O protesto dos agricultores diz muito do mundo em que vivemos

Fátima Anjos

2024-02-08


Os agricultores estão na rua em protesto. Não sabemos por quanto tempo. A Ministra da Agricultura tem vindo a reunir com vários grupos de produtores, ao longo da última semana, e esta terça-feira, vimos a Comissão Europeia recuar na proposta da instituição, que visava a redução para metade do uso de pesticidas na agricultura até 2030.
Ursula von der Leyen acabou por afirmar, em Estrasburgo, que “a proteção da natureza só pode ser bem-sucedida através de uma abordagem ascendente e baseada em incentivos”. Não haverá dúvidas de que a agricultura ocupa um lugar central no âmbito daquela que é a legislação ambiental europeia e no objetivo de descarbonização do planeta. No entanto, também não será menos verdade, que tem de haver um plano, que guie o setor nesse sentido, sem colocar em causa a sua sustentabilidade. E isso também deverá significar a interdição de produtos no mercado que não respeitem as regras a que estão obrigados os agricultores da Comunidade Europeia, cuja comercialização a preços mais reduzidos (e facilmente se percebe porquê) retiram a possibilidade dos nossos produtores verem os seus produtos vendidos a preços justos.
Isto para dizer que a sustentabilidade do planeta terá também de passar pela sustentabilidade da agricultura, nomeadamente dos pequenos e médios, embora a atualidade nos vá dando sinais de que os pequenos tenderão a ser absorvidos pelos grandes, porque os últimos anos ditaram tamanha subida nos custos de contexto, agravando o custo de produção, que a rentabilidade tem vindo a cair. O preço a que o produto é vendido ao distribuidor não mexe, quer dizer, por vezes, até mexe, mas no sentido decrescente. Mas não em prol do cidadão comum, porque esse vê sempre a conta a aumentar à saída das caixas de supermercado. Tal como aumentam os lucros dos grandes grupos económicos e que vão sendo notícia de quando em vez.
Repito. Os agricultores estão na rua em protesto. Não sabemos por quanto tempo. Talvez só percebamos a dimensão desta problemática, quando faltarem nas prateleiras os legumes para a sopa ou quando o preço dos legumes transforme a sopa num prato inacessível a alguns.