O Médico dos pobres

Júlio César Ferreira

2021-07-22

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Era assim que era conhecido este ilustre médico vizelense que, nas décadas de trinta, quarenta, cinquenta e meados da década de sessenta do século passado, mercê da sua bondade e generosidade, muita falta fez aos pobres e humildes, não só das freguesias de João e S. Miguel das Caldas, mas também das freguesias vizinhas, Infias, Tagilde, Santo Adrião, Santa Eulália, Vilarinho ou Moreira de Cónegos.

Muitas são as histórias que nos chegam de muita gente, que se recorda bem da sua delicadeza, afabilidade, mas sobretudo da sua imensa generosidade e espirito de bem–fazer.

A sua magnanimidade não tinha limites e os relatos que nos chegam, principalmente na década de quarenta, com as agruras da guerra mundial presentes em todo o lado, em que a fome e a miséria se fizeram sentir, de forma mais vincada, nas pessoas mais pobres e humildes, são bem claros os laivos da sua munificência, da sua liberalidade, do seu carinho, do seu amor pelos pobres e humildes.
Nas suas visitas domiciliárias, como me contava o meu saudoso pai, (ele também trabalhador pobre e humilde e que tantas vezes beneficiou dessa generosidade), não cobrava qualquer óbolo pelas suas consultas e a maior parte das vezes, debaixo do travesseiro, deixava, ora medicamentos, ora dinheiro para os adquirir.

Quando, de uma forma simples, como simples são estes rabiscos, buscava alguns dados que me ajudassem neste despretensioso artigo, um amigo enviou–me esta simples mensagem:
“O Senhor Doutor Manuel Faria. Era assim que a minha mãe chamava, quando enaltecia a grandeza de carácter e o bom coração daquele médico, que vivia naquela casa alta depois da ponte. Ele tinha curado o meu irmão mais velho, um dos onze irmãos. Éramos uma família pobre, vivíamos daquilo que o campo dava. A minha mãe tantas vezes dizia, se estás vivo agradece ao Sr. Doutor Manuel [Bravo] de Faria, eu nem dinheiro tinha pra remédios e ele foi à farmácia pagou e não quis dinheiro. E tanto que me custou ouvir ele te dizer, “rapaz se a tua mãe te der massa ou arroz, não queiras, diz que o Dr. só mandou comer sopas e bifes, pra curar a anemia”. Mas valeu a pena, quando voltamos lá, já tinhas outra cor e ele a sorrir dizia, está bem rapaz continua assim a comer bifes que tu vais ficar bom. Depois fui lá levar dois frangos num cesto, e ele resmungou e disse: leve pra casa e dê aos seus filhos. Bati à porta de casa dele e disse à criada, o senhor Doutor mandou entregar aqui. Eu a sair e ela a olhar desconfiada. O pior foi na próxima consulta, o raspanete que me deu. Se voltares a fazer isso, não te dou mais consulta. E antes de sair, virou-se pró vosso irmão a sorrir e disse: come bifes rapaz, ouviste?”

Era assim, o Dr. Manuel, como era carinhosamente conhecido este ilustre vizelense, nascido ainda no tempo da monarquia, como se pode ler no seu assento de batismo:
“Aos três dias do mês de Outubro do anno de mil novecentos e seis, nesta Egreja parochial de S. João das Caldas de Vizella, concelho de Guimarães e arquidiocese de Braga, baptizei solenemente com a autorização de Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Arcebispo Primaz, um individuo do sexo masculino a quem dei o nome de Manuel e que nasceu nesta freguesia às oito horas e um quarto da manhã do dia dezanove de Setembro do supracitado ano, filho legítimo, primeiro do nome de, José de Freitas Ribeiro de Faria, proprietário e capitalista, natural desta freguesia e de Dona Josepha Bravo Ribeiro de Faria, capitalista, natural da freguesia de Santa Comba de Regilde, concelho de Felgueiras, Diocese do Porto, recebidos na freguesia de Águas Santas, Concelho da Maia, Diocese do Porto, mas paroquianos e moradores na Rua do Mourisco, neto paterno de Joaquim de Freitas Ribeiro de Faria e de Anna Emília Gonçalves de Freitas e materno de Joaquim da Silva Bravo e de Dona Leopoldina da Silva Bravo. Foi padrinho o Doutor Manuel Dias da Silva, Lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e madrinha Dona Leopoldina Bravo Ribeiro de Faria, os quais todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de lido e conferido, perante os padrinhos, comigo o assinaram. Era ut supra.

Concluiu a sua formatura em 1930, como nos dá conta o jornal “A Gazeta de Coimbra”, na sua edição de 22 de Novembro de 1930: “ Novo Médico – Concluiu a sua formatura o ilustre e inteligente vizelense, Sr. Dr. Manuel António Bravo de Faria, filho do nosso bom amigo, Sr. dr. José de Freitas Ribeiro de Faria, alcançando uma alta classificação. Á família e ao novo médico, os nossos encómios de profunda admiração e sinceros parabéns”.

O Noticias de Guimarães, na sua edição de 1 de Fevereiro, em nota enviada aquela redacção pelo correspondente em Vizela, em 30 de Janeiro, diz-nos: “Abriu o seu consultório médico, na Rua Dr. Abílio Torres, o distinto clinico hidrologista Snr. Doutor Manuel António Bravo de Faria, sobrinho do saudoso Vizelense Snr. Doutor Armindo Freitas Ribeiro de Faria”.

Consorciou–se em 24 de Abril de mil novecentos e trinta e cinco, com D. Maria Margarida de Freitas Bravo e deste enlace nasceram D. Maria Manuela, D. Maria Leonor e os Srs. José Manuel, António Fernando, João Paulo, António Pedro e Duarte Bravo de Faria.
Desaparecido prematuramente, pois ainda não tinha completado 60 anos, o Médico dos Pobres, finou-se no dia 25 de Março de 1966, deixando toda esta vasta região num pranto inenarrável, como se depreende daquilo que podemos ler em dois dos semanários de Guimarães, como Comércio de Guimarães, que numa nota do seu correspondente em Vizela, no dia um de Abril de 1966, nos diz: “Após prolongados sofrimentos que a ciência não soube vencer, sucumbiu, na sua residência, em Vizela, o sr. dr. Manuel António Bravo de Faria, de 59 anos, casado com a Sra. D. Maria Margarida Bravo de Faria. O saudoso extinto, muito conhecido nesta cidade e em Vizela, onde se dedicava a tratar e a socorrer os pobres, de uma afabilidade que encantava, era distinto Director – Clinico da estância termal e médico – chefe dos Serviços Médico – Sociais de Vizela (…) O seu funeral efectuado no último sábado, [26 de Março de 1966] na Igreja de S. João das Caldas, constituiu uma impressionante manifestação de pesar. A toda a ilustre família Bravo, em especial a sua esposa, filhos e cunhado, o nosso cartão de profundo pesar”.
Mas também o Notícias de Guimarães nos dá conta do triste desenlace nestes termos: “Na sua residência, à Rua Joaquim Freitas Ribeiro de Faria, faleceu o Sr. dr. Manuel António de Freitas Bravo de Faria, distinto médico vizelense. A morte do ilustre médico foi muito sentida em toda a vila e sua região, pois era pessoa muito estimada e dotada de um coração generoso (…)”

Não é fácil para mim, pobre rabiscador de banais e simplórios artigos, ousar recordar esta alma generosa, pais de bons e queridos amigos e só me resta curvar a minha pobre e modesta cabeça, num saudoso preito de homenagem, deixando para epílogo a sua pagela obituária, que mão amiga me fez chegar: “De família profundamente Cristã, foi digno continuador dos seus pais. Médico católico, fez da profissão um sacerdócio, mormente a favor dos pobres. Quatro amores adornavam a sua alma; a devoção à Família, a Santo António, a Nª Senhora e ao SSmo. Sacramento. Foi para o Céu no dia da Anunciação de Nª Senhora para receber o prémio das suas virtudes e a recompensa dos seus trabalhos”.