Retratos à La Minuta - XLII

Em memória de Domingos Pedrosa

2021-01-07

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O retrato que vamos mostrar hoje, é de um santo, dum santo que viveu quase quinhentos anos, antes da nossa nacionalidade, já que nasceu aí por 640. Estamos a falar de São Torcato. Descendia da nobre família romana “Torquatus Romanus”, que foi, aclamado arcebispo de Braga e pouco tempo depois, do Porto e de Dume, no concílio de Toledo, em 693. Refere a história que em 711, os muçulmanos entraram na Península Ibérica comandados pelo seu melhor general, para conquistar toda a região e espalhar o culto a Alá e Maomé. Mas o exército invasor, enraivecido, encontrou a resistência do arcebispo Torcato, disposto a lutar e a defender as suas crenças, com os seus companheiros. O arcebispo vendo chegar o exército muçulmano, fez-lhe um discurso com a sua habitual eloquência, expondo e defendendo a verdade cristã. O general “Muça”, embriago pelos seus ensinamentos de Maomé, ouviu-o até ao fim, e depois cumpriu o que Maomé escreveu no corão: “Aquele que não acreditar na minha doutrina, matai-o”. Desembalha a espada e atinge com um só golpe fatal, Torcato, fazendo o mesmo aos companheiros. Segundo a história, tudo aconteceu em fevereiro de 719, dizendo ainda que muito mais tarde, o corpo de São Torcato foi encontrado íntegro num bosque, no meio das silvas e de um monte de pedras de onde brotou uma fonte caudalosa que ainda hoje jorra com força, conhecida como fonte de São Torcato (fonte do santo) de conhecidas àguas milagrosas. Há muitos anos, Armindo Cachada, bem conhecido jornalista, escreveu isto no Jornal de Notícias: “... assim relatou uma devota sobre a descoberta do corpo de São Torcato, que não sabiam que era ele, mas, ficaram a saber quando um homem desinçava o silvado e ao dar uma sacholada na cara do santo – ainda tem a marca – se ouviu uma voz: cuidado que está aqui o Torcato. Retiraram o corpo, mas não havia água para o lavar. Brotou, então. Milagrosamente, uma fonte de água cristalina”. No local foi construída uma capelinha em honra do santo, que hoje se encontra numa câmara de vidro, no santuário de São Torcato. E à terra que seria de Santa Maria, passou a chamar-se de São Torcato, segundo os manuscritos e Mumadona Dias. Em 1173, D. Afonso Henriques deu carta de couto a D. Prior de São Torcato, e 100 anos depois, o Papa Inocêncio V, conferiu por bula o Mosteiro de São Torcato, às regras de Santo Agostinho. Antes das promessas e idas a Fátima, era o santuário de São Torcato o mais visitado. Era o santo de maior devoção popular. Era o santo a quem se pedia tudo. Já contei isto, mas como vem a propósito, e como certamente há sempre alguém que não sabe, vou repetir. Num dos volumes das “farpas” de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, eles contam que numa vinda a Vizela encontraram o velho Maia (avô, ou bisavô, do nosso amigo Fernando Kapa) careca, lamentando-se por São Torcato não o ter ouvido. Tinha-lhe prometido, se o cabelo lhe voltasse a nascer, e foi lá levá-la porque lhe pareceu que estava, meia libra comprada com o dinheiro da venda de uma rima de cavacos que tinha para passar o inverno, do porco que matava todos os anos e das gorjetas que tinha juntas no migalheiro (transportava as malas dos banhistas, da estação para o hotel). Deixa lá, Maia – disse-lhe o sarcástico Eça – para o ano vamos trazer-te uma cabeleira postiça, vais pô-la, e depois vamos os três a São Torcato. Também quero ver a cara dele, quando te vir com cabelo! ------ remate - Hélder Saúde no futebol e para todos Aqui neste mesmo espaço já referi que sinto muito os problemas que ocorrem no desporto em particular, mas quando eles dizem respeito à saúde então fico manietado. Lembro-me que nas últimas intervenções que tive em rádio “só” desejava a todos os nossos ouvintes: saúde. Porque não me parece que se possa desejar muita saúde, desejava apenas saúde. Depois de um ano tão atípico onde deu para pensar e perceber que havendo saúde tudo o mais parece supérfluo e redutor, este mesmo final de semana ficámos tocados pelas notícias que saíram quase em simultâneo. Alex Apolinário, jogador do Alverca, que há dois anos ficou conhecido pelo golo que marcou ao Sporting em eliminatória da Taça de Portugal, foi notícia pelas piores razões; durante o jogo da sua equipa caiu inanimado e apesar da rapidez com que se procederam às manobras de reanimação, apenas se sabe que se encontra em coma induzido e com prognóstico muito reservado, teme-se que o atleta possa ter lesões cerebrais. Desejar que recupere e que possa ter uma vida normal é o mínimo que podemos pedir ao Deus que acreditarmos porque é de uma vida humana que se trata, independentemente da nacionalidade, da fé, do clube representado. Para mim este tipo de situação é sempre um choque porque a 25 de janeiro de 2004 estava a umas dezenas de metros de Miklos Fehér quando este tombou pela última vez. Ficar inerte, sem reação e sem poder fazer rigorosamente nada é o que toma conta de quem assiste e as preces de todos devem estar com o Alex para que tenha força e que continue a lutar pela vida, o melhor que temos, tão fugaz e passageira… A outro nível, mas também a passar por um momento de saúde muito delicado encontra-se Diogo Casimiro, jovem promessa dos arsenalistas que teve de interromper a carreira na equipa B para tratar a doença. Infelizmente, e apesar de praticarem desporto, levarem vidas regradas e estarem aparentemente saudáveis, o azar pode bater à porta de cada um, mas neste caso concreto, porque é jovem e porque tem muita força e com certeza vai ter muito apoio de familiares e amigos o Diogo vai conseguir ultrapassar este momento negativo que se colocou na sua vida. Eu quero acreditar que ambos, como tantos outros, vão sair com muita força destes entraves no seu caminho e vão poder desfrutar da vida tal como ela deve ser vivida: pensando sempre em ser feliz dia após dia pois pensando bem, só temos uma passagem por cá, por isso há que evitar inimizades e procurar darmo-nos sempre bem com o máximo de pessoas possível.