O RUSSO – (Terceira Parte)

Júlio César Ferreira

2021-11-25

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Na tarde deste dia foi o Russo saber na Administração dos trabalhos, por que forma a ordem se tinha restabelecido, e satisfeito com as resoluções do escritório, que não tinham despedido nenhum patrício, retirou-se, jurando ir ao pêlo do escrivão.
 - Ah!... Ele gaba-se de fazer fugir o avalentado – exclamou - hei-de marcá-lo para sempre! O emboaba (nome porque eram conhecidos os portugueses que estavam no Brasil, à época) não se chamará Teixeira Russo se o não assinalar.
Na cidade soube-se tudo o que ocorreu e se propalou no Alto da Serra acerca de Russo e Antero, fazendo–se- lhe comentários em algumas rodas. Desde que deixou de ser segredo a promessa do Russo, o escrivão nunca mais andou a pé fora da repartição.
Montava uma mula que adquiriu, muito ligeira e possante.
Quando o Russo veio do local da desordem encomendou a um serralheiro um castão (ornamento) de bengala em forma de A, obra reforçada que servisse para marcar gado no quadril. Foi este castão que em certa noite caiu em cheio na fronte de Antero, fazendo-lhe uma ferida, cuja cicatriz deixou patentíssima por muitos anos a forma do A.
Passou-se assim o caso:-
Russo aparecia e desaparecia, de alcateia sempre, sem encontrar à feição o valente que atira a um homem pelas costas.
Dissimulou com fleuma e engenho muito tempo.
Sendo notório que o escrivão todas as noites sondava o centro da cidade, montado, depois do toque de recolher, o que inventaria o vizelense?
Disfarça-se em trajos de trabalhador e à hora costumada postou-se nas imediações dos Quatro Cantos. Ao perceber o Antero descer do largo de São Francisco à rua de São Bento, atirou-se ao meio da via pública, fingindo de bêbado, a rolar na calçada.
No acto em que o escrivão se apro¬ximou a fazer reconhecimento, o bêbado postou-se ao alcance do freio do animal, lançou-lhe a mão com formidável rapidez, levantou-se com o pincho da besta e olhar fixo no cavaleiro. No tempo em que este passava a mão ao revólver, uma rija bengalada na testa lançou o valentão no chão aos gritos de socorro!
O Russo tomou a rua Direita, desceu a de S. José por onde escapou à polícia.
Um fenómeno de difícil explicação, é o desordeiro ter incluído no número de amigos, dos quais recebia provas públicas de consideração, homens altamente colocados. Praticando violências semelhantes nunca foi preso e nem um processo se lhe instaurou! É admirável! E como tudo tem razão de existir, o leitor qualifique-a.
A justiça ordena que se diga - excepto em casos que envolvessem venerações pátrias, que o precipitavam na alucinação - Teixeira Russo estava ao lado do justo, do razoável.
Não podia ver uma desgraça de alma impassível, sem correr para ela. Esmola, nunca saiu de sua presença sem ela, quem a implorasse; sabem-no os amigos e conhecidos a quem mui¬tas vezes deu o último vintém, tendo de ir tomar emprestado para comprar cigarros. Era valente na extensão da palavra-valente de músculos, valente de nervos, valente de pensar, valente de sentir. Teixeira Russo se não fosse um vagueador e estudasse, seria uma notabilidade. Com o fraco o leão convertia-se em cordeiro; ninguém ouviu dizer que ele levantou a voz, um dedo para a fraqueza. Se por acaso uma irreflexão, uma grosseria ou atrevimento lhe vinha dali, o Russo tinha um modo muito seu de inclinar a cabeça do lado oposto à criatura, olhava-a obliquamente, descerrava um sorriso muito clemente e proferia!
 - Vai! Vai!... Vai com Deus!
Quem o não conhecia e por casualidade falava com ele de artes e letras, encantava-se dos seus conhecimentos, dos seus raciocínios, da sua prosa engraçada e fluente.
Havia nele o cavalheiro cortês e polido, que não priva senão com fidalgos, quando estava na presença de gente culta.
Relatemos mais dois casos que foram comentados por muito tempo.

Um negociante francês da rua de S. Bento possuía um cão de raça pequena muito estimado: há gente que se quer singularizar por fingido amor a certos animais.
O cachorro permanecia no estabelecimento, e como madame não tinha filhos, trazia o animalzinho cuidado¬samente penteado, enfeitando-o nos dias de festas nacionais com laços tricolores ao pescoço.
Este - Viens mon chien, viens ma pauvre bête, que se não parecia com o do poeta, quando citava de má maré - (mauvaise humeur) - saía à calçada a experimentar os dentes nas saias, vestidos, calças e canelas dos transeuntes.
Num daqueles dias de caninas expansões, passou o Russo e a pauvre bete… zás!
Dente na calça do homem.
Este voltou-se com a maior pa¬chorra, encarou o animal, dando de frente com o monsieur que à porta da rua ria dos gracejos do cão. Deu mais alguns passos para trás e disse ao negociante:
 - Je vous felicite de votre bonne humeur, ousais bien que des habili¬tés du petit chien. Au revoir monsieur. O negociante era um bom alsaciano: não compreendeu o tom irónico da frase, permanecendo com o mesmo semblante risonho, a lisonjear-se da perícia do colo. Numa casa fronteira alguns caixeiros que presenciaram a cena, diziam entre si:
 - Nem o dono, nem o cão sabem com quem brincam.
 - O Monsieur! - advertiu um deles – olho que aquele sujeito é o Russo!
 - A Russe não está melhor que antre - respondeu com orgulho. Ficou nisso. Não decorreram muitos dias, passava o Russo por ali distraído ou fingindo-o.
O cãozinho repetiu o assalto com maior assanhamento. O Russo com admirável destreza agarrou o cão pelo pescoço, à vista do dono, arremessou-o contra a calçada e ao mesmo tempo atirou-o ao telhado de uma casa em frente com o crânio esmagado.
O infeliz nem um ganido teve tempo de arrancar!
O francês gesticulava, apodou o Russo de bárbaro, covarde, etc. Este sem dar demonstração de perturbado, entra no negócio, pôs a mão pesada no ombro de Monsieur e com um sorriso amargo, mais amargo que o do costume, proferiu:
 - Aller, Monsieur! Aller! Brissans lá dessus!
Intervieram os vizinhos imediatamente a fazer ver que o francês era um pobre homem, afim de prevenirem que o Russo perdesse o sangue frio e cometesse outra violência,
 - Não há duvida - disse Russo à multidão - isto é um idiota pouco melhor que o cão: não há dúvida, não.
O quarto incidente - dos de mais publicidade - deu-se numa viagem de caminho-de-ferro, do lado de Campinas. 
Foi depois da primeira grande crise bancária que acarretou imensos prejuízos. Diziam que a suspensão de pagamentos do banco Alves Souto lhe tinha motivado a quebra e arrastado as quebras dos outros!
A crise suscitou muitas discussões por toda a parte; discussões mais ou menos ardentes, motivadas pelas interpretações dadas a respeito da deliberação do banqueiro. Uma opinião agitava-se - e era falsíssima dando-o como insolvível e desonesto!
Esta opinião foi malevolamente atirada à praça, ao meio das massas, acondimentada de um produto indí-gena que os outros indígenas engoliram sem sentir. (Continua)