Passadiços: um caminho entre memórias e horizontes futuros

António Gonçalves

2024-03-28


Depois de um inverno atípico, segue-se a estação do reflorescimento e que inspira novos começos, uma época ideal para descobrir paisagens naturais, cobertas de novas cores e sons, acompanhados por temperaturas amenas. As caminhadas pelos passadiços tornam-se num hábito que cada vez ganha mais adeptos. A moda dos passadiços, construídos em madeira, inicia-se com os passadiços do Paiva e de Sistelo e, desde então, foram construídos dezenas deles um pouco por todo o país. Os passadiços do Paiva foram inaugurados em 20 de junho de 2015. Nos primeiros 2 meses e meio receberam mais de 200 mil pessoas. Na região norte de Portugal já são vários os passadiços ao dispor e através deles uma excelente forma de descobrir a região em comunhão com a natureza envolvente e através de uma boa caminhada. Nesta região, existe cerca de sessenta quilómetros de passadiços que percorrem as mais belas paisagens do nosso país, sendo o percurso mais longo com oito quilómetros (passadiços do Paiva e de Esmoriz) e o mais curto com menos de um quilometro (passadiços do Côa). 
A poucos dias de entrarmos na primavera, também Vizela inaugura um percurso em passadiços ao longo das margens do seu rio e da ribeira de Sá, onde a iluminação instalada em toda a sua extensão proporciona uma experiência única durante as caminhadas noturnas. O trilho tem início no Maquias, em zona urbana junto às termas e da ponte romana, e prolonga-se por cerca de seis quilómetros, quase sempre em plataforma de madeira, passando por zonas de campos agrícolas, antes de entrar na floresta, até terminar nas cascatas de Rompecias, em Santa Eulália. Estas cascatas, também conhecidas como "quedas de água de Requeixos", é daqueles locais que acaba por se tornar numa fantástica surpresa, onde a ribeira de Sá se precipita de uma altura considerável por entre uma vegetação exuberante.
A redescoberta destas zonas ribeirinhas, nomeadamente da ribeira de Sá, com um percurso em estado quase selvagem, já era referencia em meados do seculo XVIII. Revisitando as “Memórias Paroquias de 1758” (inquérito realizado a todas as paróquias após o sismo de Lisboa de 1755 e ordenado pelo Marquês de Pombal), encontramos uma  pormenorizada descrição, justificada pela sua importância para a paróquia de Santa Eulália de Barrosas, designação à época:

"Regato chamado Sá. Ao terceiro, tem esta freguesia um regato de natural de trutas, e escalos e enguias. De Inverno muito soberbo e despenhado, no Verão pouca água. Principia na fonte chamada Cruz do Arieiro de Santa Águeda, da parte do Sul, na freguesia de Santiago de Lustosa, que confronta com esta distante três quartos de légua, e depois se aumenta com outros ribeiros e fontes que vêm da freguesia de Santo Estêvão de Barrosas, que também confronta com esta freguesia, carregando a parte do Nascente e vem este regato pelo meio da freguesia e lhe serve de águas a maior parte das terras e vai acabar ao rio Vizela, que passa pelos limites e confins de nossas terras, e nele se mete e terá, de onde principia até onde acaba, perto de uma légua. Corre para a parte do Norte. (...) Ao primeiro, já tenho dito que não há mais que este regato. Saem muitos regos para regar as terras. Chama-se o regato de Sá. Hoje está um brasileiro que é provido de bons bens e homem perfilhado de V. A. Real Majestade, com hábito de Cristo e não há nesta freguesia pessoas de maior distinção, só sim a maior parte lavradores e gente cristã velha, e está respondido ao primeiro, e segundo, e terceiro artigo. (...) Tem este regato muitos moinhos e levadas para eles, e tomam as suas águas para os campos. Ao décimo quinto, tem uma ponte de pedra no ribeiro de Sá, e outras pinguelas de pau, em três ou quatro partes, tudo no termo desta freguesia. E nada do décimo sétimo, e décimo oitavo. E aos mais itens só mesmo nada, só sim tem este regato um moinho de pão no lugar de Sá e acaba o regato no lugar chamado Vadinhão da Venda.” 

Na verdade, os passadiços são uma ferramenta importante para a proteção do passado, contribuindo para a preservação do património natural e cultural da região. Paralelamente, desempenham um papel crucial na promoção do turismo sustentável, na conservação da natureza, no desenvolvimento económico e na melhoria da qualidade de vida das comunidades locais. Tal como em outras regiões, estamos convictos que os passadiços de Vizela converter-se-ão rapidamente num ponto turístico de caráter regional e nacional. E não deveremos ter pudor em tirar o nosso chapéu aos visionários, pois são eles que olham além do presente, imaginando possibilidades e moldando o futuro. Que assim seja!
Passadiços de Vizela - coordenadas GPS do início: 41.373470, -8.311267