Padre Malagrida

Em memória de Domingos Pedrosa

2020-10-15

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Quem não ouviu falar no Padre Malagrida? Vamos mostrar o seu retrato. Jesuíta italiano, dedicado às missões, os seus superiores mandaram-no para o Brasil missionar entre os selvagens, correndo perigos que afrontava corajosamente, dando sempre provas do seu misticismo extravagante que tão fatal lhe havia de ser. Das suas missões não lhe falava senão em vozes misteriosas que o avisavam de que tudo eram milagres e prodígios. Malagrida julgava-se favorito do céu. Em 1727, regeu no colégio dos jesuítas no Maranhão, a cadeira de belas-letras, mas, no, ano seguinte, foi catequizar índios, conseguindo quase amansar uma das tribos mais ferozes do interior do Brasil, a do Barbados, entre os quais fundou uma missão, que teve logo grande desenvolvimento, missionando entre os colonos do Maranhão, Baía e Pernambuco, e foi durante catorze anos que esteve nestes missões de apóstolo do Brasil. Em 1749, veio para a Europa, com a fama de ser um mensageiro do céu, para arranjar doações para os vários conventos e seminários que fundara. Depois de trabalhosas viagens chegou a Lisboa, sendo acolhido como santo, indo em procissão com uma imagem que trazia, para a igreja do colégio de Santo Antão. D. João V que nessa altura estava muito doente, recebeu-o de braços abertos, fez-lhe todas as concessões que desejava e chamou-o para junto de si à hora da morte. Foi Gabriel Malagrida quem assistiu aos últimos momentos do nosso rei. Em 1751, Malagrida voltou ao Brasil, mas não foi bem recebido no Pará, onde governava então, o irmão do Marquês de Pombal. Ficou no Maranhão, não pensando na catequese dos índios, mas missionar entre os cristãos, fundando mais um convento, querendo também, mais um seminário, mas o bispo não consentiu o intento alegando que o concílio de Trento só aos prelados atribuiu esse direito de fundação. Em 1754 voltou a Lisboa chamado pela rainha viúva de D. João V, e encontrou no poder o Marquês de Pombal que não deixando entrar na intimidade da rainha, foi para Setúbal. Mas estava em Lisboa quando aconteceu o terramoto. Esta catástrofe ocasionou um terror imenso na população da capital e um dos grandes empenhos do Marquês de Pombal era levantar os espíritos abatidos. Para isso mandou compor e publicar um folheto escrito por um padre, em que se explicavam as causas naturais dos terramotos e se desviava a crença desanimadora de que fora castigo de Deus e de que eram indispensáveis a penitência e a compunção (sentimento de culpa das desgraças, por se ter pecado). Saiu a campo, indignado, o padre Malagrida, escrevendo um folheto intitulado: juízo da verdadeira causa do terramoto que padeceu a corte de Lisboa no 1º de Novembro de 1755. Neste folheto combatia com indignação as doutrinas do outro que o Marquês fizera espalhar, atribuía a castigo de Deus o terramoto, citava profecias, condenava severamente os que lhe levantavam abrigos nos campos, os que trabalhavam em levantar das ruínas a cidade e recomendava procissões, penitências e sobretudo recolhimento e meditação de seis dias na cartilha de santo Inácio de Loiola. O Marquês de Pombal que não era homem que permitisse tamanho desaforo, mandou queimar o folheto pelo algoz e desterrou Malagrida para Setúbal. Passou-se isto em 1756. Malagrida imaginava que com o seu prestígio de santo podia lutar contra a vontade do Marquês e parece que de Setúbal escreveu mais uma carta ameaçadora, carta que depois do atentado dos Távoras, podia trazer terríveis consequências. Esteve preso por causa disso no colégio da sua ordem em Lisboa, mas, considerado réu de lesa-majestade, foi transferido para as prisões do estado, onde fez traduções de clássicos e outros escritos, que o comprometeram quando o Marquês os mostrou à inquisição, que os considerou heréticos. Foi Malagrida levado para as tenebrosas enxovias da sua santa inquisição que depois o julgou e condenou á pena de garrote e de fogueira, realizando-se o suplício no auto de fé de 21-IX-1761.