Remate Certeiro 18.06.2020

Manuel Marques

2020-06-18

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Dizem que a ingratidão tem milhões de anos, porém ela será muito mais antiga já que Adão e Eva não souberam ser gratos para um Deus que tudo lhes ofertou no Éden de mão beijada. As pessoas que não sabem ser gratas a quem lhes proporcionou o próprio pão não são dignas de respeito, não merecem que amanhã a mesma mão carinhosa as ajude. Como em vários setores da vida, o desporto também está pejado de ingratos, de gente egoísta até ao tutano que vive majestosamente à custa dele, mormente do futebol, mas que em lugar de ser reconhecida, o tratam mal tornando espetáculos belos e que deviam ser focos de partilha e amizade, em campos de batalha e chorrilho de asneirada. Assim temos, cada vez menos, quem goste de futebol, mas também um futebol de e para gente das cavernas, reflexo da sociedade em que vivemos, ampliado por um qualquer instinto animal, capaz de transformar o mais racional e inteligente individuo num troglodita. Eu conheço gente formada em reconhecidas universidades, doutorada e outra pregadora de moral, que não consegue manter uma conversa sobre futebol sem vomitar ódio, soberba, ingratidão para um desporto tão belo e irracionalidade. Há pouco tempo li num jornal as declarações de um pai que dizia jamais deixar as suas filhas namorar com alguém duma cidade portuguesa vizinha onde existe um clube rival do seu. Fiquei varado. Isto é descabido. Estes não gostam de futebol e deixam sérias dúvidas se amam o seu próprio clube porque o fanatismo, seja ele porque for, é tudo menos amor e paixão. No mínimo o que estas pessoas (e aqueles que agridem os seus jogadores) sentem é um sentimento de pertença (do que afinal não é só seu) uma falta de cultura desportiva que descamba num ódio visceral e tribal pelo próximo. E todos, clubes e governos, assobiam há muito para o lado como se nada fosse com eles. Seria incultura e falta de conhecimento dizer que estes males que ensombram o futebol são apenas de hoje. Não são, porém, hoje o que é mau tem maior ressonância. Por isso ninguém estranhe que os jogadores cada vez se habituem mais a jogar para o cimento e betão dos estádios vazios. A galinha dos ovos de ouro está a morrer. Este ano para mim o futebol de interesse terminou em março e no dia 02 de maio a alegria foi total com o FC Vizela, em plena pandemia, a acusar positivo para a II Liga. A única dúvida que temos é que futebol (e quando) esta peçonha pandemia nos deixará ter no plano geral. Pé sempre atrás, cuidado com os ramos verdes e apodrecidos porque deste e de outros vírus não se pode esperar gratidão ou compaixão. Basta ver o que estão a fazer uns e outros ao futebol. É o que temos!