O SENHOR DAS CINCO CHAGAS

Pedro Marques

2020-09-10

Partilhe:

03-09-2020


Finalmente! Com os nossos votos de o amigo leitor tenha usufruído de merecidas e reconfortantes férias, aqui estamos nós a dar-lhe a conhecer, o que temos vindo a escrever, de recolhas também ao vivo, sobre a devoção popular ao “Senhor das Cinco Chagas. Agora, em relação à lenda que deu origem à devoção e solenidade do Senhor das Cinco Chagas em Infias. Comecemos por transcrever para aqui o que consta das “Memórias Paroquiais” de 1758, logo na sua introdução… (…) “ Uma imagem de Cristo Crucificado, que é milagrosíssima, com a invocação do Senhor das Chagas, que faz muitos milagres, tanto nas esterilidades dos tempos, nos quais levam o Senhor à vila de Guimarães e o põem no convento de São José das religiosas do Carmo Calçadas ou em outra qualquer igreja da dita vila, e nunca se recolhe a esta igreja sem que primeiro cumpra com a petição e súplica que lhe fazem os fiéis. Além destes milagres, faz outros muito contínuos, de cujos se vêem os retratos pendurados ao redor do altar e arco do mesmo. A água que se toca em seus santíssimos pés é milagrosíssima para febres e sezões. A imagem do Senhor das Chagas era levada pelo povo de Infias em romaria à Senhora do Monte (Serzedelo), no dia 24 de Junho. Esta romaria era exclusiva dos de Infias. No entanto, em 1883, os moradores de Serzedelo decidiram também ir à capela do cimo do monte. Segundo João Lopes de Faria, formaram uma procissão com seis andores, que rivalizava com a dos de Infias, que tinha cinco andores, “qual deles o mais aparatoso e elegante, duas bandas de música e grande concorrência de povo”. Era evidente a rivalidade entre ambas as freguesias, mas tudo correu “na melhor ordem”, até à hora das procissões regressarem às respectivas igrejas: “um indivíduo teimou por força pegar a um dos andores, originou-se e houve pancadaria basta, obstando à continuação dela um destacamento de infantaria que ali estava; as procissões regressaram em desordem e o arraial debandou”(…). Consultando-se também a página da Junta de Freguesia, poderemos ler “Segundo a história, a Confraria do Senhor das Cinco Chagas, parece ter já muitos séculos de existência, havendo registo de 1698. Reza a lenda que a imagem do Senhor das Cinco Chagas ainda tem vestígios de uma outra, que há muitos séculos um cruzado mandou esculpir, a fim de lhe colocar uma coroa de espinhos que encontrou no deserto, quando regressava da Terra Santa. Numa capelinha, da qual já não há vestígios, a coroa foi colocada sobre a referida imagem e, todos os anos, a 3 de Maio, o sangue brota das feridas provocadas pelos espinhos, levando até quem afirmasse que isso correspondia ao dia e hora em que Cristo teria sido coroado. Sabemos que não é verdade, mas o facto é que incutiu tanta fé nas pessoas que, nesse dia, começaram a fazer uma romagem de penitência e assim a imagem do Senhor das Chagas era transportada desde a capelinha de Infias até à Senhora do Monte em Serzedelo (…) E há mais esta versão, referida ao RVJornal: “Havia um cruzado de Infias que, em tempos, foi lutar pelos cristãos na Terra Santa. No regresso, doente de lepra, caiu num areal, mas quando acordou, ao seu lado encontrou uma coroa de espinhos. Um anjo lhe disse que a sua missão seria trazer essa coroa para a colocar num Cristo existente numa Capela em Infias. O jovem, já curado, cumpriu. Por isso se diz que, todos os anos, no dia 03 de maio, o Cristo chora(…)”. Segundo o nosso amigo poeta-escritor António Alves Pinto de saudosa memória, na convicção deste, a capelinha onde havia um Senhor Crucificado a quem o cruzado colocou a coroa na cabeça, terá existido antes da construção da igreja antiga onde o Senhor das Cinco Chagas tem o seu altar e terá sido soterrada sob os alicerces onde esta referida igreja nasceu. Referem as memórias paroquiais que a imagem é milagrosíssima. No grau absoluto simples. E conta ainda sobre o poder milagroso desta imagem a quando da sua vinda à então ainda “vila” de Guimarães para um “clamor” a implorar chuva, o seguinte: ”Em 1847, quando Senhor de Infias veio à vila, voltou a chover. Por António Amaro das Neves (03.04.2018 (…)“(…)Em tempos de seca, todos os dias os sinos das igrejas de Guimarães tocavam a anunciar a morte de anjinhos. Assim foi em 1847. No seu diário, o cónego Pereira Lopes escreveu que se vivia “um intensíssimo calor e uma grande seca, não tendo nascido os restivos nas terras secas”. Quando se chega a meados de Julho, sem que chova, o desespero cresce e a população volta-se para o único remédio que tinha ao seu alcance: a fé. Até ao final daquele mês, haverá preces ad petendam pluviam, a pedir que chovesse, na Colegiada e nas outras igrejas da vila, por causa “da grande seca que tinha havido, não havendo esperanças de que as terras secas dessem fruto algum”. Sem resultado (…). No dia 11, nova procissão, agora com a imagem do Senhor dos Passos do Campo da Feira, “acompanhada pela sua irmandade, alguns padres e imenso povo, tendo havido sermão à sua saída”. Era o terceiro dia de preces em que se rogava que, ainda nas palavras do cónego Pereira Lopes, “Deus Nosso Senhor desse chuva, pois a seca tinha sido grande, a ponto de se recear uma grande falta de pão, pois os restivos das terras secas já não davam fruto algum porque a maior parte não nasceram”. Mas continuava sem chover. No apontamento referente ao dia seguinte, 12 de Agosto, o cónego registou no seu diário: Pelas 2 horas da tarde entrou nesta vila a milagrosa imagem do Senhor de Infias (já por outras necessidades públicas tinha vindo para a mesma) acompanhado de muitas irmandades da aldeia e imenso povo, até das Caldas de Vizela e outras povoações, ao qual se lhe reuniu muita gente da vila. Todo este préstito, que infundia maior respeito pela Rua da Madroa e Rua das Molianas ao Toural e passando por Trás do Tanque ao terreiro de S. Francisco foi pela Rua de S. Dâmaso à Senhora da Guia, depois seguiu pela Praça da Senhora da Oliveira, Terreiro de Santa Clara ao Terreiro do Carmo, e depois pelas Ruas do Gado e de Val de Donas aos terreiros da Misericórdia, Rua de S. Domingos e Rua Travessa e se recolheu à igreja das religiosas Dominicas. Atrás da milagrosa imagem do Senhor de Infias iam três padres a cantar a Ladainha dos Santos a que o numerosíssimo povo que acompanhava respondia Ora pro Nobis. Esta procissão de preces foi certamente uma das que apresentou mais gente nesta vila pois vinha muita gente de muitas freguesias e mui distantes. A imagem do Senhor das Chagas de Infias recolheu-se à igreja do convento de Santa Rosa do Lima, onde as religiosas dominicas ergueram as suas preces para que chovesse, “pois a seca tinha sido grande, como não havia memória de ter acontecido”. E choveu. No dia 20 de Agosto, aconteceu o primeiro dia de chuva, depois de mais de dois meses sem cair um pingo dela na vila de Guimarães. No dia 25, houve festa. O Senhor de Infias podia regressar a casa. Lemos no diário do cónego Pereira Lopes, que João Lopes de Faria transcreveu: Saiu em procissão da igreja das Dominicas a milagrosa imagem do Senhor de Infias, que por causa da grande seca que havia, tinha vindo para aquela. Foi acompanhado por imenso povo, tanto da vila, como da aldeia, assim como com as mesmas Irmandades que a tinham acompanhado para a vila. A procissão foi festiva e seguiu o mesmo caminho que tinha seguido quando veio. A concluir este ciclo de artigos sobre a devoção popular ao Senhor das Cinco Chagas, iremos trazer até si ainda uma outra referência do quão profunda e viva ela é. Com o abraço amigo de sempre.