Fazer o bem, sem olhar a quem

João Ilídio Costa

2020-10-15

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Tenho tido o privilégio de fazer parte de muitas estruturas da sociedade civil organizada e, sorte ainda maior, de integrar os seus corpos gerentes nos mais diversos cargos. Maioritariamente, estas organizações estão ligadas à economia social, o que aumenta a motivação pessoal num mundo cada vez mais indiferente e até muitas vezes mal frequentado, um pouco como diz o pensador Luís Fernando Veríssimo “o mundo não é ruim, só está mal frequentado”. Sou secretário duma novíssima associação (ANDS – Associação Nacional de Dirigentes Sociais) e, curioso, muitas vezes perante o desânimo de alguns dos seus membros, face a dificuldades diversas de percurso, empresto a minha experiência debaixo da ‘consigna’, como diz o grande poeta castelhano António Machado, “o caminho faz-se caminhando” (caminante, no hay camino, se hace camino al andar…). Sou membro efetivo do Rotary Club de Vizela, desde o ano da sua fundação em 1992, uma velhíssima organização humanitária internacional, fundada há 115 anos, onde sou mais um de entre o milhão e duzentos mil membros que fazem parte dos cerca de 35.000 clubes rotários espalhados por todo o mundo. Já fui também presidente de outras organizações humanitárias e de organizações da economia solidária, razões que me levam neste artigo de opinião a deixar bem vincada a importância de cada um de nós participar ativamente no movimento associativo, não para passar o tempo de forma saudável, mas para darmos o que nos faz falta, seja nas organizações ‘imberbes’ ou naquelas que têm ‘barbas na cara’, pois só assim ajudamos o nosso próximo a vencer a indiferença e particularmente a construir um mundo bem frequentado. Porém, é na área das organizações sociais que se decide, a meu ver, o caminho a seguir; no entanto, começa a ser notória a política em que as obrigações do Estado vão sendo substituídas por esquemas de ‘caridade’, sobressaindo a luta das instituições particulares de solidariedade social, que se queixam diariamente da falta de meios para responder aos deveres do Estado consagrados constitucionalmente, agora mais que nunca devido à pandemia do COVID-19. Assim, queria deixar bem vincado e de uma forma veemente, que uma das causas que mais ânimo nas frentes sociais em que me encontro é a luta contra a “sociedade da caridadezinha”, de má memória em Portugal e noutras geografias que pouco se preocupam com o quotidiano estável de quem mais precisa. Poderia concluir nesta parte do artigo que, no fundo, são sempre razões economicistas, com um subfinanciamento crónico às organizações sociais, a explicar o ressurgimento de fenómenos que julgava enterrados para sempre e a aclarar as dificuldades do movimento associativo que, assim, terá de impor encargos às famílias, na maior parte dos casos insuportáveis. Ainda hoje, por exemplo, é o Rotary Internacional, com o apoio de todas as estruturas espalhadas pelo mundo, que continua a desenvolver uma luta sem quartel contra a poliomielite (no dia 24 deste mês de outubro celebra-se o Dia Internacional da Luta Contra a Pólio), inventando e encontrando as mais diversas soluções para responder à ausência do Estado Social, lá onde a doença não foi erradicada e onde o direito de proteção à saúde, que deveria ser universal e geral e tendencialmente gratuito como acontece em Portugal e noutros países desenvolvidos, não passa de um sonho muito longínquo, apenas ao alcance daqueles que podem aceder à rede hospitalar privada, que cresce ao lado da miséria, exibindo lucros ‘pornográficos’ e transformando-se num bom negócio, também lá, com consequências letais para os doentes. Tenho para mim que se não fosse a sociedade civil organizada, em milhares de associações de todo o tipo, a situação seria imensamente mais grave. Mas o que mais me apavora é verificar que vivemos numa época pós-factual. Infelizmente, vemos isso em todos os quadrantes da vida social e, desde logo a confluência de notícias falsas, passando pelas mais alarmantes publicadas no ‘Twitter’ quando convém aos poderosos do mundo, até de cá, veja-se por exemplo as notícias propaladas sobre a tragédia de Reguengos de Monsaraz e o secretismo à volta da tragédia no Lar do Montepio, entre outras. O atraso de mais de um mês entre os factos e as primeiras notícias é bem revelador da existência de cumplicidades entre as mais diversas entidades. Situações como esta criam a convicção nas pessoas de que os alicerces do racionalismo estão diariamente a ser demolidos, ou seja, quando a realidade não é baseada na razão, estamos perante um retrocesso civilizacional, situação que tem sido aproveitada pelos extremismos para chegarem ao poder, sendo muito difícil ver nisto uma reação à realidade, o que seguramente indícia … ser um divórcio da realidade. Em síntese e analisando a luta titânica que o movimento associativo enfrenta, desde logo olhando para o meu país, caracterizá-lo-ia assim: - nos patamares mais importantes, a começar pela ‘concertação social’ onde pontificam algumas associações da sociedade civil, prevalece em tudo, ou quase, puras razões economicistas do Estado. E … até a nossa Constituição, que consagra a subordinação da ordem económica financeira ao poder político democrático (vide artigo 80.º), fica claramente em causa, também.