O Paço de Gominhães Numa Visita ao Passado (III)

Pedro Marques

2022-06-17

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Como já referimos, hoje, o Paço de Gominhães entrou numa via de degradação acelerada imparável, se, entretanto, nenhum mecenas se disponibilizar a comprar este imóvel e suas parcelas de terreno e capela e restituir a este património tida a sua dignidade. E o estamos vindo a partilhar consigo, estimado leitor, é o que estamos a transcrever do nosso já identificado e escrito em 1998, ano em que foi criado o concelho de Vizela.  Assim, as referências de paisagem que iremos fazer, reportam-se há vinte e quatro anos atrás. E, amigo leitor, se por curiosidade, vier a fazer alguma caminhada até ao Paço de Gominhães, irá constatar, pelos seus próprios olhos, a profunda alteração havida entretanto da paisagem envolvente. Por muito minucioso e perfeito que se tente fazer uma descrição escrita, há sempre falhas. Só a fotografia, comparada nos respetivos tempos em que foram obtidas, nos dá uma ideia precisa do antes, do depois, e da situação atual na zona envolvente.
Então, escrevemos, nesse tempo da feitura do livro, que o Paço de Gominhães e pelo que se viu já, era uma referência turística regional e local para visita obrigatória. E importante no então ainda concelho de Guimarães. Todavia e como nos desabafou D. António Cyrne de Carvalho Rebello de Meneses e de quem falaremos lá mais para diante, parece que, presentemente, ninguém em Caldas de Vizela fala deste Paço.
Em compensação, muitas têm vindo a ser as visitas por gente de fora de Vizela, e até do estrangeiro. Visitas essas que ficaram a constar de assinaturas, pareceres e exclamações. Tudo isso registado no “Livro de Honra da Casa”. Mas é também do nosso conhecimento que, há uns vinte anos (reportados nós a 1998) e talvez por causa da pretendida presumida ocupação militar do Paço que deve ter causado em Vizela algum aparato, os alunos do então Ciclo Preparatório ficaram a ter conhecimento deste Paço. E por via disso, ao mesmo e por iniciativa dos respetivos professores, passaram a fazer visitas guiadas tendo em conta a sua ligação remota ao rei D. Dinis. Então, andavam os nossos filhos no Ciclo Preparatório e disso nos falavam em casa.
Neste âmbito de roteiro turístico, nos guias então disponíveis na Câmara e Turismo de Guimarães, que saibamos, nada havia sobre o Paço. Em contrapartida, no seu livro “O Velho Minho” Sant’Ana Dionísio ao Paço de Gominhães se refere assim: “É uma interessante moradia de raiz medieva, que se mantém há séculos na posse da família Cirne. Um dos antepassados foi feitor da Flandres, nos meados do sec. XVI. Hoje ( ou seja, há sessenta anos (em 1998) é usufrutuário o Desembargador Rebello de Meneses (tio do actual Senhor do Paço e irmão do seu pai, D. José Salvador Cyrne de Meneses, que faleceu muito novo - com trinta e nove anos. 
Por onde se vai para o Paço?... Na descrição que vamos fazer, praticamente já nada existe da realidade de então, entre o Ciclo e o Paço. Deixaremos, no entanto, à apreciação do prezado leitor, a descrição que fizemos na já distante década de 1990/1998.
“Para se chegar, num passeio a pé, ao Paço de Gominhães, tome-se como ponto de partida a Escola Preparatória de Vizela, na periferia da vila numa saída à direita da EN nº 106, vinda dos “Fundos e com términos em Entre-os-Rios. No sítio onde se situa um afamado restaurante, anunciado por uma colorida e alegre profusão de bandeiras, com um terreiro sob frondosos plátanos. Estamos a entrar na Rua da Porteladinha. 
Como, porém, esta rua é agora de trânsito proibido de veículos automóveis, então é melhor e para quem se propuser ir da automóvel, subir umas duas centenas de metros e  virar à direita no entroncamento onde está a placa de “Rua do Paço de Gominhães”. É uma rua nova, recentemente asfaltada. No primeiro caminho que nos surgir à esquerda, nova placa nos anuncia que estamos a chegar lá.
Todavia, para quantos seguiram o percurso da primeira alternativa, ver-se-á, de repente, embrenhado numa ruralidade sem relevantes e graves agressões, onde o cultivo dos campos surge como labor sagrado e abençoado por Deus e pelo esforço de uma família que é modelo no cultivo de uma lavoura onde ainda é possível a fertilização da terra com estrume do gado e depois a lavra de ricas e extensas vessadas. Se ainda com juntas de mansos bois a puxar a relha do arado, já se ouve o roncar do trator.
Nesta extensão campestre, à direita, o cantar da água da fonte e o seu gorgolejar pelos arroios das linhas de água, confunde-se com o gorjeio do rouxinol e da flauta do jovial melro. Vê-se ainda o velho moinho entre o cultivo do milho. E da vinha. Ora em ramadas nas testeiras das leiras, ora ainda nas videiras de enforcado enroscadas nos ainda tão abundantes choupais na berma dos caminhos.
Findo o caminho, que já foi de terra e agora é em paralelo e onde começa a estrada em asfalto, é já bem visível o edifício do Paço. Então, segue-se em frente, virando-se à direita, por caminho de macadame. Temos ainda uma outra opção – a de logo à direita da saída do caminho, seguirmos por um carreiro por entre os campos. Só que já próximos do Paço, estamos sujeitos a enterrar os sapatos nos lameiros. A primeira opção é mais enxuta.
Vá o passeante por onde for na sua busca, são apelativos a nostalgia o silêncio, a solidão e a tristeza que, logo ao longe, se respira… Até quando?... É que, foi-nos dada a informação estes dias, de que o Paço já foi vendido. Oxalá que o seu novo dono lhe venha a restituir a grandeza e prestígio de outrora.
Com o abraço amigo de sempre.