Livros e Abades Paroquiais

Júlio César Ferreira

2020-05-21

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As principais fontes na pesquisa genealógica são os chamados registos vitais: nascimento, casamento e óbito. Dependendo dos anos em que estes eventos ocorreram, estes tomam a forma de registos paroquiais ou registo civil. Embora existam casos esporádicos anteriores, a obrigação de manter registos paroquiais em todas as igrejas surge na sessão de 11 de Novembro de 1563 do Concílio de Trento, que decretou: "Terá o pároco um livro, no qual escreverá os nomes dos esposos, e das testemunhas, e o dia, e lugar em que o Matrimónio se contrai, cujo livro guardará em seu poder com cuidado". Só uns séculos mais tarde, com o Decreto de 16 de Maio de 1832 é que surge a tentativa de criar um Registo Civil em Portugal independente da Igreja Católica, estendendo aos cidadãos não-católicos o direito de registo. A vantagem de reconhecer o registo paroquial, pelo Decreto de 19 de Agosto de 1859, levou á imposição de uma estrutura uniforme, que ajudou a melhorar significativamente o mesmo. Esta situação perduraria até ao final da Monarquia. A maioria dos livros até 1911 foi entregue ao Estado, sendo que os livros posteriores a esta data se encontram nos Arquivos Diocesanos ou na paróquia de origem. A Igreja Católica continua a elaborar registos paroquiais, mas já sem o carácter de registo de cidadãos que antes tinham. É nos registos paroquiais que vamos "beber" muito da nossa árvore genealógica e daí construirmos a história dos abades de cada uma das freguesias que compõem a nossa cidade S. Miguel das Caldas de Vizela Embora num texto sobre o S. Bento, no século 13, se fale de um Martim Annes, por causa de um conflito com o pároco de Tagilde, Simão Domingues, também Pinho Leal, citando Aquiles Estaço (1524-1581) nas suas Antiguidades, refere João Gonçalves, abade em 1405 e cónego da Colegiada de Guimarães. O primeiro registo surge-nos em 1619, com assinatura do Abade António Francisco, que ali se manteve até Junho de 1641. Foi substituído em Julho de 1641, po André Francisco de Sousa, sendo substituído em1642, por Sebantiam Alves, que se manteria até perto de 1653, sendo este substituído como encomendado, pelo padre Paulo Monteiro, a que se seguiria, em 1673, Paulo Mendes. O Padre João de Araújo Brito, cura, dá lugar a Manoel Carneiro em 1678. Por ilegibilidade dos registos até 1709, só a partir desta data e até 1712, vemos a assinatura de João Soares Monteiro em diversos assentos, após o que e por diversas ocasiões, são vários os párocos que assinam os assentos seguintes, quer como encomendados, quer como curas: João Alves Pedrosa, Bento de Oliveira, Pedro de Castro, Agostinho de Barros, José Azevedo Correa, Padre António Barros de Araújo. De 1715 até 1736, foi pároco Joseph Pires. (A este pároco se deve, em 1728, a colocação do Sacrário no Altar-mor da Igreja, já que até ali tinham de ir buscar o Sagrado Viático, à freguesia de S. João). Em 1736, foi substituído por António Alvares que aqui se manteve até 1770. É este António Alvares, que em 1744, requer e obtém licença para reedificar e benzer o Sacrário do Altar - mor e encarregado de fazer o Inquérito Paroquial de 1758. Em 1770, António Alvares foi substituído por Manoel Marques, que se mantem até 1809. Nestes cerca de 40 anos, teve vários coadjutores e encomendados. Em 1773, João Ribeiro de Sam Payo; 1780, Cura Manoel Ferreira; em1782, Cura Manoel Ribeiro Carvalho (que foi padre em S. Faustino); 1788 José Luís de Freitas, com licença do Abade; 1791 Cura, José Dias Pereira; 1798, Cura Jerónymo Pereira, que passou a encomendado. Em 1809, o fidalgo da Casa de Sá, Miguel Joaquim Brandão de Sá Moreira, é nomeado para esta freguesia e cabe - lhe fazer o Inquérito Paroquial em 1842, ordenado pelo Arcipreste de Guimarães, João Gomes de Oliveira, Abade de Tagilde. Miguel Joaquim de Sá, manter-se-ia, no pastoreio desta paróquia até finais de 1843, passando nestes cerca de 43 anos, os seguintes padres, quer coadjutores, quer encomendados, 1810, José Joaquim Leite Ribeiro, 1811, António José de Miranda, 1813, António Alvares Pereira, 1825 José Lopes de Almeida e em 1835, Manoel da Mãe de Deus, que ficará como cura até 1843, após o que toma posse como Abade da Igreja, onde permanece até 1908, tendo durante todos estes anos diversos coadjutores, Domingos José Lopes, Francisco José da Cunha, José Joaquim da Cunha e José Dias da Silva Padrão. De 1888 até Abril de 1911, existem vários livros assinados por José Dias da Silva Padrão, que em 1908, foi cura da Igreja, até a chegada de Bento Lopes de Carvalho, sobre quem recaiu a incumbência de conferir, confirmar e assinar todos os livros presentes na igreja, conforme o Art. 8 do Código do Registo Civil de Abril de 1911. Com as alterações da implantação da República e com as convulsões que o país atravessava, S. Miguel recebeu um dos seus mais importantes Abades, D. Guilherme Augusto Inácio da Cunha Guimarães. Filho de João Inácio da Cunha Guimarães e de Ana de Jesus Costa. Depois de ter feito os estudos preparatórios no Seminário de Guimarães, concluiu em 1900 o curso de Teologia no Seminário Conciliar de Braga, sendo ordenado presbítero a 22 de Setembro de 1900 e celebrado a sua primeira missa a 7 de Outubro imediato na igreja paroquial da sua terra natal. A 5 de Dezembro de 1915 foi transferido para o cargo de pároco da freguesia de São Miguel de Caldas de Vizela, cargo que ocupou cerca de 13 anos até ser eleito bispo de Angra em 20 de Junho de 1928. A sagração episcopal ocorreu a 2 de Setembro de 1928 na Igreja de São Francisco de Guimarães. Foi sagrante do novo bispo D. Manuel Vieira de Matos, arcebispo primaz de Braga, assistindo como consagrantes D. António Bento Martins, bispo de Bragança-Miranda, e D. Agostinho de Jesus e Sousa, bispo coadjutor de Lamego. Esteve presente, em lugar de honra, o bispo cessante de Angra, D. António Augusto de Castro Meireles. De 1928 até 1979, S. Miguel das Caldas, teve com pastor, o Padre, mais tarde Monsenhor, José de Sousa Monteiro, que nos mais de 50 anos que esteve na paróquia deixou uma obra notável, quer em termos humanos, quer materiais. Nos anos 40 fundou o Salão Paroquial, que deu origem a muitas aulas de música (tinha sido professor de música…), para além de um Grupo Cénico. Foi um dos impulsionadores do Corpo Nacional de Escutas, em 26 de Março de 1966, que tantos jovens tem formado ao longo dos anos e que são o orgulho de toda a gente na região, pelo aprumo e garbo, como se apresentam. Em 1959 sonhou com uma nova Igreja, que concluiu em 1970 com uma inauguração com toda a pompa, (segundo as noticias que me lembro de receber lá nas matas do Cacheu, na Guiné) e que, recentemente, comemorou os cinquenta anos da sua inauguração. Nasceu em 3/3/1902 em S. Pedro de Bairro (Famalicão) tendo - se ordenado sacerdote em 19/4/1925. Foi professor de música no Seminário de Évora durante dois anos e capelão da Real Associação H. dos Bombeiros Voluntários de Vizela, tendo sido agraciado pela Santa Sé com o título de Monsenhor em 28/2/1965. Faleceu nesta mesma paróquia no dia 3/9/1979. Constantino Matos de Sá, o actual pároco desta freguesia, agora com o honroso titulo de Arcipreste, de Guimarães e Vizela, formou - se 12 de Julho de 1970 e a sua primeira missa foi em Lousado, duas semanas depois, após o que foi colocado em S. Miguel das Caldas, em Setembro de 1970. É no presente Capelão da Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vizela, cargo que exerce desde a morte do saudoso Cónego Albano, da vizinha freguesia de S. João das Caldas, com uma vida inteiramente devotada ás causas humanitárias, ao associativismo, para além das suas obrigações sacerdotais. A modernização e ampliação da Igreja Paroquial, assim como a restauração da Igreja Matriz, o novo Centro Pastoral, assim como a criação da Irmandade de S. Bento, devem-se ao seu labor e querer, empenho e altruísmo. Brevemente comemorará 50 anos ao serviço da comunidade vizelense. Que os vizelenses não o esqueçam.