O Triunfo da Traição; o Espantoso Prémio à Apostasia

Eugénio Silva

2021-04-01

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As várias notícias até hoje divulgadas acerca das negociações destinadas a cozinhar o retorno de Victor Hugo Salgado ao PS - informações astutamente passadas a alguma imprensa - leva-nos à certeza que, em política, o que parece é. Victor Salgado, que, premeditadamente, traiu, hostilizou e afrontou o PS nas Eleições Autárquicas de 2017, vai regressar ao partido e, como prémio oferecido pelo “empenho” de Joaquim Barreto, o inconstante presidente da Federação Distrital de Braga, vai ser o cabeça de lista à Câmara Municipal de Vizela (CMV) nas Autárquicas de 2021. Apenas se aguarda pela confirmação oficial a emanar da Comissão Política Nacional no decorrer de toda a 1.ª quinzena de abril, e qual a lucrativa prebenda que irá satisfazer a meticulosa teia de interesses particulares habilmente urdida por Dora Gaspar, líder da Comissão Concelhia (CC) local. 
Esta infeliz decisão - uma recompensa à apostasia e ao mercenarismo político – em resultado de morosas negociações, praticamente logo após a derrota eleitoral do PS-Vizela nas Autárquicas de 2017, dever-se-á encarar como um verdadeiro ultraje aos mais elementares valores éticos e princípios democráticos. Poderá gerar o aumento do pecúlio autárquico, mas não me parece que venha a cumprir o plausível princípio que, “mais do que candidatos, o PS aposta em «ideias» ”. Tão pouco que contribua para a credibilização do PS-Vizela e lhe restaure a imagem de organização pragmática, competente, responsável e, acima de tudo, respeitada e respeitadora.
Com efeito, a receita cozinhada entre Joaquim Barreto, Dora Gaspar, e Victor Salgado, líder do “Movimento Vizela Sempre”, era simples e eficaz: Dora chefia a CC local e, durante todo o seu mandato, pratica um simulacro de oposição ao executivo municipal, uma inimaginável “geringonça” formada pelo movimento liderado por Victor Salgado e a coligação de direita composta pelo PSD e CDS. Para tal, ao precisar de total protagonismo e rédea solta, “empurra”, despudoradamente, à demissão o independente João Ilídio Costa, um homem impoluto e competente que se prestou a dar a cara pelo partido nas Autárquicas de 2017, tomando o seu lugar; rodeia-se de uma CC débil, subserviente e acrítica, facilmente domável, onde cabem militantes apóstatas que serviram o PSD nas Autárquicas de 2013 – um aval à reentrada dos dissidentes banidos do partido - e afasta quem sabe pensar pela sua própria cabeça; renega o excelente programa eleitoral que foi apresentado ao eleitorado e que constituiria base segura de oposição construtiva e dignificante, e opta por transformar os órgãos autárquicos em palcos de tristes e vergonhosas farsas, num aparente exercício de funcionamento formalmente democrático, mas que nunca passou disso; e, logo que fosse eleita deputada pelo Distrito de Braga nas Legislativas de 2019, entregaria a liderança ao seu vice-presidente que, de braços abertos, apoiaria o retorno de Victor Salgado. O plano parecia correr lindamente. No entanto, ninguém contava, nem mesmo Joaquim Barreto, com a enérgica rejeição de todas as concelhias do distrito ao lugar oferecido a Dora Gaspar, acabando, por isso, relegada para uma posição cinzenta e inelegível. Foi pena ter sido assim, porque, mesmo que o país viesse a perder, Vizela ficaria sempre a ganhar. Ganharia libertar-se de uma líder descredibilizada, incapaz e incompetente, apenas focada em gerir o partido ao sabor dos seus interesses particulares, onde o rigor, a seriedade e a transparência, condições fundamentais que muito concorreriam para a restauração da credibilidade do partido e da confiança numa séria alternância do poder, sempre se mostraram ausentes. 
Se Victor Salgado, em 2016, na sua disputa interna pela candidatura à CMV contra Diniz Costa, líder de uma CC esgotada de ideias e valores e um presidente de câmara, que, para além de debilitado por um processo-crime, já mostrara uma natural incapacidade para o desempenho de tais cargos, tivesse revelado mínimos de paciência e de diplomacia, o poder cair-lhe-ia no colo. Mas, cego pela sua insensata ambição desmedida, optou, friamente, por provocar uma gravíssima cisão no PS-Vizela, tornando-se, por isso, adversário de alguns que o apoiaram. Na realidade, nunca mostrou desejar a inequívoca aproximação ao PS. Para tal, em outubro de 2017, bastaria ter ensaiado uma simples tentativa de acordo pós-eleitoral com o partido. Não a fez, escolheu afrontar o PS, optando por um acordo preferencial com os seus tradicionais adversários, a coligação de direita formada pelo PSD e pelo CDS, ainda agora a muleta que sustenta o seu executivo municipal. Inclusive, no decorrer da sua campanha eleitoral, aceitou todo o tipo de apoios daqueles que, publicamente, juraram aniquilar o PS-Vizela. Deste modo, tal candidatura poder-se-á considerar como prémio a todos aqueles que, premeditadamente, traíram, afrontaram e hostilizaram o PS, uma verdadeira apologia do mercenarismo político; um convite a futuras dissidências e a garantia do livre retorno ao partido de apóstatas; e, pior ainda, numa rude machadada na credibilização do PS, contribuindo para a erosão da própria democracia e alimento para a progressão de grupelhos fascistas e fascizantes. 
Mais interessante do que saber quem virá a apoiar tal candidato será conhecer a resposta a uma questão pertinente: que argumentos, que razões éticas irá apresentar o PS para pedir agora aos seus militantes o apoio a Victor Salgado, quando, em 2017, acusado de traidor e desleal, pedira aos mesmos militantes o apoio incondicional ao independente João Ilídio Costa contra ele?