, Devesinha, Telhado, Quintela, Ramada, Outeiro, Taipa, Torre, Casa Nova, Penedos, Rio, Cabreiro, Bouça, Pomarelho, Outeiros, Pulo, Formigosa, Vilas Poucas, Pousada, Bouça, Mó, Ramilho, Prados, Caselho, Monte, Bouço, Carreira, Bairro, Fontes, Quintais, Souto, Porta, Mandamentos, Nogueira, Carreiro, Souto Longo, Mondinho, Romprelhas, Forno, Rabordelos, Pias, Riqueixos, Ermida.
O orago é Santa Eulália. Tem cinco altares, o do Sacramento, o da Padroeira e Santo António, o da Senhora do Rosário e São Brás, o das Almas e o de São Sebastião e Nome de Deus e o da Senhora da Purificação, São Gonçalo e Santa Tecla. Tem cinco portas, uma principal e três travessas e a da sacristia. Tem três capelas. Uma de Santa Ana, em Sá, outra da Senhora das Necessidades, no Bairro, outra na Ermida, de Santo Aleixo.
Todas estas capelas estão reedificadas de novo e ficam nos limites da freguesia e não tem romagem nenhuma delas, excepto a do Bairro, em dia de Santa Luzia, que tem na dita capela. E não há irmandades, excepto, na igreja, a irmandade das benditas Almas, e fica respondido ao décimo quarto.
Os frutos desta terra são pão e vinho em abundância. E também dá de todos os mais legumes e criações de gados, porque, como são a maior parte deste povo lavradores, são ardilosos em tudo o que podem fazer algum lucro. Não tem juiz ordinário, mas sim juiz secular da vila de Guimarães e sua Câmara. E, no eclesiástico, a cidade de Braga. 
É terra de V. Alteza Real Majestade.
Serve-se esta terra do correio de Guimarães, que fica distante desta freguesia légua e meia, vem nas segundas e parte nas quintas.
Dista da cidade de Braga, cabeça do arcebispado, quatro léguas e meia e de Lisboa, cabeça do reino, sessenta léguas.
Tem três privilégios de Nossa Senhora da Oliveira, Um em Sá, outro no bairro, outro na Taipa, todos incorporados em suas fazendas ou terras,
O terramoto fez grande abalo, porém, pela misericórdia de Deus, nada de maior sucedeu.

Serras

Tem a serra de Chuqueiro, que tem légua e meia, pouco mais ou menos, em redondo. Fica da parte do Nascente. É natural de bom mato de foice. Principia no Bom Jesus, que fica distante meia légua desta parte do Sul. 

Regato chamado Sá

Tem esta freguesia um regato de natural de trutas, e escalos, e enguias. De Inverno muito soberbo e despenhado, no Verão pouca água. Principia na fonte chamada Cruz do Arieiro de Santa Águeda, da parte do Sul, na freguesia de Santiago de Lustosa, que confronta com esta distante três quartos de légua, e depois se aumenta com outros ribeiros e fontes que vêm da freguesia de Santo Estêvão de Barrosas, que também confronta com esta freguesia, carregando a parte do Nascente e vem este regato pelo meio da freguesia e lhe serve de águas a maior parte das terras e vai acabar ao rio Vizela, que passa pelos limites e confins de nossas terras, e nele se mete e terá, de onde principia até onde acaba, perto de uma légua. Corre para a parte do Norte.
Fica esta freguesia entre montes, da parte do Nascente Chuqueiro, do Poente Pena Besteiro, monte de Saganho, mais que de longe, da parte do Sul, monte Riqueixos de Leirosa, da parte do Norte, o monte São Bento, de mato.  É de bom temperamento e há nesta terra gados de bois e bestas e ovelhas, e abelhas, e cabras, e coelhos, e lebres, e perdizes, e pessoas de todas as castas, suposto não há reais, nem estrangeiros.
Rios

Ao primeiro, já tenho dito que não há mais que este regato. Saem muitos regos para regar as terras. Chama-se o regato de Sá. Tem este regato muitos moinhos e levadas para eles, e tomam as suas águas para os campos, tem uma ponte de pedra no ribeiro de Sá, e outras pinguelas de pau, em três ou quatro partes, tudo no termo desta freguesia. Tem este regato um moinho de pão no lugar de Sá e acaba o regato no lugar chamado Vadinhão da Venda.
Hoje está um brasileiro que é provido de bons bens e homem perfilhado de V. Alteza Real Majestade, com hábito de Cristo e não há nesta freguesia pessoas de maior distinção, só sim a maior parte lavradores e gente cristã velha.
Cultivam-se muitos campos com árvores de vinho e outras que não têm nada.
Tem esta freguesia bastantes fontes e, se pode dizer, cada lugar tem uma. As mais principais são a fonte do Bairro, e a fonte do Monte, e a fonte de Quintela.
E nada mais sei do sobredito, que por verdade conferi com os reverendos se Santa Comba de Regilde e de Santo Adrião de Vizela, abaixo assinados.

Santa Eulália de Barrosas, doze de Abril, de mil setecentos e cinquenta e oito.

O vigário Manuel Machado da Silva.
O abade Rodrigo de Sousa Lobo.
O abade José Monteiro Vaz.