Podemos não ser os melhores, mas somos diferentes….!

Cipriano Alves

2021-10-07

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Moçambique herdou o nome de uma pequena ilha a Norte de Sofala. Mantendo ainda hoje o nome, é considerada como um dos mais fortes testemunhos da presença portuguesa na costa oriental de África.
Com ocupação humana conhecida desde o Séc. III, o desenvolvimento da estrutura hierárquica e social dos povos autóctones foi acontecendo através do contacto mercantil de Árabes e Suailis.
A primeira vez que é atestada a presença portuguesa na costa moçambicana dá-se em 1498 aquando da viagem de Vasco da Gama à Índia.
Sete anos mais tarde, em 1505, inicia-se a progressiva fixação, penetração e exploração portuguesa e em 1544, o piloto Lourenço Marques, funda a  cidade com o seu nome, que viria a ser nomeada capital em 1898. Com a independência do território seria alterado para Maputo, nome do rio que desagua na sua baía.
A partir do Séc.XVII, com a fixação de mercadores, ex-soldados desertores, fugitivos à justiça e aventureiros é definida a base inicial do domínio colonial português e é imposta uma organização administrativa e religiosa apoiada numa estrutura militar rudimentar que se manteve até a carreira da Índia perder a sua importância. Esta estrutura militar e mercantil ficou conhecida como “Prazos” e os indivíduos seus constituintes denominados como “Prazeiros” cobravam impostos em ouro, marfim e escravos.
A fixação portuguesa foi lenta e desenvolveu-se ao longo dos 2470 km da sua costa. A colonização só foi verdadeiramente implantada depois dos Ingleses, através do seu “ultimato”, nos ter feito desistir da intenção de ocupar os territórios entre Angola e Moçambique.
É a partir dos anos vinte do século passado e com a implantação do Estado Novo, que se assiste a uma verdadeira e enorme alteração da realidade económica e militar de Moçambique, que se desenvolve até à sua independência, em 25 de Junho de 1975.
Em 1993, os militares portugueses voltaram a Moçambique. A pedido das Nações Unidas (NU), Portugal contribuiu com um Batalhão de Transmissões para a Operação das NU em Moçambique (ONUMOZ), com a missão de instalar e manter um sistema de comunicações que garantisse o Comando e Controlo das forças pertencentes ao contingente internacional instalado no país.
De acordo com o planeamento então estabelecido, as três Companhias do Batalhão português foram posicionadas nas proximidades de Maputo, Beira e Nampula.
Tendo iniciada a sua actuação nos princípios de Maio e porque um jornal de Lisboa levantou algumas dúvidas sobre a qualidade do equipamento que dotava a nossa força, como coordenador de todo o seu planeamento, fui enviado a Moçambique em meados do mesmo mês, em missão de inspecção técnica. As dúvidas foram, na altura, totalmente elididas como noutro meu escrito desenvolvi e explicitei. Na primeira visita que efectuei à Companhia estacionada na Matola, povoação dos subúrbios de Maputo, a ementa do dia consistia em sardinhas assadas, acompanhadas de saborosa broa de milho. Enquanto degustava este pitéu, tão português, reparei em alguns militares de feições orientais, divertidíssimos que procuravam comer as suas sardinhas equilibrando-as em apetitosos nacos de broa.
Estranhando a sua presença, fui informado que pertenciam a um Pelotão Japonês que tinha a missão de controlo de movimentos. Tendo-se instalado num hotel de Maputo, o General brasileiro Comandante das forças ONUMOZ, tinha determinado que, por razões de segurança e de aproveitamento de infra-estruturas existentes, tinha de escolher uma força junto da qual manteria o seu acampamento. Percorridos os estacionamentos das forças com possibilidade de cumprir a intenção pretendida, os militares japoneses escolheram a portuguesa.
O relacionamento desenvolvido foi tão rico, intenso e amigável que, após algumas visitas de entidades japonesas da mais alta hierarquia, o Governo Nipónico fez chegar ao Governo Português pela via oficial diplomática o seu agradecimento e do povo japonês, pelo cuidado, atenção e simpatia com que os seus militares estavam a ser tratados pelos seus congéneres portugueses.
De facto, podemos não ser os melhores, mas somos diferentes….!
A segunda Companhia que visitei encontrava-se no Dondo, nas proximidades da cidade da Beira.
Chegado ao aeroporto da cidade, uma viatura militar portuguesa aguardava-me para me transportar ao estacionamento da Companhia. Durante o percurso verifiquei que os militares portugueses que me acompanhavam estavam desarmados. Outro tanto não se verificava com as viaturas que connosco se cruzavam pertencentes a uma Brigada Operacional de outro país e que as nossas forças apoiavam nas comunicações. Estas deslocavam-se com maior segurança, ostentando as metralhadoras nelas instaladas. Posteriormente constatei que o acampamento português não dispunha, para além da natural segurança humana, de quaisquer meios físicos de segurança periférica. Uma simples fita de plástico colorida, servia para delimitar todo o seu perímetro.
Na visita de cortesia que fiz ao Comandante da Brigada, verifiquei que o seu estacionamento estava protegido por uma rede de arame farpado, apoiada por várias torres, defendidas por muros de sacos de terra. Durante a conversa de circunstância que estabelecemos referi e salientei a diferença de segurança que tinha assistido e lembrei-lhe que a segurança imediata do estacionamento português era da sua responsabilidade e que este facto, sem dúvidas, constaria do relatório que iria elaborar para informação do Governo Português.
Ouvindo-me atentamente, o General Comandante da Brigada respondeu-me:
- Senhor Coronel escreva o que muito bem lhe aprouver. Este assunto não me preocupa e digo-lhe porquê. Os senhores guerrearam-se durante treze anos e quando as vossas viaturas passam, as pessoas batem palmas e aplaudem. Nós, que estamos aqui numa missão humanitária e de ajuda, as nossas viaturas são assobiadas.
De facto, podemos não ser os melhores, mas realmente somos diferentes…!
Nesta visita tive ainda vários contactos com Portugueses residentes em Moçambique. Num deles foi-me transmitido que uma jovem moçambicana, colaboradora no Paço Episcopal, havia afirmado que se sentia confusa. Enquanto na escola lhe diziam que os Portugueses foram exploradores do povo, em casa, no recatado segredo das suas frágeis paredes os pais rezavam pedindo o seu regresso.
Efectivamente ao longo dos anos, com o colonialismo, muitos exageros foram cometidos, embora o contexto histórico, consiga dar algumas explicações. No entanto houve povos subjugados e economicamente expoliados e muitos outros foram afastados das terras que ancestralmente detinham.
De qualquer maneira, a nossa fácil integração com as gentes naturais dos territórios do antigo Império Português, a nossa reconhecida convivência que sempre estabelecemos com os povos mais estranhos, os valiosos contributos nos domínios da acção educativa, económica e sanitária que sempre fomos criando, merecem ser realçados.
Permitam-me que relativamente a este particular, recorde a escritora brasileira, Ângela Dutra de Menezes ao escrever no seu livro “O Português que nos Pariu” que o “Brasil tem alma lusa”.
Provavelmente não fomos e certamente não somos os melhores, mas efectivamente somos diferentes…