Falar de cancro, sem tabus

Francisca Silva

2026-02-19


O Dia Mundial do Cancro, celebrado a 4 de fevereiro, não é apenas uma data no calendário. É, ou devia ser, um ponto de partida para conversas que continuam a ser adiadas, encurtadas ou até silenciadas. Falar de cancro continua a ser difícil e, muitas vezes, desconfortável, mas é precisamente por isso que é urgente fazê-lo.

Nesta edição do jornal, damos espaço a uma entrevista com Cristiana Fonseca, coordenadora do Departamento de Educação para a Saúde do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Uma conversa que não surge por acaso. Para os ouvintes mais atentos, Cristiana esteve na Rádio Vizela nos primeiros dias de novembro de 2025, a propósito do Outubro Rosa e do Novembro Azul. Na altura, falou-se de prevenção, de rastreios e de consciencialização, mas também de algo que ficou particularmente marcado: ainda existe pouco espaço para falar abertamente sobre o cancro e, quando esse espaço existe, é muitas vezes ocupado por discursos apressados, formatos curtos e mensagens simplificadas.

Voltamos agora à conversa, desta vez para olhar para o cancro de forma mais abrangente. Sem campanhas associadas a uma cor específica, sem slogans, sem rodeios. Porque o cancro não cabe em minutos contados nem em frases feitas. É uma realidade complexa, dura, que atravessa famílias, comunidades inteiras e que exige informação clara, rigorosa e acessível.

Este editorial é, por isso, também um compromisso. Um compromisso com o tempo, o tempo necessário para ouvir, explicar e refletir. Um compromisso com a responsabilidade de informar sem alarmismo, mas também sem suavizar uma realidade que continua a exigir prevenção, diagnóstico precoce e apoio contínuo a quem vive com a doença.

Falar de cancro é falar de saúde, mas é também falar de coragem. Coragem para enfrentar o medo, para desmontar mitos e para dar voz a quem muitas vezes prefere, ou é levado a, ficar em silêncio. Acreditamos que a informação salva, que a conversa protege e que o conhecimento continua a ser uma das armas mais fortes na luta contra o cancro.

E é exatamente por isso que estamos aqui. Para falar, sem tabus, e com muita informação.