“O COVID não é apenas para os outros”

Fátima Anjos

2020-10-22

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22-10-2020


O alerta é do presidente da Câmara Municipal de Vizela, Victor Hugo Salgado, que na última quinta-feira, foi diagnosticado com Covid-19. Mas poderia ser de qualquer um de nós porque, efetivamente, não sabemos quando é que chegará a nossa vez. Se é que já não chegou e nem demos por isso. Sabemos que, por muitos cuidados que tenhamos, há sempre um risco de infeção. Até porque as nossas crianças regressaram à escola e a possibilidade de teletrabalho numa região tão industrializada como a nossa ainda é uma miragem. O que importa é reduzir riscos, não perder o foco. Com isto, desejar, na pessoa do Sr. Presidente da Câmara de Vizela, as rápidas melhoras a todos os que se encontram a enfrentar esta situação que, sendo nova, gera sempre preocupações. Cientificamente ainda há muito por provar sobre os efeitos da Covid-19 na saúde de quem contrai a infeção. Não perder o foco é também perceber que, nesta altura, o risco de propagação da doença é elevado. E ainda mais depois de terem sido alterados os critérios de alta clínica. À data de hoje, os doentes com Covid-19 sem qualquer sintoma têm alta clínica e fim das medidas de isolamento sem necessidade de teste de controlo, 10 dias após o teste inicial que estabeleceu o diagnóstico. Mais. Os doentes com Covid-19 sintomáticos têm também alta clínica, nas mesmas condições, se durante três dias assistir à melhoria significativa dos sintomas e à ausência de febre. No entanto, a atualização da norma da Direção-Geral da Saúde acabou por passar despercebida entre a polémica de um assunto – StayAwayCovid – que deixou de ser assunto em menos de uma semana e que veio revelar algum desnorte do Governo. Por isso, nos próximos dias não estranhem se o número de recuperados vier a aumentar. Difícil será provar que estão recuperados, quando uma grande maioria nem sequer terá sido vista, presencialmente, por um médico, em todo o seu processo de infeção. Não se esqueçam que são os médicos de família que estão a seguir 97% dos casos ativos de Covid-19, dizia esta quarta-feira, Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Escrevia há alguns dias o médico vizelense Armando Guimarães, o seguinte: “Parece que a aposta atual do Governo é na hipotética imunidade de grupo, a qual se justifica pela impossibilidade de paralisar a economia e pela larga incerteza relativamente a uma vacina eficaz e segura nos próximos tempos”. Faz sentido. E ainda mais sentido faz, o que escreveu a seguir: “O custo é já uma enorme pressão, que se prevê crescente, sobre o SNS, nomeadamente medicina geral e familiar, saúde pública, medicina interna, serviços de urgência hospitalar e unidades de cuidados intensivos, com risco de incapacidade de resposta. Outro custo será a inevitável diminuição do acesso aos cuidados de saúde dos doentes não Covid”. Não será o momento de fazer alinhar os hospitais privados, com os acordos que forem necessários, na linha da frente da luta contra a Covid-19? Afinal, não estamos todos no mesmo barco.