Rua Dr. Armindo Freitas Ribeiro de Faria

Júlio César Ferreira

2020-07-02

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Segundo um Ensaio de Rui Passos Rocha, há 276 mil artérias com 82 mil nomes distintos no país. Um passeio pela toponímia do país, da Rua Atlântida ao Largo da Cerveja, passando por Sá Carneiro, Cunhal e Salazar. Podemos ver a Canada do Ceguinho, em Ponta Delgada, ou a Praceta Karl Marx, na Baixa da Banheira. Podemos estar num banco do Jardim do Bacalhau, em Chaves ou num terraço da Urbanização Doce Vida, em Lagos, ou até nas Bombinhas, em Castelo de Paiva. O mais provável, porém, é que estejamos numa Rua da Igreja: mais de metade das artérias de Portugal são Ruas e a designação mais comum é Igreja, que perfaz 1.611 topónimos no país.  Não é de admirar, portanto que este tenha sido um meio mais utilizado através do qual se homenageiam e perpetuam personalidades, factos e tradições. É quase senso comum que se conheces alguém com uma rua com o seu nome, então conheces alguém importante. Da mesma forma, se vives numa rua com o nome de alguém muito importante, provavelmente a tua rua é das mais importantes da tua terra. Ciente dessa importância e da influência que tem para cada um nós o viver “naquela” rua, desde há um tempo a esta parte, tenho vindo a rabiscar uns despretensiosos artigos, sobre algumas personalidades nados ou criados em Vizela e que “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Armindo Freitas Ribeiro de Faria, foi uma dessas personalidades e nasceu na Freguesia de S. João das Caldas no dia 6 de Março de 1866, filho de Joaquim Freitas Ribeiro Faria, de profissão negociante e de sua mulher Ana Emília Gonçalves de Freitas. Neto paterno de Francisco de Freitas e de Maria Ribeiro de Freitas e materno de Bento Gonçalves Vieira e Ana de Freitas, segundo podemos ver no seu assento de batismo realizado a 7 de Março de 1866, assinado pelo Abade António José Félix Gomes. Filho de gente abastada para a época, terminados os estudos primários e liceais, foi estudar medicina para Coimbra. Em 1890, com 24 anos somente, apresentou a sua tese de licenciatura, na Escola Médico - Cirúrgica do Porto, com a já celebre Dissertação Inaugural “ Vizela e as suas Minerais”. Possuo um exemplar desta magnifica obra e fico fascinado com as dedicatórias, mencionadas na obra, não só aos seus pais e irmãos e outros familiares, mas aos diversos lentes da Escola Médica do Porto, nomeadamente ao seu Director Conselheiro Manuel Maria da Costa Leite (Visconde de Oliveira) e a todo o Corpo Catedrático. Consultando Júlio Damas (pseudónimo do ilustre Professor Francisco Armindo Pereira da Costa) - Ad Perpetuam, 1965 - pag. 62, lemos: 3º Pedido “O Ilustre Médico e Bairrista Vizelense Dr. Armindo de Freitas Ribeiro de Faria, e ainda outros Vizelenses, firmados em promessas de políticos amigos seus, esboçaram o 3.° pedido de independência em 1905. Fora imposta a construção da futura sede do novel concelho. Deste modo o Dr. Armindo de Freitas R. de Faria, comprometendo a sua fortuna pessoal, mandou construir o edifício que serviria de Paços do Concelho, o Castelo da Ponte, corno o vulgo ainda hoje o conhece. Ficou concluído em 1906 e tem, ainda hoje, capacidade suficiente para abrigar todas as repartições necessárias a uma Câmara, Fazenda, Tribunal, Polícia, etc. Nos baixos do mesmo edifício ficariam instalados depósitos, garagens, armazéns, habitações, etc. Custou essa construção ao preclaro vizelense 60 contos ouro, e, na parte superior 1º andar e 2º e 3.° andares do torreão, está actualmente instalado o Externato de Vizela”. Na obra citada, Júlio Damas, diz - nos que este edifício foi construído para ser sede do concelho e que a sua construção tivera inicio em 1905. Li e consultei diversa documentação sobre este “Castelo” e vi algumas reticências acerca do tempo de construção, (somente um ano) o que, de facto, me parece manifestamente pouco tempo, para construção de obra tão imponente. Diz - nos ainda, Júlio Damas, que em 1905 foi feito o 3º pedido para elevação de Vizela a Concelho. Aqui permito - me fazer uma correção ao distinto professor. Em 1905, não foi feito o 3º pedido como afirma no seu Ad Perpetuam, mas sim o 4º, dado que o 1º, não foi em 1869 como aponta na obra citada, mas sim em 1852, segundo um precioso documento que adquiri recentemente, assinado por ilustres vizelenses da época e pelos responsáveis das 19 freguesias que fariam parte. É um documento manuscrito composto de 19 páginas, com um mapa desenhado à mão com a indicação de todas as freguesias, suas confrontações e limites, de inegável valor para a história de Vizela e que vem repor alguma verdade, principalmente no que concerne ao elevado numero de vezes, com que os vizelenses, principalmente no século dezanove e século vinte, exigiram dos poderes vigentes, atenções e reparações não só pelo seu desejo de emancipação, mas também como denúncia, pelo desleixo e incúria como sempre foram tratados por quem geria o concelho a que pertenciam e que todos os documentos da época nos ilustram. Porém, numa memória descritiva daquele espaço, feito pela CMV, aponta - nos não aquela data, mas sim, muito provavelmente, a data de 1898. Teria então o Dr. Armindo Freitas Ribeiro de Faria, somente 32 anos e não me parece crível que - aquela data - tivesse “gasto toda a sua fortuna”, como mais uma vez nos diz Júlio Damas, a não ser que essa fortuna fosse cedida por sua pai, Joaquim. Como dar nomes a ruas é o meio mais utilizado através do qual se homenageiam e perpetuam personalidades, gostaria que o banal Armindo Freitas, nome da Rua que vai desde a Rotunda dos Lions, (como podemos ver numa insignificante placa “pendurada” numa das paredes laterais do “castelo” embora aqui, agora, um pequeno beco, sem jeito e préstimo) até à Rua de S. Paulo, passando pela Rua da Taipa e Rua dos Casais, depois de passar sobre o túnel da Circular Urbana de Vizela, tivesse um nome digno do seu patrono: Dr. Armindo Freitas Ribeiro de Faria. Penso que ficaria muito melhor se esta rua, atendendo ao reparo atrás, tivesse inicio somente na Rua Comendador Joaquim de Sousa Oliveira, outro vizelense a quem Vizela muito deve e de quem me ocuparei num dos próximos artigos.