Os fins nem sempre justificam os meios

Carlos Alberto Costa

2021-02-18

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Em artigo de opinião intitulado “CADA VEZ SÃO MAIS OS DESILUDIDOS COM O RUMO QUE VIZELA TOMOU. PARA ONDE VAMOS ENTÃO ENQUANTO CONCELHO?” publicado no RVJORNAL, em 07 de abril de 2016, escrevi que “Victor Hugo Salgado, conforme me disse em julho de 2015 no seu gabinete, quer ser candidato pelo PS à presidência da Câmara Municipal de Vizela e, se assim não for, avançará com uma candidatura independente nas próximas eleições autárquicas. Soube até que, na última semana, fez um ultimato nesse sentido ao presidente do partido, Sr. Dinis Costa”.
Como sabemos, Victor Hugo Salgado não sendo a escolha do partido mandou o PS às malvas, desfiliou-se e candidatou-se como independente contra o partido.
Pelo meio montou uma verdadeira estratégia para servir os seus interesses particulares.
Usou e abusou do PSD. 
Durante a campanha eleitoral diziam que “o PSD se tivesse um pingo de vergonha nem se candidatava em Vizela, porque querem ganhar a Câmara para depois acabarem com o concelho”.  Depois das eleições e à falta de uma maioria para governar na Câmara e na Assembleia, o PSD já era bem-vindo e em Janeiro de 2021 até manifestou o seu apoio à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa que, enquanto Presidente do PSD, mandou votar contra a criação do concelho de Vizela.
Foram, como bem disse Dinis Costa, “três anos e meio de achincalhamento e judicialização política contra quem era do PS e pelos vistos valeu a pena”.
Ao longo deste tempo, Victor Hugo Salgado tentou aniquilar a Oposição só porque esta não se curvou perante o poder. A atitude foi sempre de “quero, posso e mando”, o discurso foi sempre de uma agressividade a raiar uma atitude de rufia e a técnica usada é conhecida como “whataboutism” tão usada na antiga União Soviética.
Na última Assembleia Municipal (dezembro 2020) fiz questão de lançar o seguinte repto ao Presidente da Câmara: “O senhor é que se afastou do PS há quatro anos e eu não percebo como é que agora anda atrás de uns rabos de saia em Lisboa à procura de ser candidato pelo PS. Isto é que eu gostava que explicasse e que dissesse ao Dr. Jorge Pedrosa o que é que lhe vai acontecer depois.” 
Fiquei sem resposta.
Na verdade, Victor Hugo Salgado, há uns meses, foi a Lisboa oferecer-se ao PS para assumir, nas próximas Autárquicas,  a candidatura do PS à Câmara Municipal de Vizela. 
Ser candidato pelo PS sempre esteve nas suas congeminações, mas o caso começou a ganhar forma com a promulgação pelo Presidente da República, em 21 de agosto de 2020, do diploma que procede à nona alteração à Lei Orgânica n.º 1/2001, de 14 de agosto, que regula a eleição dos titulares dos órgãos das autarquias locais", aprovada no parlamento, em 23 de julho de 2020, pelo PS e pelo PSD. 
Argumentando que se tratava de alterações "cirúrgicas" ou "clarificadoras", PS e PSD propuseram e aprovaram que, em nome da transparência, um candidato de um grupo de cidadãos apenas pode concorrer a um dos órgãos autárquicos (câmara e assembleia municipal), e não a ambos, nem a mais do que uma assembleia de freguesia. Além disso, a "denominação dos grupos de cidadãos eleitores não pode basear-se exclusivamente" num nome de pessoa que seja candidato.
Autarcas independentes não pouparam nas críticas à nova lei: “cozido à portuguesa”, “corporativismo partidário”, “machada antidemocrática”, “ditadura do centrão”, “discriminatória”, “inconstitucional”, etc. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, perante as dificuldades que a nova versão da lei impõe às candidaturas independentes, até admite criar um partido e contou que tem falado com vários autarcas que lhe transmitiram que o que está a acontecer é que os partidos políticos os convidam para as suas listas. “Não será o meu caso”, assegurou.
Curiosamente, de Victor Hugo Salgado, cujo movimento é atingido em cheio, não se ouviu uma única palavra de crítica.
Pelo contrário, mudou de discurso. Só para dar um exemplo, deixou de falar na construção do emissário que permita a ligação da ETAR de Serzedo à ETAR de Lordelo, deixou de falar de queixas-crime contra a empresa Águas do Norte, de providências cautelares, de estudos de impacto ambiental e de responsabilizar a referida empresa e o Ministro do Ambiente pela poluição do Rio Vizela, para além do recuo no apelo ao boicote eleitoral nas presidenciais.
 E, porque o verão ainda vem longe, a palavra de ordem passou a ser: “Nunca, ao longo das últimas décadas, o Rio Vizela teve a cor límpida que tem tido”.
E, porque o tempo urge, e o Secretariado do PS de Vizela propusera a 27 de novembro de 2020 Dora Gaspar para cabeça de lista às Autárquicas 2021, multiplicaram-se os contactos de parte a parte, até que de Lisboa vem a decisão: reúnam-se e cheguem a um acordo.
E, assim, na última semana de janeiro de 2021, três elementos do PS de Vizela (Dora Gaspar, André Castro e Carla Peixoto), 2 do Movimento VHS (Victor Hugo Salgado e Joaquim Meireles) e dois da distrital do PS de Braga (Joaquim Barreto e Luís Soares) reuniram na sede distrital para discutirem um possível acordo eleitoral, sendo a reunião inconclusiva.
Como já tive a oportunidade de dizer à Presidente do Partido, este hipotético acordo sugerido ou imposto pelo PS nacional não fazia sentido e a única atitude digna era a rejeição do mesmo e a denúncia pública do caso. 
Não tenho dúvida que a Distrital e a Nacional do PS, por razões óbvias como se comprova, já teriam a decisão tomada, mas salvava-se a honra e a dignidade daqueles que não deixaram o PS de Vizela morrer e que lutaram pelo melhor para Vizela, ao longo destes quase quatro anos.
Hoje é anunciado na comunicação social local um acordo entre Joaquim Barreto (Presidente da Federação de Braga do Partido Socialista) e Dora Gaspar (Presidente do PS de Vizela) para a reentrada de Victor Hugo Salgado no PS e de lançarem o mesmo como cabeça de lista às próximas eleições.
Nestas circunstâncias, e porque não me revejo nesta forma de fazer política, não faz sentido continuar no Grupo Municipal do Partido Socialista a fazer oposição ao próximo candidato à Câmara pelo Partido Socialista. 
Assim sendo, estou fora e passarei a deputado não inscrito. Disso, informarei o Presidente da Assembleia nos próximos dias.