Que saudade do meu velhinho despertador…

Vítor Monteiro

2022-06-17

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Com as suas duas campânulas a encimar um mostrador com três ponteiros (quase numa alusão à Santíssima Trindade), ponteiros que percorrem doze pontos duas vezes por dia (que perfazem vinte e quatro pontos, ou horas, que se manifestam também na roda dentada do ROTARY) e que só funcionam se eu lhes der corda.
E entre essas campânulas um martelinho que só funciona se eu lhe der corda, e que bate na campânula da direita e da esquerda igualitariamente até ao fim da corda ou até eu o parar.
Do acordo tácito que tinha com ele, em que lhe dava corda e ele me acordava, proporcionalmente, tenho saudade…
 Todo esse procedimento era um cerimonial (quase como ir à missa e comungar) que se perdeu. 
Kafka disse: “Leopardos penetram no templo e bebem todo o conteúdo dos vasos sacrificiais. Isto repete-se constantemente, até que passa a ser possível prevê-lo, e acaba por se tornar parte da cerimónia.”
Grande corda dei aos leopardos. E eu:  “miau” ou (ámen).
Hoje esses três ponteiros já não me acordam, nem sei se acordo ou se quero acordar…
Quanta corda tenho hoje para dar e para viver?
“É ridículo o modo como me aparelhei para este mundo” – Kafka
Vivo/tenho hoje novos cerimoniais, novos leopardos, novos despertadores.
Mas no fim do dia já não tenho corda para dar às cerimónias, os leopardos esticaram a corda ao limite e os novos despertadores arrebentaram com ela.
Meu velhinho despertador acorda que tenho saudades…
Desperta meu velho despertador, desperta este velho miador que não quer ser leopardo, desperta este fiel seguidor que não quer ser aparelhado.
Dá-me corda para acordar, dá-me corda para viver, dá-me corda em nome do Pai do Filho e do Espirito Santo.
Ou então deixa-me dormir, desemparelhado, desacordado, ronronando…
Que horas são?
Miauuuuuuu…….