Manuel João Freitas Ribeiro de Faria – Parte 2

Júlio César Ferreira

2020-08-13

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Como vimos, foi vereador municipal por Vizela e, pela defesa intransigente da sua terra, foi muitas vezes confrontado com os azedumes de outros vereadores, quer da cidadeberço, quer das Taipas ou Pevidém, que o acusavam de querer tudo para Vizela, chegando ao cúmulo de queixumes infantis, como meninos travessos, dizendo que o “Manuel Faria quer estradas, jardins, ruas e até bibliotecas para Vizela”. E não é que esses “meninos mimados e travessos”, até tinham a razão? É que, é a Manuel Faria, enquanto ilustre Vereador na Câmara Municipal de Guimarães, que devemos, o traçado de duas das mais importantes avenidas de Vizela. A actual Avenida dos Bombeiros Voluntários de Vizela, que antes se chamava (principalmente a partir da padaria do Apolino, sensivelmente onde hoje se encontra a sapataria Bota Grande) Dr. Bráulio Caldas, e que seguindo pelo caminho que conduz a Belmense, enveredava até à antiga rua que seguia para Guimarães, pelo antigo caminho romano. Mas não estava satisfeito Manuel Faria e nova avenida se juntou a esta e assim nasce aquela que viria a chamar–se Av. Sá e Melo, sacrificando-se uma vez mais Bráulio Caldas, que fica como patrono de um pequeno traçado de rua, que presentemente vai desde a Rotunda Povo de Vizela, até à Igreja de S. Miguel das Caldas. É ainda durante o seu mandato como vereador, que sob proposta sua, é dado o nome á rua, que parte da Latino Coelho até a Ponte Romana, de D. Ana Amália de Sá, como forma de homenagear a poetisa dos Murmurios de Vizela. Foi um trabalhador insano por Vizela e no livro das comemorações dos 75 anos dos Bombeiros Voluntários de Vizela e da inauguração do novo quartel em 28 de Setembro de 1952, podemos ler: “Nesta parte, é justo destacar o trabalho, o carinho mesmo, a maior dedicação por tudo relacionado com a grandeza desta obra, do nosso querido conterrâneo e ilustre vereador municipal, S. Manuel João Freitas Ribeiro de Faria”. Era um escritor fecundo, com uma escrita fluente e bela, não estranhando por isso que, no centenário dos Bombeiros Voluntários de Vizela e sabendo do seu acrisolado carinho para com os soldados da paz, lhe fosse pedida uma dedicatória, a figurar no livro do centenário: Como se enobrece uma terra COMEMORA-SE no dia 8 de Maio de 1977 os primeiros 100 anos de vida da nossa Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Vizela e convidam-me Amigos, que particularmente estimo, para, na minha qualidade de «Bombeiro sem farda» - como um dia, honrando-me muito, me consideraram - escrever sobre a admirável efeméride, também eu, algumas palavras. Com todo o gosto e algum orgulho o faço, tanto me sensibilizou o convite amigo, muito embora e desde já com a consciência confessada da dificuldade. É que, escrever sobre quem ostenta por lema VIDA POR VIDA, exige estar-se verdadeiramente à altura de escrever sobre uma das mais nobres, mais belas, mais abnegadas e mais heróicas criações do espírito cívico de todos os tempos. E o convidado a escrever, se é pessoa que sente e compreende a grandeza desse espírito e dessa mensagem, é pessoa que se não esquece também da sua modéstia pessoal perante tanta grandeza. Um sentimento lhe não falta: o da gratidão que todos os que não foram capazes de subir à altura do Bombeiro Voluntário devem, absolutamente, aos que foram capazes de subir à altura de o serem. Mas que é o Bombeiro Voluntário? Exemplo vivo e determinado de heroísmo, de abnegação e de fraternidade humana num pobre, in-quieto e incerto mundo diminuído e materializado que busca dolorosamente, mas exactamente também, esses mesmos caminhos do heroísmo, da abnegação e da fraternidade por entre batalhas de ideias e armas que afogam no ardor das violências e dos ódios com que se ferem, todo o espírito, que admirável poderia ser a vida se tomando-o como exemplo, cada homem, antes de qualquer passo, pensasse um pouco, bem pouco chegaria, no que é o Bombeiro Voluntário — o irmão, sempre modesto, mas sempre admirável que nada pede e que nada espera, mas que sempre aparece para ajudar e confortar nas horas amargas do pavor ou da angústia! Recolhamo-nos e meditemos. E recolhidos pensemos nesse homem que sem alardes, um dia, talvez depois do trabalho, fatigado mas nobremente convicto, se dirige, sereno, ao Quartel dos Bombeiros para ai se alistar por querer ser também Bombeiro Voluntário, meditemos, sim, nesta atitude humana e não escrevamos sobre ele mais nada, pois nunca mais encontraríamos para lhas dedicar as palavras que merece. Bem hajam, pois, os que lá longe, há 100 anos, um dia se ergueram acima de toda a vulgaridade chã, e, verdadeiros Capitães do Espírito, fizeram emergir do nada e florir esplendorosamente, a porventura mais bela manifestação do nobre idealismo da história do Povo de a venerar os seus nomes não é, pois, apenas um dever - é também colocarmo-nos mais próximos deles, receber o calor da sua mensagem sempre renovada, enobrecermo-nos. Bem hajam todos os que ao longo destes 100 anos os continuaram por entre crises e progressos, por entre dificuldades e triunfos, por entre inquietações e vitórias, pois sempre foram fazendo andar a obra criada e todos foram dignos dos seus criadores. Bem hajam, agora, os que hoje, na Direcção, no Comando e no Corpo Activo — cobertos pelo prestígio que muito justamente lhe advém do alto nível a que amorosamente elevaram a Associação, tornando-a pela sua dedicação, inteligência e infatigável esforço uma das mais prestigiosas do país - consagram tão nobre passado e tão reconfortante página da história da terra, dando assim mais uma vez e como sempre, testemunho do seu exemplar espírito de fidelidade e de justiça. Penso que é assim que se constrói e enobrece uma Terra! Os Vizelenses sabem-no e reconhecem-no. MANUEL FARIA Bom poeta e admirador da vontade férrea de Manuel Campelos pela sua luta por Vizela, dedicou-lhe um belíssimo poema e que em boa hora, figura no frontispício do edifício da Câmara Municipal: Ao Costa Campelos Com um veemente abraço - para que continue Vamos Vamos, sim, vamos, irmãos e amigos! A terra é nossa! Sejamos por ela! E de mãos dadas, ricos e pobres, De peitos a par, humildes e nobres, Vivamos lutando em prol de Vizela. Vamos, sim, vamos, irmãos e amigos, Que a liberdade espera por nós! Abramos ao vento os nobres pendões Bordados há anos em quentes serões Plenos de fé dos nossos avós! Vamos, sim, vamos, irmãos e amigos! Cumpramos, convictos, o nosso dever! Se temos bandeiras, e alma, e braço, Fiéis ao passado e fiéis ao espaço Abramos caminho - e vamos vencer! Vamos, sim, vamos, irmãos e amigos! Se livres já somos em todo o sentir, Rompamos o cerco, subamos a serra Ergamos os marcos limites da Terra E vamos faze-la, enfim, florir! Manuel Faria