Retracte-se e demita-se, Sr. Presidente do Concelho de Vizela

Eugénio Silva

2021-02-18

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Daqui por um mês, comemorar-se-á o 23.º aniversário da Restauração do Concelho de Vizela. E o 19 de março de 1998 alcandorou -se como uma das datas mais significativas da História de Vizela, se não mesmo a mais importante. Ao longo de 22 anos, festejou-se a vitória de um povo e de uma terra que, sob direcção de um punhado de incansáveis vizelenses, cuja virtude maior consistiu em manter bem viva a chama da fé independentista, lograram a sua emancipação administrativa do jugo vimaranense. Ininterruptamente, ano após ano, celebrou-se os 146 longos anos de combate pela causa autonómica e o histórico triunfo do povo de Vizela alcançado frente à poderosa brigada opositora vimaranense – os afamados figurões do calibre de Marcelo Rebelo de Sousa. Com muito orgulho, alegria e satisfação, assisti a todos os festejos comemorativos oficiais, excepto aos do ano transacto devido ao estado de emergência em vigor. Este ano, com muita tristeza, mesmo que aconteça folga ou abolição das medidas restritivas impostas pela repetição do estado de emergência, sinto o dever e a obrigação de optar pela ausência. É que, só em pensar assistir a comemorações oficiais presididas por um presidente de câmara que, volvidos 23 anos de autonomia, ousou, premeditadamente, apoiar a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa às Presidenciais de 2021 - um duro e confesso opositor da restauração do concelho de Vizela - já me estimula profunda repugnância: e basta imaginar ouvi-lo a discursar, enquanto concluía que as suas homenagens ao povo de Vizela e a Manuel Campelos mais não foram do que tremendas farsas carregadas de hipocrisia, para me provocar a agonia da náusea.  

O seu ignominioso apoio a Marcelo Rebelo de Sousa acaba a fortalecer o empenho e a vontade de certos segmentos da sociedade vizelense em apagar o passado recente. Mas as crónicas da História não aceitam retoques cosméticos, mostrando-se, eternamente, prontas e disponíveis para o recordar com verdade, tanto no presente como no futuro, E não é mentira que Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto presidente do Partido Social Democrata [19/03/1996 a 01/05/1999], tudo fez para que Vizela nunca se emancipasse da tutela vimaranense. Não cansará relembrar que, em vésperas da discussão e votação na Assembleia da República dos três Projectos-lei (CDS-PP, PCP e PS) relativos à criação do Concelho de Vizela, quando já era garantida a maioria que acabou por o aprovar através da votação final e global da Lei 63/98, Marcelo, friamente, ordenou ao seu grupo parlamentar que votasse contra. Quando se esperava um sinal seu, uma acertada decisão que contemplasse a abstenção, o que significaria elevada sensatez política que acabaria a conservar a face do seu partido, optou por agradar os influentes barões do PSD, poderosos adversários da nossa autonomia, não o preocupando abandonar os honrados sociais-democratas vizelenses, alguns meus amigos e indefectíveis companheiros de árduas lides pela causa autonómica, ao vexame e à ignomínia com tão inepta decisão. Por que não repetiu tal comportamento político aquando a criação do concelho da Trofa e de Odivelas?

Dir-me-ão que, em democracia, todo e qualquer cidadão goza o direito de, livremente, apoiar e votar o partido ou o candidato que mais lhe agradar. É verdade, mas não menos verdade será, quando um cidadão acaba eleito presidente de um município, que a sua Liberdade, ao relacionar-se com responsabilidades acrescidas, fica condicionada a princípios e limites éticos. Quando eleito terá de assumir responsabilidades públicas e governativas equilibradas, condicionando-lhe o uso de opiniões radicais e atitudes fracturantes ou sectárias; quando eleito espera-se a elevada moderação, equilíbrio, bom senso racional, capacidade conciliadora e postura diplomática capaz da observância da neutralidade e equidistância, a forma ideal de se evitar ou prevenir os antagonismos ou conflitos sociais. Ora, ao romper a devida atitude neutral e equidistante e optar pelo infame apoio público à recandidatura de Marcelo, o presidente do município de Vizela mostrou total desprezo por quaisquer destes princípios, traindo Vizela.
Mesmo que, em termos estritamente políticos e diplomáticos, se possa considerar defensável e benévola a sua ameaça pública de boicote municipal às Presidenciais de 2021, proclamada no verão de 2020, tendo em consideração o contexto em que foi proferida (compreende-se e comunga-se a raiva provocada pela persistente poluição do Vizela), no referente à sua premeditada decisão de apoio público ao candidato Marcelo Rebelo de Sousa (uma reviravolta de 360 graus) fica-lhe interdita essa condição Neste processo agiu muitíssimo mal e erradamente. E, em termos diplomáticos, seria até muito lisonjeiro considerar o seu infame apoio a Marcelo Rebelo de Sousa como ato lamentável, decisão desastrosa ou erro político. Ao deter a presidência da câmara municipal de Vizela estava obrigado a deveres e obrigações de lealdade a Vizela. Por isso, o seu deliberado apoio a Marcelo, objetivado na estratégia do grandioso retorno ao PS, terá de ser classificada de alta traição a Vizela.

A História da Luta Autonómica de Vizela aguarda pelo seu autor. Mas quando for dada à estampa, em retrato sério, rigoroso e isento, mostrará não só o poderoso e implacável grupo de personalidades opositor da causa vizelense como também o repugnante grupo interno que àquele se aliou. E para que o Sr. Presidente do Município de Vizela não venha a integrar este último sem nenhuma atenuante, apelo a um qualquer micro átomo de honradez e sentido de dever que ainda lhe possa restar no mais fundo da sua alma que o leve a retractar-se e a demitir-se. Mereceria, assim, rasgado elogio público e colheria o elevado respeito dos seus concidadãos.